Importante e insólito

PEDRO SANTANA LOPES Político português (Foto: D.R.)
PEDRO SANTANA LOPES Político português (Foto: D.R.)
PEDRO SANTANA LOPES
Político português
(Foto: D.R.)

Sentámo-nos num sofá já com muito poucas molas.
Os encontros durante a Assembleia Geral da ONU são uma verdadeira maratona. Os assessores diplomáticos, aproveitando a presença de líderes de todo o mundo, tentam promover tantos encontros quanto possível, para tratar de assuntos do interesse nacional. É o caso da Nigéria, um país muito importante em África, com uma força económica considerável e que, em certa medida, tem disputado influências com outros países mais relevantes na região, nomeadamente Angola.

Mesmo noutros países africanos de expressão lusófona, a Nigéria tem procurado fazer sentir a sua influência.  Na altura, a Nigéria tentava assegurar a sua presença na prospeção petrolífera de São Tomé e Príncipe e tinha também uma presença, a vários títulos, na região das Guinés. Ora, como já aqui referi, em 2004, a Guiné-Bissau viveu um dos seus muitos períodos de grande agitação interna, com episódios até de matança cruel de alguns dos seus mais altos responsáveis, concretamente, altas patentes militares.

Admitia-se, na altura, o envio de uma força de paz internacional sob os auspícios da ONU, para se assegurar uma maior estabilidade na região. Foi, aliás, tema de conversa com o secretário-geral Kofi Annan. Para além disso, os interesses na relação económica com a Nigéria tinham o seu peso até para a abertura de mais portas para investimentos de empresas portuguesas.

Havia, pois, muitas razões para o encontro com o então presidente da Nigéria, Olusegun Obasanjo. Só que esse encontro, tal como aconteceu com o então presidente da Argentina, o já falecido Nestor Kirchner, não decorreu no edifício das Nações Unidas, mas, sim, num hotel. Neste caso, com o presidente nigeriano foi tudo mais especial, porque fomos aos seus aposentos e tudo aquilo foi algo insólito, muito pouco próprio de encontros entre altos dignitários de Estados soberanos.

A porta da suite presidencial, que era enorme, estava aberta, e fomos imediatamente recebidos por alguém do gabinete, que me encaminhou, passado um minuto, juntamente com o meu assessor diplomático, para a sala principal, onde estava à minha espera o presidente Obasanjo. Cumprimentámo-nos muito cordialmente e sentámo-nos num sofá, como se vê na fotografia, já com poucas molas. A circulação de pessoas nos corredores da suite era intensa, pessoas que se viam que eram da comitiva do presidente.

No entanto, lá fecharam a porta para podermos conversar tão serenamente quanto possível. Aí tudo decorreu de maneira adequada a um encontro entre um chefe de Estado e um chefe de governo, neste caso de países diferentes. Houve tempo para falar dos assuntos mais sensíveis e para saber, principalmente, a opinião de um chefe de Estado de um país poderoso no continente africano e bem informado sobre os acontecimentos que iam tendo lugar nos territórios onde a paz estava mais comprometida ou então em que a disputa entre legítimos interesses económicos estava mais acesa.

O presidente Obasanjo, na altura, confirmou o empenho do seu país em contribuir para uma solução pacífica, dotada de estabilidade, na Guiné-Bissau. Estava perante um presidente calmo, que falava pausadamente e muito conhecedor da realidade internacional a nível global. Quando nos despedimos, estavam representantes de outro país já a chegar. Ao presidente Obasanjo, que já estava perto dos 70 anos, parecia ser mais fácil ter reuniões no seu hotel do que deslocar-se em toda aquela confusão em que Nova Iorque se encontra durante os dias das assembleias gerais da ONU. Os africanos dão, normalmente, muita importância ao conhecimento e às informações dos portugueses sobre o que se passa em África. Terá sido essa também a razão pelo modo muito atencioso como fui tratado pelo presidente Obasanjo, apesar de toda a agitação a que fiz referência. A Nigéria é um país a ter cada vez mais em conta no contexto africano.   (cmjornal.xl.pt)

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