Percurso histórico do conjunto “Nzaji”

(ja.ao)

O conjunto “Nzaji”, formação musical criada na cidade de Moscovo, em 1964, sustentou o lado romântico da clandestinidade e da guerrilha, durante o processo de luta anti-colonial,  com canções que veiculavam mensagens explícitas e mobilizadoras, difundidas no programa radiofónico.

(ja.ao)
(ja.ao)

“Angola combatente”, emitido em Brazzaville, período que acabou por marcar o início da formação da canção política estruturada,  na linha de continuidade do período acústico da Música Popular Angolana. A formação do conjunto “Nzaji” resultou da tomada de consciência cultural dos nacionalistas angolanos, em situação colonial, que teve como  consequência, o posterior pragmatismo político, que culminou com a  celebração da  independência de Angola.

Na  época da formação do conjunto “Nzaji”,  o  jovem, José Eduardo dos Santos, tinha então vinte e dois anos, tendo fundado, e orientado a estétia do Conjunto “Nzaji”, formação que primeiro se designou os “De repente”, uma emanação e degenerescência do conjunto “Kimbambas do ritmo”, criado em 1959, grupo que, à época, acusava uma assinalável solidez estrutural, e notável pendor criativo.

Constituído por José Eduardo dos Santos (composição,voz e guitarra), Pedro de Castro Van-Dúnem “Loy” (voz e composição), Brito Sózinho (voz e composição), Ana Wilson (voz, coros ), Maria Mambo Café (voz e coros ), Amélia Mingas (voz e coros), Mário Santiago (guitarra), Faísca (guitarra), Biguá (voz), Fernando Assis (piano e composição),  e Fernando Castro Paiva ( ngoma), o conjunto “Nzaji” veio a tornar-se o paradigma da canção política da época da guerrilha.

Canções

As canções “Kaputu”, “Ufolo”, “Dituminu”, “Etu tuá anangola”, “Monangambé”,  “Dr. Neto”, um panegírico ao poeta Agostinho Neto, “Deba”, “Monetu uá kassule, e “M.P.L.A in nvuluzi”, são temas paradigmáticos da música revolucionária, que a contemporaneidade retoma para reviver a poeticidade e a memória de uma época de esperança, luta e certeza na vitória.

A canção “Kaputu muá ngoleé”, um texto singelo mas de comunicação directa,  com  letra e música de José Eduardo dos Santos, é um exemplo que denota, de form clara, a intenção de denúncia contra a ocupação colonial portuguesa: Kaputu muá ngoleé/ Uandala ku tu giba/ Kaputu muá ngolé/ Uandala ku tu giba/ Ai, ai kaputu/ Muá ngolé/ Muá ngolé/ Muá ngolé/ Mamã.

Kimbambas

Os “Kimbambas do ritmo”, formação criada em  1960, foi a ante-câmara ao surgimento do conjunto “Nzaji”, na linha de continuidade dos “Kimbambas Clube Desportivo Ginásio”, constituída por: Pedro de Castro Van-dúnem (Loy), Balduíno da Silva (Buanga), Mário Santiago, Bea Santiago, Faísca, Ámem de Deus, Manuel Rufino da Conceição Neto (Biguá), Brito Sózinho, Tomás dos Santos e Domingos dos Santos.

Dos “Kimbambas do ritmo” à formação do “Nzaji, vai um lapso temporal de quatro anos, com saídas e entradas de novos integrantes, uma movimentação condicionada pela tensão política, e fuga dos jovens para Brazzaville, com o fito de se juntarem à luta de libertação nacional.

Este período ficou marcado pela determinação de  José Eduardo dos Santos, Pedro de Castro Van-Dúnem “Loy”,  e Mário Santiago, de se juntaram aos heróis da luta de guerrilha.  O legado  dos “Kimbambas do ritmos” foi passado, em Fevereiro de 2006, ao cantor, Domingos Fernando, “Manú”, durante uma gala realizada no Cine Tropical.  A formação actual dos  “Kimbambas do ritmo” é constituída por: Manú (voz e percussão),  Fernando Vicente, Juca, (bateria), Matias Samba Pedro, Alex Samba (guitarra solo), Eliseu da Cunha (viola baixo) e Augusto Mateus, Neto, (teclas).

Depoimento

Maria Mambo Café, destacada nacionalista angolana, fez um raro e interessante depoimento, numa das sessões da “Maka à quarta-feira”, realizada na sede da União dos Escritores Angolanos , no dia 22 Agosto de 2013, tendo enaltecido o contributo do Conjunto “Nzaji” na luta de libertação nacional, nos seguintes termos: “Tudo aconteceu em 1964 e foi o saudoso camarada,  Pedro de Castro Van-Dúnem “Loy”, quem deu o nome ao grupo.  Nós questionámos, porquê Nzaji, e o “Loy” defendeu que “este nome carrega algo forte e fulgurante”, acrescentando também que “tem algo de luz”.

Estávamos no início da luta de libertação nacional e a música teve sempre  um grande efeito mobilizador, tanto internamente,  como no exterior de Angola: “Embora com muitas saudades de Angola, recorda ainda Maria Mambo Café, todos tínhamos consciência do efeito mobilizador das nossas canções, daí o nosso sentimento de nostalgia, que transparece na forma como interpretámos a melodia de cada tema.

No início cantávamos para unir todos os nacionalistas, e a canção “Ivuenu, Ivuenu, Anangola”, da autoria do canarada José Eduardo dos Santos, “JOES”, simboliza o início do projecto, em Léopoldville.

Maria Mambo Café referiu ainda que: “Demos um importante contributo à luta de libertação nacional através da música. O protesto, através da música, esteve sempre presente ao longo da colonização portuguesa, muitas vezes utilizámos a estratégia do uso das línguas nacionais, que iludiam a censura.

Cantávamos para dar a conhecer o que é Angola e mobilizar fundos para o MPLA. Inicialmente, começámos por fazer actividades só com estudantes que estavam em Moscovo, mas depois  vimos a importância de produzir um disco e aproveitamos a época de férias, para integrar outros camaradas, como José Eduardo dos Santos, que estava em Baku”.

Maria Mambo Café acrescentou ainda que “as músicas como “Monangambé”, “Dituminu” e “Deba”, incluídas no primeiro disco do “Nzaji”,  tiveram um grande efeito mobilizador, e sensibilizaram muitos angolanos, através do programa “Angola Combatente”.

Disco  

Muitas das canções da primeira edição do disco, gravado em 1964, foram criadas em Brazzaville. O tema  “Deba”, da autoria  de José Eduardo dos Santos e Pedro de Castro Van-Dúnem “Loy”,   é um dos exemplos.

Para além da edição original gravada em Moscovo, com a intenção de angariar fundos para o MPLA,  existe uma rara edição holandesa das canções do “Nzaji, e um CD, “Destinos”  (1998), regravado pela “Makinu”, editora do falecido cantor e compositor, Teta Lando. Do CD, transcrevemos um excerto do texto localizado no verso da capa, da antropóloga e Deputada, Ana Maria de Oliveira:  “É um disco que nos remete ao passado, que desperta o sentimento e que nos faz olhar os homens citados numa outra dimensão: a da sensibilidade ( se atendermos ao refinamento dos acordes, à harmonia das vozes, ao belo que o todo encerra), a da mobilização (de mensagens subjectivas, só captadas pelos mais atentos), a da libertação (que nos permite hoje a afirmação de sermos angolanos). Enfim, “um regresso ao passado” possibilitando-nos imaginar vivências que de outra forma não estariam ao nosso alcance”.

Letras das canções do grupo

KAPUTU | Nelito, Van-Loy, JOES

Kaputu muá ngoleé
Uandala ku tu giba
Kaputu muá ngoleé
Uandala ku tu giba
Ai, ai kaputu
Uandala ku tu giba
Ai ai kaputu
Uandala ku tu giba
Kaputu muá ngoleé
Uandala ku tu giba
Kaputu muá ngoleé
Uandala ku tu giba
Muá ngolé
Muá ngolé
Muá ngolé…mamã

Tradução: Os portugueses em Angola querem matar os angolanos, ai, ai os portugueses,  querem matar os angolanos, em Angola, em Angola.

MONETU UÁ KASSULE 
| Mingas, Ana

Monetu uá Kassule
Uá mu tumissa ku São Tomé
Monetu uá Kassule
Uá mu tumissa ku São Tomé

Kexile ni madukumentu
Aiué… aiué
uá mu tumissa ku São Tomé
Kexile ni madukumentu
Aiué… aiué
uá mu tumissa ku São Tomé

Monetu ua didilé
Mama ua sandukile
Monetu ua didilé
Mama ua sandukile

Aiué… aiué…aiué
uá mu tumissa ku São Tomé

Monetu uaia kiá
Uaia mu pulaia
Monetu uaia kiá
Uaia mu pulaia

Aiué… aiué…aiué
uá mu tumissa ku São Tomé
Aiué… aiué…aiué
uá mu tumissa ku São Tomé

Monetu uá mobutu
Katena ku mu kuta

Aiué… aiué…aiué
Uá mu tumissa ku São Tomé
Aiué… aiué…aiué
Uá mu tumissa ku São Tomé

Monetu ka vutuké
Kalunga uá mudié

Aiué… aiué…aiué
Uá mu tumissa ku São Tomé

Tradução: Por falta de documentos o nosso filho  foi preso e  enviado para São Tomé. Nosso filho chorou  e a mãe enlouqueceu. Aiué,  aiué expressa a dor e consternação. Meu filho ainda é jovem não podem amarrá-lo e deportá-lo. Em São Tomé perdeu a vida. (ja.ao)

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