A aposta arriscada de bombardear a Síria

Guerra civil na Síria já dura quatro anos e já fez mais de 250 mil mortos (REUTERS)
(DW)
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França, Austrália e Reino Unido cogitam aderir a ataques aéreos da coalizão liderada pelos EUA. Justificativa seria acabar com a crise dos refugiados. Para especialistas, porém, isso acabaria apenas agravando a situação.

Para o primeiro-ministro britânico, David Cameron, não basta agir como “uma nação com preceitos morais e humanitários, prestando apoio financeiro e ajudando em campos de refugiados”.

“Assad tem que ir, o ‘Estado Islâmico’ tem que ir. Mas parte disso vai exigir não somente gasto financeiro, não somente ajuda, não somente diplomacia, mas vai demandar, ocasionalmente, uma dura força militar”, afirmou Cameron.

O premiê australiano, Tony Abbott, já anunciou planos com vista à adesão de seu país à campanha aérea liderada pelos EUA na Síria e não descartou nem mesmo a possibilidade de enviar tropas terrestres.

Aeronaves francesas já estão fazendo voos de reconhecimento sobre o país em crise, recolhendo informações para possíveis alvos de ataques aéreos, enquanto o presidente francês, François Hollande, anunciou no início da semana a sua intenção de se aliar à campanha liderada pelos americanos na Síria.

Bombardear para salvar

De acordo com Taylor Seybolt, professor de Relações Internacionais na Universidade de Pittsburgh, bombardeios aéreos são pouco eficazes na protecção de civis. Segundo o especialista, tais ataques têm chance de sucesso somente no início de um conflito – antes de as partes estarem entrincheiradas – ou no final, quando os combatentes estiverem exaustos. Além disso, os ataques têm que defender uma área de foco por um determinado período de tempo, diz Seybolt.

Mas nenhuma dessas condições está presente hoje na Síria. “Bombardear pessoas para salvá-las não é, de fato, uma boa prática”, afirma Seybolt, autor do livro Humanitarian Military Intervention: The Conditions for Success and Failure (Intervenção militar humanitária. Condições para o sucesso ou fracasso, em tradução livre)

“A actual conversa em torno do bombardeio humanitário não está focada numa determinada área de protecção ou numa população”, explica. “É apenas uma espécie de declaração ampla de que vamos tentar ajudar pessoas, para que permaneçam onde estão em vez de ir para a Europa.”

Arriscadas zonas de protecção

No passado, a Turquia, que acolheu aproximadamente 2 milhões de refugiados sírios, propôs zonas de protecção na fronteira com a Síria. Mas a estratégia demandaria tropas terrestres, diz Benjamin Valentino, pesquisador de intervenções humanitárias da Universidade Dartmouth. Ele explica que a guerra civil na Bósnia, na década de 1990, serve de advertência para os líderes actuais.

“Se não estivermos dispostos a defender tais zonas de protecção em solo, elas se tornarão muito vulneráveis”, opina Valentino. “O que vai acontecer provavelmente é o mesmo que se passou com as zonas de protecção na Bósnia. Eles acabaram sendo invadidas porque não foram devidamente protegidas em terra.”

Segundo ele, não há disposição no Ocidente para o envio de tropas terrestres, e há pouquíssimos grupos organizados com quem vale a pena trabalhar na Síria. Ele diz que, sem soldados em terra, será muito difícil distinguir vítimas de agressores.

“É muito difícil proteger realmente civis no solo usando caças que voam a 800 quilómetros por hora e a 10 mil metros de altura. Mesmo os drones não são suficientes para detectar os agressores, separá-los das vítimas e atacá-los”, critica.

Rússia dificulta uma solução

Guerra civil na Síria já dura quatro anos e já fez mais de 250 mil mortos (REUTERS)
Guerra civil na Síria já dura quatro anos e já fez mais de 250 mil mortos (REUTERS)

O “Estado Islâmico” é somente o “subproduto” do amplo conflito sírio, afirma Welle Majid Rafizadeh, especialista em Irão e Síria da Universidade Harvard. Segundo ele, o Ocidente estaria agora combatendo os sintomas em vez da doença.

“A raiz do problema é o conflito sírio em curso”, diz Rafizadeh. “Há demanda por uma estratégia mais abrangente. O Ocidente deveria olhar para a raiz da questão e pôr de lado a política do ‘esperar para ver’ em relação à Síria e ao EI.”

Encontrar uma solução política global para o conflito tem sido uma tarefa complicada devido ao apoio russo directo ao regime Assad. De acordo com Seybolt, uma ingerência de terceiros prolonga muitas vezes um conflito, dificultando o seu término.

“É muito preocupante o fato de a Rússia estar enviando mais material de apoio para o regime Assad”, ressalta Tony Seybolt, que também trabalha no Instituto Ford de Segurança Humana. “Isso vai ser um obstáculo para qualquer tipo de iniciativa diplomática na ONU ou para qualquer parte terceira que seja capaz de servir de mediador nas negociações.”

“Colocam-se soldados e artilharia num conflito em andamento e parece que vai piorar antes de melhorar”, acrescenta o pesquisador da Universidade de Pittsburgh.

Foco na ajuda a refugiados

De acordo com Valentino, devido à dificuldade de se encontrar uma solução política, a principal forma de ajudar a população da Síria, no momento, é abrigar aquelas pessoas que conseguiram escapar do conflito. “Muitos países ocidentais não estão interessados em fazer isso, mas acho que é mais admissível ajudar pessoas do que jogar algumas bombas sobre a Síria”, explica Valentino.

Enquanto a Alemanha vai receber mais de 800 mil refugiados neste ano, o Reino Unido concordou em abrigar apenas 20 mil pessoas ao longo dos próximos cinco anos. Em 2015, a França deverá acolher 24 mil. A distante Austrália concordou com 12 mil este ano. Na quinta-feira (10/09), os EUA anunciaram seus planos de aceitar 10 mil refugiados em 2016. Há relatos de que Washington vai ampliar o limite máximo de sua cota de refugiados de 70 mil para 75 mil.

A guerra civil na Síria, que se iniciou há quatro anos, já matou mais de 250 mil pessoas e levou mais de 4 milhões a deixarem suas casas, segundo dados das Nações Unidas.

Pelo direito internacional, os refugiados são obrigados a pedir asilo em seu primeiro país de entrada. Geograficamente, países como os EUA e o Reino Unido estão mais distante de zonas de conflito do que a Alemanha e outros países europeus na linha de frente do actual fluxo de refugiados. Mas isso não é motivo de se esquivar da responsabilidade, afirma Seybolt.

“Já que o Reino Unido e os EUA não são países de primeira entrada, eles estão fazendo o que são obrigados a fazer legalmente”, afirma. “Por outro lado, eles têm capacidade de aceitar muito mais refugiados do que esses países estão aceitando, e essa capacidade deve ser usada.” (DW)

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