Presidente do Gabão diz que vai doar dinheiro que herdou do pai Omar Bongo

Ali Bongo, presidente do Gabão (Foto: D.R.)
Ali Bongo, presidente do Gabão (Foto: D.R.)
Ali Bongo, presidente do Gabão
(Foto: D.R.)

Ali Bongo prometeu doar todo o dinheiro que herdou do pai para constituir uma fundação para a juventude. “Todos somos herdeiros de Omar Bongo”, disse. E se outros chefes de Estado lhe seguissem o exemplo?

O actual presidente do Gabão, Ali Bongo, acaba de prometer que vai doar a totalidade do dinheiro que herdou do pai, o ex-presidente Omar Bongo, e instituir uma fundação para as crianças do seu país.

“Aos meus olhos, todos somos herdeiros de Omar Bongo”, disse o presidente num discurso à nação. Entretanto, está por apurar o testamento e totalidade dos bens do seu pai, que governou o Gabão durante 41 anos, até à sua morte, no ano de 2009. Alegadamente, Ali Bongo recebeu uma fortuna do pai avaliada em dezenas de milhares de milhões de dólares.

A justiça francesa julga actualmente a família Bongo por alegado enriquecimento ilícito, fortemente desmentido. Falando nas cerimónias do 55.º aniversário da independência, o presidente Ali Bongo afirmou que, para além de doar a sua herança, a família vai construir um edifício na capital, Libreville, para se criar uma nova universidade. “Nenhum gabonês deve ser deixado à margem”, sublinhou.

A acrescentar a esta generosidade repentina, duas propriedades do ex-presidente Omar Bongo em Paris também serão doadas ao Estado, disse. “Sei que o meu pai, de onde está agora, nos olha e nos ouve. Também sei que aprova esta decisão e nos dá a sua bênção”, afirmou. Como em muitas outras cleptocracias, as acusações de corrupção no Gabão do ex-presidente Omar Bongo sempre foram frequentes.

Mas foi só em 2010 que, graças à justiça francesa, os ganhos ilícitos do ex-chefe de Estado foram postos em causa, após uma campanha desencadeada pela organização Transparência Internacional. Na sequência das denúncias, foram nomeados dois magistrados para investigarem as finanças do antigo presidente gabonês e a das famílias dos dirigentes da Guiné Equatorial e do Congo-Brazzaville, para apurar se fundos do Estado foram apropriados indevidamente e gastos em França.

Na república francesa, a justiça identificou quase quatro dezenas de propriedades localizadas nas melhores áreas do centro da capital, Paris, e da turística Riviera francesa, para além de viaturas de luxo, incluindo Ferraris e Mercedes, avaliadas em 1,6 milhões USD.

Um exemplo a seguir E se, de repente, todos os antigos e actuais líderes africanos resolvessem seguir as promessas de Ali Bongo e devolvessem as suas fortunas colossais aos respectivos povos? O impacto seria incalculável no bom sentido. Isto porque é sabido que as pessoas mais ricas do continente africano em geral são antigos ou actuais chefes de Estado ou as respectivas famílias. O Gabão não é excepção.

Em abono da verdade, deve recordar-se que o antigo presidente do Zaire, Mobutu Sesse Seko, após 32 anos de domínio, teve de abandonar o poder à pressa em 1997, mas levou consigo o resto da fortuna que ainda tinha no país, avaliada entre 1,1 mil milhões e 5 mil milhões USD. O “Leopardo Africano” não teve outro remédio senão abandonar o país dada a aproximação dos rebeldes liderados por Laurent Kabila, que ameaçavam tomar Kinshasa. Mobutu utilizou o Zaire, actual Rep. Democrática do Congo, e os seus vastos recursos minerais, como propriedade pessoal.

O resultado da exploração das minas de diamantes, cobalto, ouro e urânio, entre outras, era directamente canalizado para as suas contas privadas no estrangeiro. Deu-se ao luxo de construir palácios de mármore em plena selva, como o Gbadolite, hoje em ruínas.

Recentemente, alguns líderes africanos da Comunidade dos Estados da África Ocidental (Ecowas) tentaram tornar obrigatório um limite de três mandatos para os chefes de Estado dos países membros, mas tiveram de desistir porque a Gâmbia protestou. A Nigéria, o maior país dessa organização, foi governada pelo general Ibrahim Babangida, entre 1985 e 1993, e a Forbes alega que o ditador arrecadou mais de 12 mil milhões USD no exercício dessas funções.

Seja como for, a anunciada atitude do actual presidente do Gabão, a concretizar-se, será mais louvável do que a de dezenas de outros ditadores africanos que amealharam fortunas colossais à custa dos seus empobrecidos povos e países. (expansao.ao)

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