Kerry pede avanços nos direitos humanos em Cuba

(Foto de Pablo Martinez Monsivais/POOL/AFP)
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O secretário americano de Estado, John Kerry, pediu nesta sexta-feira progressos no respeito aos direitos humanos em Cuba, após a histórica cerimónia de hasteamento da bandeira dos Estados Unidos na embaixada em Havana.

“Não vamos nos sentar aqui e falar de normalização (das relações bilaterais) sem avanços em todas as áreas, particularmente no contexto dos direitos humanos, porque não se pode normalizar sem isto”, disse Kerry à imprensa durante sua visita a Cuba, a primeira de um secretário americano de Estado em sete décadas.

Kerry se reuniu com o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, que insistiu na suspensão do embargo americano, “algo essencial para normalizar as relações”, e afirmou que nos Estados Unidos também há problemas de direitos humanos.

“Nós também temos preocupações sobre os direitos humanos nos Estados Unidos (…). Não é em Cuba onde ocorre violência racial ou brutalidade policial, ou mortes em fatos relacionados a estes temas”, disse Rodríguez na entrevista colectiva ao lado de Kerry.

Em seu discurso na embaixada, Kerry reiterou que a administração do presidente Barack Obama é “fortemente a favor” do levantamento do embargo económico imposto contra a ilha comunista desde 1962.

“O embargo sempre foi uma via de mão dupla. As duas partes têm de retirar os obstáculos que mantiveram afastados os cubanos”, enfatizou.

Mas o secretário de Estado disse aos jornalistas que “não há como o Congresso aprovar o fim do embargo sem que (os cubanos) actuem nestes temas” envolvendo os direitos humanos.

Apenas o Congresso americano, dominado pela oposição republicana, pode suspender o embargo.

Kerry destacou que há um “longo” caminho por percorrer até a normalização entre os dois países.

“Estamos convencidos de que os cubanos ficarão melhor com uma democracia autêntica, na qual as pessoas poderão escolher seus líderes”, disse Kerry na embaixada americana.

A cerimónia de abertura da sede diplomática foi assistida por uma pequena multidão, que agitava bandeiras cubanas. Os hinos de Cuba e dos Estados Unidos e o hasteamento da bandeira foram acompanhados por “viva” e aplausos.

Em um gesto muito simbólico, foram os três marines americanos – Jim Tracy, F.W. Mike East e Larry C. Morris – que em Janeiro de 1961 baixaram a bandeira da representação americana, que a entregaram nesta sexta-feira a jovens marines para ser hasteada, selando o entendimento entre antigos inimigos.

Após a cerimónia, Kerry também descartou que o próximo presidente dos Estados Unidos vá reverter o processo de normalização das relações com Cuba.

O chanceler Rodríguez disse que Cuba está disposta a abordar com os Estados Unidos temas difíceis, entre eles os direitos humanos.

“Temos concepções diferentes quanto à soberania, democracia e direitos humanos. Tendo aberto um diálogo bilateral em matéria de direitos humanos (…), estamos dispostos a conversar sobre qualquer um destes temas, aceitando que em alguns deles será difícil entrar em acordo”, declarou Rodríguez.

Kerry, o primeiro chefe da diplomacia dos Estados Unidos a visitar a ilha desde 1945, partiu da Ilha às 20H00 local (21H00 Brasília) do aeroporto José Martí de Havana.

A visita aconteceu oito meses após o anúncio solene e simultâneo, em 17 de Dezembro, por Barack Obama e Raul Castro, de uma reaproximação histórica.

Na prática, as relações diplomáticas foram restabelecidas – e as embaixadas dos dois lados reabertas – em 20 de Julho, mas o departamento de Estado americano chamou esta sexta de um “dia histórico”.

Os dois governos romperam relações em 1961, na esteira da revolução de castrista, mas desde 1977 mantém representações de interesses que actuavam como embaixadas.

Passeio por Havana

Apesar da curta visita, Kerry teve tempo para passear pelas ruas e praças de Havana Velha, cercado por seguranças, jornalistas, turistas e curiosos.

Acompanhado por Eusebio Leal, um historiador local, Kerry tirou o paletó e a gravata e caminhou pela Praça de São Francisco de Assis, situada no Centro Histórico de Havana e declarada Património da Humanidade pela Unesco.

Em Miami, opositores à aproximação entre Havana e Washington protagonizaram pequenos protestos neste reduto histórico do exílio cubano nos Estados Unidos.

“É um abandono de uma política que exigia primeiro do regime o respeito aos direitos humanos antes de fazer concessões”, assinalou AFP Rey Anthony, representante estudantil da Fundação Cuba Livre.

“O presidente Barack Obama abandonou a promessa de ver uma Cuba livre, de ajudar a dissidência interna na ilha, para buscar uma normalização com um regime sanguinário, que disse que não vai mudar em absoluto”, declarou Anthony.

Neste contexto, o pré-candidato republicano à presidência americana, Marco Rubio, criticou a retomada das relações diplomáticas, aproveitando um discurso em Nova York para atacar a política externa de Obama.

O senador da Florida, de 44 anos e filho de imigrantes cubanos, prometeu ter pulso mais firme com os inimigos dos Estados Unidos do que teve a adversária democrata Hillary Clinton.

Rubio deu pouca importância ao hasteamento da bandeira americana na embaixada em Havana, afirmando que se trata de “um ato de propaganda para o regime dos Castro”. (afp.com)

 

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