Organização no Hospital Américo Boavida é exemplar

Directora clínica do HAB sugere contratação de mais técnicos (Foto: Pedro parente)

O nível de organização na gestão do Hospital Américo Boavida (HAB) coloca-o num nível de desenvolvimento que serve de exemplo para outras unidades sanitárias do país, afirmou a sua directora clínica, Maria Lina Antunes, em entrevista exclusiva à Angop.

Directora clínica do HAB sugere contratação de mais técnicos (Foto: Pedro parente)
Directora clínica do HAB sugere contratação de mais técnicos (Foto: Pedro parente)

Eis a entrevista na íntegra:

Angop: Como avalia o funcionamento da instituição que representa?

Maria Lina Antunes (MLA) – Além da parte estrutural que sofreu mudanças positivas no meio ambiente, no recinto hospitalar, edifícios e serviços novos, penso que se deve dar valor à organização que realmente está com um ritmo de desenvolvimento dentro da nova gestão dos hospitais. Penso que não é falsa modéstia, mas devemos ser um exemplo para as outras instituições públicas do país.

Angop: Que constrangimentos mais relevantes são registados neste hospital e que soluções devem ser dadas para ultrapassá-las?

MLA – Porquê que eu falo em organização no hospital? Criou-se um plano estratégico que termina agora em 2015, onde os primeiros dois anos foram vocacionados essencialmente para a normalização da produtividade e, como se sabe, havia muito absentismo, indisciplina, ausência e falta de pontualidade, principalmente, com o objectivo de se avaliar o desempenho dos trabalhadores. Portanto, nós normalizamos primeiro todo o processo produtivo e foi necessário para isso não só regularizar e supervisionar a presença do trabalhador dentro do hospital como também procurar lideranças, mudar alguns líderes de serviços, formando-os desde o topo até a base, chegando-se até aquilo que se chama liderança intermédia, passando pelos directores de serviço e enfermeiros-chefes. Dentro dessa equipa, cada um sabe qual é o seu papel, porque está regulamentada a Lei que se deve ter nessas actividades.

Para além disso, foram os próprios profissionais que identificaram quais as suas tarefas específicas quando se fez o curso de liderança e diante disso o hospital está num processo de qualidade que vai culminar em termos de certificação. Com isso, o enfermeiro sabe como tratar uma ferida, como desinfectar, como classificar os problemas e que tipos de produtos e qual a evolução. Tudo está catalogado, pois se fez um processo clínico informatizado e hoje em dia um doente que vem ao Hospital Américo Boavida é lançado num computador com os seus dados.

Realizaram-se duas auditorias durante este percurso, uma das quais terminou há cerca de vinte dias por uma empresa internacional que é só certificadora, em quatro serviços que foram escolhidos para a qualidade, nomeadamente cuidados intensivos, ortopedia e urologia. Procurou-se certificar a triagem de Manchester (forma de organizar o atendimento nas urgências a nível internacional), que é feito única e exclusivamente no Hospital Américo Boavida, permite ver os que são e não são urgentes. Com isso, cada um dos doentes adquire uma pulseira com uma cor, sendo os de urgência, de cor vermelha, e a partir do momento que este paciente tiver a de cor vermelha tem prioridade para ser atendido em primeiro lugar, de uma forma diferente e vigiada.

Angop: O Hospital está a ser dirigido por duas mulheres, para se atingir este nível de organização, quais as dificuldades que tiveram?

MLA – Tivemos muitas dificuldades, mas não pelo facto de sermos mulheres. Acho que isso não influenciou, pelo contrário, acho que influiu positivamente. As dificuldades foram relativas ao país em si, que está em desenvolvimento e crescimento acelerado, e há muitas coisas que não acompanham este ritmo.. Houve muitos obstáculos de progressão que não foi fácil. Começamos logo pelos primeiros anos de normalização de trabalho, pois a introdução de um sistema biométrico criou bastantes constrangimentos, com ameaças de mortes e violações.

Houve vários problemas até se mostrar aos trabalhadores que isso contribuía para beneficiar e distinguir aqueles que trabalham, pois quem não trabalha não pode receber trabalho e deve dar lugar a outro. Isso levou a várias perturbações, como sabotagens em relação à esterilização, que é considerado o coração do hospital, pois tudo que se faz passa pela esterilização, como gases e instrumentos cirúrgicos, e então quem sabota sabe que é para matar pacientes. Mas recentemente passamos por outro tipo de fase que tem a ver com o horário. Os trabalhadores não entendem que têm que ter horários compatíveis de escalas, o que se teve reacções negativas, movimentos de ameaça de greve, e os sindicatos mais uma vez não foram parceiros, nem a Ordem dos Enfermeiros. Se realmente queremos mudanças no país temos que trabalhar, pois olhamos para a China e outros países e dissemos que têm muito dinheiro até para emprestar, mas isso porque trabalham muito.

Angop: Como encara a questão da humanização dos serviços de saúde a nível da instituição?

MLA – A qualidade obriga-nos a realizar inquéritos de opinião. Foram efectuados quatro inquéritos de opinião, o que não foi uma surpresa mas sim uma constatação de que a população também é capaz de perceber o que se passa em relação ao desenvolvimento e as mudanças, porque esta questão da triagem de Manchester foi bem entendida. Ainda sobre a humanização foi feito um inquérito na área das consultas externas e verificou-se que ainda não existe um bom atendimento, demora-se muito sem razão, e com muita lista de espera.

Mas também, por outro lado, porque tem-se restrições. Esta área já é insuficiente e está a ser gerida de forma muito disciplinada. Outra área de constrangimento é na entrada do hospital. Fez-se um inquérito aos seguranças, embora não seja nosso serviço, mas sim terciarizado, e a população apresentou alguns itens avaliados negativamente. Hoje, temos 593 internados no hospital, por isso, também não dá para deixar todos circularem pelo hospital, porque isso desgasta a estrutura, pois algumas pessoas circulam em áreas impróprias. Só que a forma que é feita a restrição é que não é adequada. Por outro lado, a forma da população de se instalar no hospital não sai da porta, monta até tendas e pensamos que fosse falta de confiança dos técnicos de saúde, mas agora já não acredito nisso. Fazem-no por questão cultural.

Angop: Apesar da directora clínica estar aqui em apenas seis anos, consegue fazer uma comparação da prestação dos serviços de saúde do Américo Boavida actual e de anos atrás?

MLA – Confesso que nestes últimos anos o hospital mudou bastante. Hoje já se atende, seja qual for a urgência, a qualquer hora. Nós hoje temos o conceito de cama aberta, onde não pode ter vaga com doente no chão e a única limitação é a divisão por áreas, pois se consegue com a estatística gerir estes doentes de forma diferente. Nós até já estamos disponíveis a sair do hospital, pois a crise financeira mostrou que há debilidade nas periferias. Temos visto hospitais que chegam aqui e só despejam os doentes. Conseguimos resolver alguns problemas organizativos, como salas operatórias bem equipadas, e hoje já são efectuadas cerca de 24 a 28 grandes cirurgias por dia, o que antes não era possível.

Na lista de espera de ortopedia estão 400 doentes para prótese da anca e joelho, sendo o hospital o único que oferece este serviço. Houve revisão nos horários dos trabalhadores, dos enfermeiros, principalmente, que lidam directamente com os doentes, mas muitos deles ficam sem trabalhar dias e dias. Além desses serviços, houve um grande avanço na área da urologia, pois já se faz operações por via endoscópica, o doente indo para casa mais cedo, biópsias e medições de fluxogramas da bexiga, coisas que não se faziam antes. Em 2013 compraram-se vários equipamentos e os médicos já foram formados e estão prontos para trabalhar com exactidão na área de urologia.

Angop: Em termos de infraestruturas, o que ganhou o hospital?

MLA – Já ganhamos muita coisa. Felizmente, o Ministério da Saúde incluiu o nosso hospital dentro do programa de melhoria e, com isso, ganhamos um centro de fisioterapia novo, devido ao número crescente de casos de politraumatizados e os Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC), pois não tinham aonde recuperar com actividades de fisioterapia. Assim, abrimos concursos públicos, contratamos técnicos de fisioterapia licenciados, formamos profissionais e alargamos o horário de trabalho até as 18 horas, incluímos o sábado, para ser rentabilizado. E está a funcionar de forma positiva e já foi feito o balanço dos últimos seis meses e foi bastante satisfatório. Neste momento, temos sete salas de bloco operário, duas para urgência, limpa e suja, sala de rotina, de cirurgia endoscópica que podia estar mais rentabilizado, o que é difícil devido ao défice de enfermeiros especializados na instrumentação e anestesia solta.

Angop: Quantos médicos e enfermeiros possui o HAB?

MLA – O hospital possui apenas 483 enfermeiros, mas mesmo assim possui um défice de 228 enfermeiros, o que se precisa admitir mais. Temos cerca de 178 médicos, mas há falta nas especialidades específicas, nomeadamente neurocirurgião, maxilo-facial, anestesista, apesar de serem especialidades que levam tempo para se formar quadros.

Angop: Quais as principais patologias atendidas no hospital?

MLA – A patologia mais frequente e a principal causa de morte continua a ser a malária. Não é exagero de diagnóstico porque, além da pesquisa de gota espessa, temos o teste rápido em caso de dúvida. Depois as infecções respiratórios e as diarreias que atacam mais as crianças, de zero aos oito anos de idade. Já nos adultos, o AVC é a maior causa de morte, com cerca de cinco a seis mortes diariamente, apesar de se reduzir a taxa de mortalidade para dois porcento nestes últimos dois meses. Essa redução coincidiu com o aumento da escala do enfermeiro, devido ao grande empenho dos funcionários e maior vigilância. Nos bancos em média dão entrada 300 a 380 doentes com diversas patologias e dos que vêem à urgência 24 porcento ficam internados, número considerado bastante alto, o que quer dizer que vêm muito graves ao hospital. Se está a sentir-se doente deve vir ao hospital e deixar de procurar alternativas que não são as melhores e muitas vezes leva-os à morte.

PERFIL

Maria Lina Antunes é médica há 34 anos e é especialista em medicina interna e também intensivista, foi militar durante 11 anos e agora está na reserva. É professora associada da Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto.

Natural de Luanda, é casada e mãe de dois filhos. Tem como cidade predilecta Benguela, onde trabalhou por vários anos e tem como passatempo o atletismo. (portalangop.co.ao)

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