“Não foi bem assim”: como explicar a um estrangeiro as manifestações de domingo?

(Foto: André Tambucci/ Fotos Públicas)
(Foto: André Tambucci/ Fotos Públicas)
(Foto: André Tambucci/ Fotos Públicas)

Imagine um diálogo entre um correspondente estrangeiro no Brasil e o chefe dele, por telefone, em algum canto do mundo. Imagine que ele estivesse de plantão no último fim de semana:

– Me explica esse negócio. Não estou entendendo mais nada.
– É assim. A atual presidenta do Brasil se reelegeu em outubro. Ontem milhares de pessoas foram às ruas pedir a saída dela.
– Mas por quê?
– Ela, basicamente, dourou a realidade na propaganda eleitoral. Gastou mais do que poderia, segurou preços de serviços básicos, minimizou a crise, prometeu que os empregos seriam mantidos, que a inflação estava sob controle, que não faria cortes em investimentos e programas sociais e não cumpriu. Nomeou um ministro que prega austeridade, anunciou um pacote de ajustes e esqueceu de combinar com o Congresso. Em nove meses se tornou a governante mais rejeitada da história recente.
– Os que foram às ruas ontem se sentem traídos e rejeitam esse pacote, certo?
– Mais ou menos.  Nem todo mundo que rejeita as medidas e, consequentemente, o governo, estava, nas ruas. E nem todo mundo que foi às ruas rejeita as medidas.
– Espera. Estou confuso.
– É que, segundo o principal instituto de pesquisa brasileiro, só 5% dos manifestantes votaram nela. A maioria, quase 90%, ou não votou em ninguém ou votou no opositor Aécio Neves. O partido dele, o PSDB, era o que defendia as medidas de austeridade e tinha apoio das elites.
– Então é uma rebelião de empobrecidos? Uma revolta de esfomeados?
– Também não é bem assim. A maioria dos manifestantes é branca, tem ensino superior e mais de 50 anos. Um quarto deles tem renda familiar de até 15 mil. Não é pouco para os padrões brasileiros.
– Podemos chamar, então, de rebelião das elites?
– Eu não chamaria. Um quarto deles tem renda mensal de até 7 mil. Tinha gente de outros lugares fora o centro e a zona sul, as áreas mais ricas. Os milionários mesmo não estavam lá…
– Estavam aonde?
– Parte estava nos carros de som, é verdade. Mas parte estava no Senado costurando saídas para a crise. Parte estava na praia. E parte estava na cadeia.
– Na cadeia?
– É que, nesse meio tempo, uma investigação da Polícia Federal prendeu pessoas ligadas direta ou indiretamente a falcatruas na maior empresa do país, a Petrobras, que até outro dia era a menina dos olhos do governo. As grandes empreiteiras do país estão no centro do escândalo. Parte do dinheiro, suspeita-se, financiou um monte de campanha política.
– A presidenta recebeu dinheiro pessoalmente?
– Até onde se sabe, não.
– Qual o argumento para o impeachment?
– Uns falam das tais de pedaladas fiscais. Os bancos públicos que gerenciam os programas sociais pagaram os benefícios antes de receber os recursos do Tesouro. Isso, em tese, configura empréstimo direto, o que não é permitido. Outros falam em abuso de poder econômico na campanha. Argumentam que, para se reeleger, ela omitiu fatos e foi beneficiada com dinheiro desviado via doação empresarial.
– E isso não é grave?
– Grave é. Mas não é provado. O partido da oposição também recebeu dinheiro das empresas investigadas. E, quando era governo, também deu suas pedaladas. As ruas são um termômetro, mas tudo agora vai depender da vontade política do Congresso.
– A presidenta tem base de apoio para segurar a bronca?
– Base tem. Não tem fidelidade. Na Câmara a situação é mais grave. No Senado há um acordo saindo do forno.
– A Câmara é comandada pelo PSDB?
– Não, pelo PMDB, mas o presidente da Câmara é hoje o maior inimigo real do governo.
– E o Senado?
– O Senado também é presidido por um peemedebista, mas a hostilidade dele é, digamos, mais maleável.
– E esse acordo com os senadores tem caráter populista, promete estourar os gastos e está sendo denunciado pelos manifestantes, certo?
– Pelo contrário. É o sonho de muitos dos críticos ao tamanho do Estado brasileiro, um ponto em comum dos militantes. O acordão tem conteúdo para tirar da presidenta o apoio que ainda resta nas camadas populares. Como sempre, elas pagarão a conta.
– Vamos recapitular. O governo é eleito pelo voto da esquerda, governa com o programa da direita. Quem está na rua, afinal?
-Ninguém sabe exatamente. Por exemplo. Está vendo estas fotos? Esse de bigode quer mandar a comunidade gay para a Sibéria. Era candidato a presidente e defendeu isso na campanha, mas com outras palavras. Esse com cara de doido quer prender metade do país, mas o pai dele já defendeu o fuzilamento do então presidente Fernando Henrique. O Fernando Henrique, aliás, é do mesmo partido que quer tirar o PT do poder, mas ali cada um quer de um jeito.
-Como assim?
-Esse que subiu no carro de som perdeu a eleição em outubro, inclusive no estado que ele governava, mas quer uma nova disputa. Esse outro, que não foi pra rua, quer preparar o terreno até 2018. Esse outro do Twitter quer que caia só a presidenta, que assuma o vice, que o nomearia ministro e daria chance de disputar a próxima eleição. Os candidatos e pré-candidatos são basicamente os mesmos. Ontem tinha gente com cartazes de “Volta, Sarney”.
-Não surgiu nenhuma força nova dessas mobilizações?
-Surgiram vozes, mas não dentro dos partidos. Este de óculos tem um raciocínio mais sofisticado, é mais moderado, tem uma crítica voltada à economia. Esse outro quer colher votos para endurecer as leis anti-corrupção. Já esse um, se você der um microfone pra ele, ele come. Esse outro quer a volta dos militares. Esse quer o fim da maior empresa de comunicação do país. Alguns repórteres foram hostilizados. É muita demanda para pouca mobilização.
-Como pouca? Não foram milhares?
-Sim, mas milhares dispersos.
-E essa história de mobilização permanente até o governo cair.
-Permanente naquelas. As manifestações são aos domingos. Concentradas em São Paulo, região já hostil ao governo. E a cada três meses. Na segunda-feira a vida segue. Não tem ninguém acampado em Brasília, por exemplo.
-Então essa história de país em convulsão é conversa?
-Depende. As pessoas estão inseguras, e com certa razão. Mas, fora do centro, aqui mesmo nas cidades vizinhas de São Paulo, uma chacina matou 18 pessoas numa mesma noite.
-Eram manifestantes?
-Não, eram pessoas sentadas no bar tomando cerveja. Suspeita-se de um esquadrão da morte formado por policiais. A periferia está em pânico, mas não ganhou nenhum cartaz ontem.
-Acho que a notícia principal é essa, não?
-Era isso que eu estava tentando dizer. Mas aqui isso não é novidade. (yahoo.com)

por Matheus Pichonelli

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