Novela luso-angolana muda perspetiva dos portugueses sobre Angola

(DW)
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“A Única Mulher” tem sido um sucesso de audiências em Portugal. A telenovela, produzida pela TVI, está a mudar a forma como os portugueses encaram Angola.

Edna Santos não profere uma única palavra. Ela segue atentamente mais um capítulo da novela “A Única Mulher”, emitida de domingo a sexta-feira, em horário nobre. Ela é uma entre as centenas de milhares de telespetadores portugueses que se apaixonaram pela produção da TVI, na qual participam alguns atores africanos como Ângelo Torres.

O ator de origem são-tomense faz o papel de Norberto Venâncio, um empresário angolano com importantes investimentos em Portugal e igualmente o principal cliente de uma construtora. Como refere a sinopse da novela, Norberto tem na mão o destino da empresa mas guarda um grande ressentimento contra os portugueses que, durante a guerra colonial, assassinaram o seu pai.

Por outro lado, Luena, um papel desempenhado por Rita Pereira, é filha de retornados que perderam tudo o que tinham com a independência de Angola. O seu objetivo é recuperar o património da família em África.

Magdalena Bialoborska, investigadora da IUL (DW)
Magdalena Bialoborska, investigadora da IUL (DW)

Aumenta popularidade de ritmos angolanos

Magdalena Bialoborska, investigadora no antigo Centro de Estudos Africanos (agora Centro de Estudos Internacionais) do Instituto Universitário de Lisboa (IUL), diz que, com a novela, aumentou a popularidade de ritmos musicais angolanos, como o semba e a kizomba.

“Há uma maior procura pelas aulas de kizomba”, comenta a polaca, a viver em Portugal há 15 anos, que também coordena a produção das tão concorridas aulas de dança e alguns concertos no B’Leza, um dos mais emblemáticos espaços de promoção da música africana em Lisboa.

“A novela inluenciou essa procura. Há grandes êxitos”, afirma Bialoborska. Uma das músicas mais populares da novela é o tema que lhe dá o nome, a “Única Mulher”, do cantor angolano Anselmo Ralph.

“Total falsidade”

No entanto, Edmundo Rocha, antigo presidente da Casa de Angola em Lisboa, nota que o desfasamento da novela em relação à realidade nos dois países é tão grande quanto a popularidade que a produção ganhou desde março deste ano, quando começou a ser exibida.

Edmundo Rocha, ex-presidente da Casa de Angola em Lisboa (DW)
Edmundo Rocha, ex-presidente da Casa de Angola em Lisboa (DW)

Rocha diz que “A Única Mulher” trata precisamente do “oposto daquilo que interessa ao povo angolano e português”. A realidade retratada é “uma total falsidade”, não só no que diz respeito a Angola, mas também em relação a Portugal.

“É o retrato de duas classes sociais, duas burguesias – a angolana e a portuguesa -, com os seus problemas de amor. É algo que não tem nada a ver com o povo angolano”, diz Edmundo Rocha.

Portugueses começam a descobrir cultura angolana

A anterior novela luso-angolana “Windeck” também foi um êxito, pelo interesse que suscitou junto dos telespetadores.

“De certa forma, os portugueses começam a descobrir a cultura africana e, em particular, a angolana”, afirma Magdalena Bialoborska. Para a investigadora, isso chega a ser “estranho, porque os portugueses convivem com os angolanos há séculos e há anos que têm vizinhos angolanos.”

A investigadora diz-se “muito surpreendida quando os portugueses não sabem o que é semba ou muamba”.

Quanto à telenovela, a gravação de novos capítulos decorre até dezembro de 2015. A ficção vai entrar no circuito internacional, devendo ser exibida na América Latina, nomeadamente no Chile. (dw.de)

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