Fundos de investimento na “infância” até haver bolsa

(Foto: D.R.)
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Angola precisa de novas fontes de financiamento e de instrumentos que tragam investidores internacionais para ajudar à diversificação da economia, mas só com uma bolsa de valores dinâmica conseguirá ser atractiva, defendem analistas.

Um estudo da PwC mostra o ‘pobre’ panorama dos fundos de investimento no País, mas garante que há futuro no sector.

Angola só terá potencial para diversificar a oferta de fundos de investimento após o mercado bolsista arrancar, defendem especialistas do sector. Um estudo da PwC – Africa Asset Managment 2020 -, que mostra o panorama dos activos sob gestão, incluindo fundos de investimento e de pensões, e capital de risco em 12 países africanos remete para esse momento o aparecimento de oportunidades que trarão mais investidores e financiamento à diversificação económica.

Segundo o estudo, que sublinha que existem apenas dois fundos de imobiliário em Angola, colocada no grupo dos países ‘Nascentes’ no que diz respeito ao potencial de crescimento dos activos sob gestão, “as perspectivas futuras de diversificação da economia podem traduzir-se numa oportunidade para investidores” de fundos.

O documento, que traça ainda a evolução previsível dos activos sob gestão nos 12 países em análise até 2020, sublinha que “é provável que, com o enquadramento legislativo adequado e o arranque do mercado de capitais em 2017, o sector dos fundos em Angola venha a desenvolver-se dos actuais dois na área do imobiliário para um próspero segmento na área financeira”.

Dois fundos… afectados pela queda do imobiliário

“Enquanto Angola tiver apenas dois fundos não é possível prever com precisão o crescimento dos activos sob gestão”, assinala o documento da consultora internacional. Os fundos em causa foram lançados em 2008 e 2012 pelo Besaactif, do então BESA, hoje Banco Económico, e em ambos a carteira é sobretudo composta por activos imobiliários.

O mais antigo, o ‘Património’, foi registado em 2008, com activos avaliados em 7,5 mil milhões Kz. No final de 2014, segundo a PwC, que cita dados do ex-BESA – o fundo estava avaliado 11,9 mil milhões Kz, ou seja, sofreu uma valororização anual de 8%. O segundo, o ‘Valorização’, foi registado em 2012 – numa fase em que o mercado imobiliário mundial já ‘inspirava’ cuidados -, com activos sob gestão no valor de 97,9 mil milhões Kz. De então até ao final do ano passado, valorizou para 103,7 mil milhões Kz. Marco Silva, especialista em mercados financeiros, explica que o mercado dos fundos de imobiliário tem sido o único no pela “inexistência de alternativas de investimento” no País.

“Sem destino, não há razão para fundos diferentes”, explica o responsável. Patrício Vilar, administrador executivo da Comissão do Mercado de Capitais (CMC), concorda: “Não poderia haver fundos mobiliários não havendo valores mobiliários”, assinala, em entrevista. Mas, revela, entretanto, com o funcionamento do mercado secundário de dívida pública, a CMC já tem registos de fundos de valores mobiliários com títulos de tesouraria.

“Há fundos submetidos pela Odel, por exemplo, que vai lançar um com títulos do Tesouro e de tesouraria”, afirma o responsável, sublinhando que, dado o contexto, os fundos de imobiliário estão “com dificuldades”, pelo que dificilmente surgirão novos.

Bolsa estimula capital de risco

Para Tiago Laranjeiro, administrador- delegado da Angola Capital Partners, o principal ‘travão’ no mercado “tem sido a cultura de investimento das intuições que gerem as poupanças nacionais, sejam fundos de pensões, seguradoras, segurança social ou outros fundos de poupança públicos”.

“A gestão de activos é feita de uma forma simplista, apenas procurando investir em depósitos e títulos da divida publica, não havendo um conhecimento que motive a procura de outras alocações para buscar uma diversificação e rentabilidade óptima, tal como acontece em outros países”, diz o responsável, com experiência na gestão de private equity (capital de risco) em Angola.

Para o gestor, “o lançamento do mercado de capitais irá, na prática, permitir que vários produtos de investimento sejam criados, com base nos activos transaccionados na bolsa”, nomeadamente “fundos de obrigações e dívida corporativa, de acções, etc.”.

A bolsa, diz, também poderá dinamizar “os chamados investimentos alternativos, como os fundos de private equity, pois permite que se realizem vendas das empresas e seus portefólios através de Ofertas Publicas de Venda, gerando assim mais-valias para os subscritores do fundo”.

Marco Silva concorda que a bolsa pode criar oportunidades, nomeadamente no capital de risco, elegendo o sector da agricultura e pescas como “candidato ideal” para o surgimento de “inúmeros” fundos. “A indústria da joalharia é outro caso óbvio, mas Angola deve apostar igualmente na educação e nas tecnologias de informação”, diz, sublinhado que “existem fundos específicos para essas áreas, essenciais para um futuro com uma força de trabalho qualificada”.

Nos últimos anos, recorda Tiago Laranjeiro, foram já efectuados vários investimentos por fundos de private equity internacionais, o que “comprovou que o modelo funciona em Angola. Existe necessidade e apetência, por parte das empresas angolanas para este tipo de financiamento de longo prazo com envolvimento ao nível da gestão”, assinala, explicando que “os fundos têm sido aplicados predominantemente em sectores de actividade fora da área petrolífera, contribuindo desta forma para a diversificação da economia”.

Bolsa em 2017? Talvez…

Para já, contudo, alerta o administrador executivo da CMC, é cedo para pensar em produtos ‘sofisticados’. “Numa primeira fase, teremos de ir ficando mais por fundos de tesouraria, de curto prazo, papel comercial, porque, com as taxas praticadas, elevadas, e a inflação, dificilmente as empresas podem emitir dívida de longo prazo”, afirma Patrício Vilar.

“A crise nos mercados é boa para quem investe, mas péssima para quem emite, e estamos numa fase muito difícil para as empresas”, sublinha. Quanto ao arranque da bolsa no início de 2017, o gestor deixa algumas dúvidas.

É que, explica, o País tem já as condições tecnológicas e regulatórias prontas, “mas falta o trabalho das empresas”, nomeadamente em matéria de prestação de contas e saneamento financeiro, por exemplo. “Tem havido progressos, mas veja-se como tem sido a prestação de contas do sector empresarial público”, onde há ‘candidatos’ à bolsa. “Este ano houve três empresas com contas [de 2014] homologadas sem reservas, mas há muito trabalho pela frente” para haver condições para uma bolsa dinâmica.

“Dificilmente creio que muitas estejam prontas no fim de 2016. Ao longo de 2017, talvez seja possível”, diz. Será, ainda, preciso que Angola atraia investidores estrangeiros, alertam Vilar e Marco Silva, e o Banco Nacional de Angola, revela o gestor da CMC, irá emitir um aviso que “flexibiliza” o repatriamento de mais-valias.

“Qualquer que seja o mercado na área de fundos, teremos sempre dificuldade em ter dimensão sem investimento estrangeiro”, diz Patrício Vilar. Para Marco Silva, ainda assim, “a entrada de estrangeiros, mais do que rechear Angola com preciosas divisas estrangeiras, vai sobretudo enriquecer e possibilitar o conhecimento. O maior activo de um investidor é o know how, especialmente num país na sua ‘infância’ e que se quer em crescimento acelerado”. Tiago Laranjeiro, por seu turno, antecipa um papel mais importante para os angolanos no desenvolvimento da bolsa e dos fundos.

“Os angolanos e os capitais nacionais deverão ser os principais apologistas do investimento no País”, defende o responsável da Angola Capital Partners “Os fundos estrangeiros serão sempre uma minoria, o capital financeiro estrangeiro é muito concorrido, todos os países competem por ele, e Angola está a competir com todos esses destinos de investimento, pelo que tem que se mostrar atractiva e ‘vender-se’ internacionalmente”, conclui. (expansao.ao)

Por: Ricardo David Lopes

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