República Centro-Africana: Quando um Estado falhado vai a votos

(Foto: D.R.)
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Martirizado por um violento conflito inter-religioso, o país prepara-se para eleições presidenciais em Outubro. A pobreza extrema, a insegurança e a soberania sob protectorado da ONU ditam as regras do dia-a-dia.

A República Centro-Africana (RCA) foi palco de um violento conflito inter-religioso que opôs muçulmanos e cristãos, e que provocou milhares de mortos, deslocados e refugiados. Graças a um governo e presidência de transição, impostos pela comunidade internacional, o país prepara-se para eleições presidenciais a 18 de Outubro.

Mas as eleições são talvez o que menos preocupa, actualmente, o cidadão comum, atingido por uma pobreza atroz, sem empregos, num país sem economia oficial, sem administração pública ou justiça, entregue aos desmandos das milícias Seleka (muçulmanos) e anti-Seleka (cristãos) que nos bairros das cidades impõem a sua lei pela força das armas.

Os confrontos na RCA eclodiram em 2013, na sequência de um golpe de Estado que depôs o presidente François Bozizé e que mergulhou o país numa espiral de violência que assumiu contornos religiosos opondo muçulmanos e cristãos.

O país vive em instabilidade constante desde a independência da França, em 1960, e é um dos menos desenvolvidos do mundo, tendo sofrido vários golpes de Estado. O mais mediático foi protagonizado em 1979 por Jean Bedel Bokassa, que se autoproclamou imperador. Foi derrubado e substituído por David Dacko. Este também foi destituído por Andre Kolingba.

O seu sucessor, Felix Patassé, sofreu várias convulsões sociais. Em 1999, derrotou vários adversários e regressou à presidência, mas foi destituído em 2003. Entre 2008 e 2012, o país entrou numa fase de estabilização, antes de as milícias rebeldes Seleka terem deposto François Bozizé, em Março de 2013.

Os confrontos mergulharam o país numa espiral de violência entre muçulmanos e cristãos. Milícias cristãs “anti-balaka” – ou anti-machete – formaram-se para vingar as atrocidades cometidas pelas milícias Seleka. Para agravar a situação, a missão de paz da ONU também contribui para a instabilidade de diferentes formas.

No sábado passado, um capacete-azul do Ruanda abateu quatro colegas e feriu oito por motivos desconhecidos, antes de ser abatido. Tratou-se do pior incidente a envolver a missão de paz da ONU – designada por MINUSCA – desde Setembro de 2014. Em Dezembro de 2013, soldados chadianos e do Burundi trocaram tiros mas ninguém ficou ferido.

A missão da MINUSCA integra 10.800 soldados do Burundi, Camarões, Congo, República Democrática do Congo, Guiné Equatorial, Gabão, Marrocos, Senegal, Paquistão e Indonésia.

É este o ambiente que se vive na em Bangui, a capital, patrulhada por soldados da União Africana sob comando da ONU. Não bastasse a violência extrema, pobreza e insegurança, somam-se incidentes provocados pelos próprios capacetes-azuis, acusados de dezenas de casos de violações sexuais de menores.

As eleições presidenciais já foram adiadas três vezes. Centenas de milhares de pessoas fugiram das suas casas devido à guerra civil que se abateu sobre o país, pelo que as eleições são consideradas uma oportunidade de reconciliação nacional, se o processo decorrer com normalidade. Meia centena de candidatos anunciou querer concorrer, mas nem todos terão condições para disputar o acto eleitoral.

Serge Bokassa, filho do antigo ditador e imperador, foi um dos que manifestaram a intenção de concorrer à presidência. Entre os candidatos já conhecidos, três têm possibilidade de ser eleitos, nomeadamente os ex-primeiros- ministros Martin Ziguelé (MLPC) e Anicet Dologuele (URCA), e o independente, professor universitário, ex-ministro da Educação e ex-vice-presidente da Assembleia Nacional, Timoleon Baikoua.

O artigo 106 da Constituição de Transição impede os actuais ministros e a presidente interina de concorrerem ao acto eleitoral. Dada a inexistência de administração pública e justiça eficientes, é uma incógnita prever como será feita a fiscalização e controlo eleitoral nas três mil assembleias de voto. O processo ficará por conta da ONU e dos observadores internacionais, o que por si só não dá garantias de que o acto seja livre e justo.

O facto de a ONU não desarmar as milícias, a pobreza extrema, e os ódios e vinganças latentes são os ingredientes presentes que podem provocar mais uma eventual tempestade perfeita na vida desta sofredora nação africana. (expansao.ao)

Por: Sérgio Soares na RCA

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