Reflexão: auto-responsabilização e accountability

(D.R.)
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É urgente desenvolver a auto-responsabilização nas pessoas! Reflectiremos hoje, num primeiro artigo e, posteriormente, num segundo, sobre a relevância da responsabilização das pessoas e das/nas instituições.

A auto-responsabilização é aquilo a que os psicólogos chamam na sua gíria técnica ‘locus de controlo interno’. (ou de causalidade?) Quem tem um locus de controlo externo vive a vida a queixar-se da vida e dos outros, a culpa de tudo o que de mau acontece é da vida e dos outros. Ao culpar os outros, tendemos a resignar-nos, a desistir e a encostar-nos.

Com maior facilidade, estas pessoas sofrem de ansiedade e stress. Com maior facilidade, e como consequência de se resignarem, acabam por ter menos sucesso (no trabalho, nas relações, na escola) na vida e, no limite, ser menos felizes.

Para começar, é necessário perceber que culpa e responsabilidade são conceitos diferentes. Culpar não é sinónimo de responsabilizar. O sentimento de culpa é desconforto por considerarmos que somos responsáveis por algo negativo que aconteceu e temos o desejo de termos feito algo diferente daquilo por que nos consideramos responsáveis.

Culpar os outros ou tentar provocar sentimentos de culpa são dos métodos mais eficazes para manipular os outros e, consequentemente, de prender e de impedir o crescimento. Manipular os outros pode ser eficaz no curto prazo, mas, assim que é descoberta a sua intenção, a vítima deixa de confiar e percebe que a sua liberdade de actuação foi restringida, desinveste e, por vezes, procura retaliar. Já a responsabilização é uma forma de fazer com que o próprio e os outros assumam o que cabe a cada um, o que lhe é devido, implica não fugir e assumir.

Culpar o outro ou a si mesmo gera peso e conflito! Responsabilizar deve gerar direcção e energia para corrigir e avançar, contribuindo assim para a concretização do bem maior. Em segundo lugar, precisamos de olhar para cada um dos contextos onde o ser humano circula e verificar como cada um pode contribuir para a responsabilização do próprio e dos outros.

Em casa, os pais precisam de começar cedo a ensinar aos filhotes que eles devem assumir aquilo que lhes cabe, desde arrumar os brinquedos até fazer os deveres da escola. Se assim não for, corremos o risco de ter crianças mimadas e caprichosas, que acham que tudo tem de ser como elas querem e que o mundo existe para as servir…

Na vida adulta, estas crianças vão sofrer muito com este enquadramento, quando perceberem que o mundo não funciona assim, nem de perto nem de longe! Na escola, as crianças precisam de aprender a ver o que elas mesmas podem fazer para ultrapassar as dificuldades e aprender melhor. Se assim não for, sempre que tiverem má nota, vão dizer “a culpa é do professor, ele é mau, ele não gosta de mim, logo não vale a pena estudar esforçar-me”.

Na escola aprendemos competências básicas que nos prepararão, em parte, para uma profissão; aí devemos aprender também a ser cidadãos responsáveis entendendo como nos podemos superar a nós mesmos. No trabalho, precisamos de aprender a empenhar-nos e a dedicar-nos, a fazer a nossa parte, a não nos encostarmos ao esforço do outro. Fazer isto implica não ter medo de ser chamado de graxista ou bajulador.

Se assim não for, vamos passar a vida a dizer que o chefe é mau, que a empresa é má, que faltamos ao trabalho porque os colegas não gostam de nós, que nãos nos empenhamos por culpa dos outros! Precisamos de aprender que a relação de trabalho deve ser de reciprocidade: para eu receber salário e condições, tenho de dar o meu trabalho e empenho em troca. É esta a lógica do Multicaixa: para levantarmos dinheiro, temos de depositar. Nas relações interpessoais, seja com o marido, com um amigo ou com os pais, precisamos de aprender a ver qual é a parte que nos cabe para que a relação funcione. Às vezes é necessário ignorar pequenos melindres, é preciso saber pedir desculpa. Se assim não for, vamos andar a dizer “eu bati-te, porque tu me irritaste. Eu trai-te, porque tu não me dás atenção”.

Na sociedade, precisamos de ver o que podemos fazer para o bem-estar social e para o desenvolvimento dos países. Se assim não for, vamos achar que todos os pobres que moram em bairros mais desfavorecidos são criminosos, ou ainda que o país e o Estado têm de assegurar todas as nossas necessidades e que têm de me dar de tudo um pouco.

Já dizia John Kennedy – “Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti. Pergunta o que podes fazer pelo teu país.” Por fim, não podemos esquecer que a auto-responsabilização ou o locus de controlo interno quer-se como o sal: q.b.! Não pode ser excessivo, já que não podemos carregar sozinhos com o peso de tudo, os outros também têm de fazer a sua parte.

Se exagerarmos, corremos o risco de cairmos na auto culpabilização. Ao carregar um peso superior ao que nos cabe, corremos o risco de cair na depressão, de sermos maltratados pelo outro, de não nos conseguirmos defender e afirmar. Logo, a auto-responsabilização e a assertividade devem namorar-se. (expansao.ao)

Por: Ana RochaPsicóloga e consultora da A+ Angola

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