Urbanismo. Dar forma ao futuro

Nova Marginal de Luanda (Foto: D.R.)
Nova Marginal de Luanda (Foto: D.R.)
Nova Marginal de Luanda
(Foto: D.R.)

O urbanismo não deve ser pensado apenas para criar uma malha urbana com lógica, deve ser pensado para criar espaços e experiências e sensações a quem vai usufruir da cidade. Não chega apenas a criatividade dos traços, tem de se ir mais longe e pensar o espaço em todas as suas vertentes, e com uma visão do futuro sempre presente.

Numa altura em que as autoridades angolanas anunciam a elaboração de cartas de risco, que antecedem os Planos Directores Municipais (PDM) que estão a ser preparados em todo o território nacional, a questão do ordenamento do território ganha uma nova dimensão e traz à ribalta a discussão sobre o futuro da organização das cidades.

A protecção das populações e bens contra os riscos de cheias, inundações e outros problemas com desastres naturais é uma prioridade, depois das recentes chuvas fortes que se fizeram sentir em Luanda e no Lobito. Mas as autoridades com competência sobre a organização das cidades vêem-se a braços com uma tarefa mais abrangente para dar resposta aos anseios da população.

Quando se fala em cidades, é inevitável a associação a uma estrutura ou malha urbana pensada para ser usada por pessoas. São as mesmas que dão vida e que usufruem e visitam os espaços urbanos, e é a pensar nelas que os decisores e os investidores do mercado imobiliário direccionam os seus projectos. Ao desenvolver ou restruturar uma cidade, deve existir uma gestão muito própria, pensada não só a nível social, financeiro, profissional, entre outros, mas também numa vertente de marca/branding, suportada por um bom plano de marketing territorial e ambiental de forma sustentada e sempre com um foco nas pessoas e na forma como estas se vão relacionar com os espaços.

Adequar os espaços às funções a que se destinam

As cidades do futuro tendem a ser geridas de uma forma diferente, como uma marca com um cuidado visual, com responsabilidade social, ambiental e tecnológica, preparadas para educar o seu futuro cidadão, através da classificação de determinados padrões sociais como habitantes, visitantes, e trabalhadores.

Nesse sentido, permite-se que as mesmas possam ser trabalhadas e geridas a nível urbano para estes focos, permitindo assim envolver o seu público de forma acolhedora e trabalhar os espaços para a sua função. Desta forma, evita-se a desertificação ou a aglomeração desordenada de funções citadinas que podem vir a originar problemas sociais, por estarem desadequadas. Neste sentido, é importante estudar o que se verificou no passado em algumas cidades. Quando o seu desenvolvimento foi feito de forma orgânica e não pensada como um todo – como uma malha urbana, que se entrelaça -, este acabou por gerar dificuldades na vivência diária das populações, resultando em fluxos de tráfego intenso, sem espaço para crescer, com zonas sociais problemáticas e sem uma estrutura urbana preparada para receber o futuro.

Na maior parte das vezes, esta foi a ordem natural das coisas em todo o mundo, existindo uma evolução social que, de século para século, ia trazendo novas ideias e formas de ver as cidades. Hoje em dia, existe uma sensibilidade que irá ser forçosamente diferente daqui a 50 anos. As cidades devem, por isso, estar preparadas para abraçar os novos desafios que se colocam ao seu crescimento, no que respeita não só à malha urbana, mas também à consciência das sociedades a nível tecnológico e ambiental, que começa a surgir e que irá modelar a forma de viver. É seguro que iremos assistir, num futuro muito próximo, ao paradigma das novas cidades pensadas para um cidadão tecnológico.

Criar experiências e sensações

A globalização veio ajudar a forma de ver os espaços urbanos e a sua organização, e o conceito de aldeia global aproximou os cidadãos do mundo mas também classificou alguns lugares como pólos de desenvolvimento social, financeiro, inovador, e ambiental, entre outros, cabendo às entidades reguladoras dos Planos Directores Municipais a função de gerir e interpretar a evolução dos tempos. É hoje essencial pensar as áreas de intervenção de forma equilibrada e adaptada à evolução do cidadão, permitindo que os mesmos se possam envolver com as cidades e com a sua vivência urbana.

O urbanismo não deve ser pensado apenas para criar uma malha urbana com lógica: deve, sim, ser pensado para criar espaços e experiências e sensações para quem vai usufruir da cidade. Não chega apenas a criatividade dos traços ou a beleza e a estética, tem de se ir mais longe e pensar o espaço em todas as suas vertentes, com uma visão do futuro sempre presente. Os consumidores estão cada vez mais exigentes e informados.

São eles quem faz as marcas, hoje em dia, e as cidades têm de ser cada vez mais apelativas para estes consumidores, já que está na sua mão alavancar as economias. São eles quem vive e promove as cidades: em última análise, são eles quem, na realidade, faz as cidades. As cidades precisam de pessoas, precisam de movimento, de dinâmica, de vida. Sem isso não faz sentido existirem. A necessidade de criar valor numa cidade é fundamental e deve ser olhada em toda a sua geografia, avaliando todas as suas vertentes e características e proporcionando satisfação ao seu público-alvo.

Esta deve ser feita numa perspectiva de valorização e lógica de mercado, devendo haver uma promoção focada na marca da cidade, que deve possuir uma missão, com um posicionamento e uma segmentação bem definida.

A tecnologia permite antecipar os erros

As restruturações das cidades devem ser a oportunidade de corrigir alguns problemas que se foram acumulando no passado e permitir olhar para os Planos Directores Municipais de uma forma mais pragmática e, talvez até, mais pertinente. É preciso que sejam criados planos pensados para abraçar o futuro e não ter medo de ser inovador ou até de cortar com o passado em alguns aspectos, mas ter sempre presente qual é a função que foi planeada e esteve na base dessa mudança.

Com as novas tecnologias, é possível hoje antever uma cidade, estudá-la em pormenor, de uma forma visual que é muito próxima da sua realidade, permitindo que todos estejam sintonizados e vejam a mesma mensagem. Isto traz imensas vantagens, já que facilita a explicação e permite criar argumentos sustentados em imagens e vídeos 3D, que demonstrem as vantagens das ideias propostas para a restruturação ou criação de novos pólos urbanos dentro de uma mesma cidade.

A evolução tecnológica permite ver com enorme realismo o futuro, projectando e antecipando alguns erros que, no passado, só se verificavam depois de serem realizados. Permite ainda estudar os detalhes a implementar ao pormenor, com a simulação de texturas, luzes, formas e até de fluxos de pessoas e veículos, o que permite a quem esteja a projectar ter uma visão mais realista do seu trabalho Vivemos, hoje em dia, numa era em que tudo parece ser efémero e fugaz, e as cidades não fogem à regra, sendo classificadas pelo seu público de acordo com as suas exigências.

Afinal, elas foram evoluindo, ao longo dos tempos, para que as pessoas as vivessem de acordo com as suas necessidades. Uma cidade pode simultaneamente ter uma vertente mais turística, outras serem mais financeiras, outras mais residenciais e outras, ainda, terem à sua frente um futuro promissor a ser modelado, à espera que chegue a sua vez de ser uma cidade do futuro. (expansao.ao)

 Por: Miguel Correia (Arquitecto e director da Pura Imagem)

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