A política entra nas igrejas, mas a campanha eleitoral fica à porta

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Sem iniciativas de campanha à porta de igrejas, as leituras deste fim de semana tinham uma linguagem política dura sobre a exploração dos trabalhadores e a capacidade de acolhimento pelos cristãos

Longe da prática que se vê na Madeira, com os candidatos que acorrem de microfone à saída das missas, à porta das igrejas no centro de Lisboa não há campanha eleitoral e visíveis só os cartazes que andam pelas ruas. No interior menos ainda, mas a política entra pela porta das leituras deste domingo.

A democracia amadureceu, como também os cidadãos – e, entre estes, padres e leigos. São raros os que debitam votos do púlpito. A César o que é de César, no apelo direto ao voto, mas Deus não se afasta das coisas do mundo, avisou o Papa Francisco, ainda agora no Congresso dos EUA. “Envolver-se na política é um dever cristão”, disse. Assim seja.

São Tiago, de quem se leu neste fim de semana a sua epístola (Tg 5,1-6), é claro como a água. “É uma linguagem violenta mas também colorida em que São Tiago diz verdades fortes”, antecipou o padre António Janela, na missa das 18.30 de sábado, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, a meia dúzia de passos do Marquês de Pombal, em Lisboa.

O autor denuncia os ricos que acumularam tesouros. “Privastes do salário os trabalhadores que ceifaram as vossas terras. O seu salário clama; e os brados dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do Universo. Levastes na terra uma vida regalada e libertina, cevastes os vossos corações para o dia da matança. Condenastes e matastes o justo e ele não vos resiste.”

É uma leitura inequívoca para estes tempos de crise, em que os salários e as pensões foram cortadas e o fosso entre rendimentos mais altos e os mais baixos aumentou em Portugal, em que o desemprego disparou e os apoios sociais diminuíram. Tiago escreve que acumular bens à custa da miséria e da exploração dos trabalhadores é um crime abominável a que Deus não pode fechar os olhos e deixar impune.

Na missa das 11.00 de ontem, na Igreja de Santa Isabel, encravada em Campo de Ourique, o padre Alexandre Palma sublinhou a necessidade de não se ficar a meio caminho, com opções claras. “Como cristãos, importa acumular tesouros do Céu em vez de acumular tesouros na terra.” Despojamento que não se fecha no interior da Igreja Católica, longe da conceção ultrapassada de que só Roma detém a verdade.

“Há pessoas que não são cristãs que são capazes de lutar contra o mal”, sublinhou António Janela. O seu contrário também é verdade: entre os cristãos, há quem se ponha do lado do mal. “Quem dera que todo o povo de Deus profetizasse”, rematou João Seabra, na Igreja da Encarnação, no Chiado, na sua homilia da missa das 12.30, citando as palavras de Moisés no livro dos Números (Nm 11,25-29). Em frente, na Igreja dos Italianos de Nossa Senhora do Loreto, o celebrante sublinharia pouco depois: “O homem livre terá de fazer a sua história.”

Em nenhuma das homilias ouvidas pelo DN assoma a palavra campanha, nem sopra a espuma destes dias. Mas “a linguagem forte e dura”, como define António Janela, das leituras deste 26.º domingo do tempo comum, estão impregnadas de notas. Também na questão dos refugiados: os cristãos têm de ser uma comunidade aberta. O Evangelho de São Marcos (Mc 9,38-43.45-47–48) refere-se ao apelo de Jesus para que as comunidades não “escandalizem” (ou seja, não afastem “da comunidade do Reino”) os pequenos, que é uma outra forma de pensar como lidam os cristãos, enquanto pessoas e comunidades, com os pobres e os que vivem nas margens.

Na missa em Coração de Jesus há 30 pessoas, entre elas dois casais estrangeiros (um que veio de Inglaterra, outro de “Vegas, Las Vegas”, nos EUA). Na oração dos fiéis, intercede-se pela situação na Síria, no Iraque e na Nigéria – e pelos desempregados. Em Santa Isabel, com a nave cheia de gente e muitas crianças, reza-se pelo “silêncio de quem sofre” e outra para que a “comunidade viva a comunhão da diversidade”.

É este pluralismo que Manuel Clemente regista numa “carta aos diocesanos de Lisboa”, de 1 de setembro. “Uma opção “cristã” é necessariamente solidária, com consequências para o que temos ou possamos vir a ter, que sendo “nosso” nunca o é exclusivamente assim”, escreveu o cardeal-patriarca.

Entre o discurso habitual de defesa da vida – a “proteção da vida desde o seu começo” tem sido “mais contrariado do que promovido” -, D. Manuel avança com a necessidade de optar à luz da doutrina social da Igreja, nomeadamente da “dignidade da pessoa humana, bem comum, subsidiariedade e solidariedade”, no que respeita à “família, educação, trabalho, economia, política ou cultura”. É um outro discurso sobre a vida, muito por causa do Papa Francisco. Que é citado ao avisar que “a orientação da economia favoreceu um tipo de progresso tecnológico cuja finalidade é reduzir os custos de produção com base na diminuição dos postos de trabalho, que são substituídos por máquinas. […] Renunciar ao investimento nas pessoas para se obter maior receita imediata é um péssimo negócio para a sociedade”. O voto dos cristãos não é, pois, uma coisa tão óbvia como muitas vezes se quer pintar. (dn.pt)

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