27 de Maio tematizado em Berlim

Jornalista e escritor angolano José Luís Mendonça, em Berlim (DW)
Jornalista e escritor angolano José Luís Mendonça, em Berlim (DW)
Jornalista e escritor angolano José Luís Mendonça, em Berlim (DW)

O angolano José Luís Mendonça apresentou seu livro O Reino das Casuarinas, no Festival Internacional de Literatura de Berlim – que reúne autores de todo o mundo. A obra pretende esclarecer mitos sobre o 27 de Maio.

O jornalista e escritor angolano José Luís Mendonça apresentou ao público de Berlim seu romance histórico O Reino das Casuarinas, baseado em fatos reais.

Mendonça criou sete personagens, inspirados em pessoas que conheceu em Luanda, para desfazer mitos de um dos momentos históricos mais importantes para seu país, nomeadamente o 27 de Maio de 1977, “com uma história que eu criei para contar a realidade da guerra, da política e da discriminação no tempo colonial”.

Também a política pós-27 de Maio, qualificado pelo escritor como uma “caça às bruxas”, e “o sofrimento que isso causou ao povo” são abordados na obra.

Segundo Mendonça, o primeiro ponto a esclarecer é que o 27 de Maio foi um movimento planeado – e com anos de antecedência.

“Muita gente pensa que o 27 de Maio foi uma coisa espontânea, que o povo saiu à rua em 77 para tirar o Agostinho Neto do poder. Mas não foi,” afirma o escritor.

“Foi uma coisa preparada ainda no tempo da guerrilha. Vinham já há dois, três anos a preparar aquilo, a formar grupos clandestinos, para tomar o poder e tirar do Governo aqueles que eles consideravam descendentes dos colonos,” explica.

Divergências no seio do MPLA

O escritor defende a tese de que o Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA), já estaria fraccionado há alguns anos.

“Houve a Revolta Activa, do Mário Pinto de Andrade, em 73/74. Depois houve a Revolta do Leste, do Daniel Chipenda,” recorda.

“O Nito Alves, em 74, antes da independência, no Congresso de Lusaka, foi a pessoa que defendeu o Agostinho Neto contra a ala do Chipenda. Mas as pessoas deveriam contar isso à juventude. Não contam,” pontua o escritor.

“Por que o Nito Alves não se aliou ao próprio Chipenda? Por que não se aliou à Revolta Ativa? Porque ele não queria ninguém, era um homem radical. Não era democrata. Era um déspota,” avalia.

Nito Alves teria sido então nomeado ministro do Interior de Agostinho Neto, o primeiro Presidente de Angola, numa tentativa de unificar o partido.

“Então, deu ao Nito Alves um lugar de destaque para ver se haveria unidade, para que não houvesse uma guerra interna,” diz Mendonça.

Para o escritor, Agostinho Neto “era um homem clarividente, já sabia que isso iria dar muita morte, muita matança”.

“Mas o Nito Alves não quis. Formou o seu grupo para tentar tirar do poder aqueles que diziam que eram burgueses e pequeno-burgueses,” acrescenta.

O 27 de Maio de 1977 foi marcado por manifestações em Luanda a favor de Nito Alves, que na altura era também um dirigente do MPLA. O Governo classificou os acontecimentos de tentativa de golpe de Estado. A seguir, os apoiantes de Nito Alves foram perseguidos pelo MPLA, segundo o relato das autoridades. Para Mendonça, ainda há muito o que esclarecer.

“Hoje em dia, alguns jornais privados e certos jovens não sabem quem foi o Nito Alves, nem conhecem a história do MPLA e estão a fazer um branqueamento da história. Portanto, eu tinha que contar essa história,” conclui. (DW)

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