Eurodeputada ‘mexeu’ com as autoridades

(Foto: D.R.)
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Convidada a ver as condições dos Direitos Humanos no país, Ana Gomes foi acusada de in­citar à rebelião, mas reagiu logo: «Estou preparada a falar até com o diabo».

A eurodeputada portuguesa Ana Gomes, que esteve em visita a Angola a convite da Associação Justiça, Paz e Democracia (AJPD), contrariou a afirmação das autoridades angolanas segundo as quais os jovens detidos e acusados de tentativa de golpe de Estado «não são presos políticos».

É a versão oficial, entre outros, do ministro da Justiça, Rui Mangueira; do vice-procurador-geral da República, Hélder Pita Gróz; e do ministro do Interior, Ângelo de Veiga Tavares. Este último falou à Rádio Nacional a partir de Espanha, onde participava numa conferência sobre combate ao terrorismo, e teceu críticas à eurodeputada. «Embora estando distantes, acompanhamos a visita da eurodeputada Ana Gomes. Mas há em Portugal um ilustre prisioneiro [ex-primeiro-ministro José Sócrates] que assumiu estar numa condição política, e não vimos nenhum alarido, nem sequer visitas dessa figura, para constatar ou verificar se esse prisioneiro que se diz político está nessa condição», acusou o ministro.

Juntaram-se ainda no coro das críticas à portuguesa o primeiro secretário do MPLA em Luanda, Bento Bento; o secretário para a Informação do MPLA em Luanda, Norberto Garcia; e o responsável do MPLA para a Mobilização Rural em Luanda, Bento Kangamba.

Entretanto, numa conferência em Luanda, Ana Gomes afirmou que «se são as próprias autoridades que dizem que são acusados de tentativa de golpe de Estado, é evidente que são presos políticos e é ridículo dizer o contrário». E reagindo às vozes segundo as quais Portugal não tem moral para questionar o Governo angolano, a deputada respondeu: «há gente com moral para criticar, lá e cá, como eu». Já em relação a Sócrates, Ana Gomes afirmou que «em Portugal, só José Sócrates é que pensa que é um preso político, ninguém mais pensa assim».

Questionada sobre se sentia confortável a lidar com as autoridades angolanas, Ana Gomes respondeu que lida «com toda a gente», e foi mais longe: «Como diplomata, estou preparada para falar até com o diabo, mas sei muito bem qual é o caminho do bem».

AJPD esclarece ‘mal-entendidos’

A AJDP negou, em comunicado, que a eurodeputada portuguesa tenha vindo a Angola para participar na manifestação marcada para 29 de Julho. Esta organização civil, que convidou Ana Gomes, esclareceu que o convite já tinha sido feito em Maio, para avaliar o respeito pelos direitos humanos em Angola, ouvindo o Executivo, o Parlamento, a sociedade civil e partidos políticos, além do provedor de Justiça e procurador-geral da República.

«Ao contrário da informação veiculada por alguns órgãos de comunicação públicos, a deputada Ana Gomes não veio participar de nenhuma manifestação ou conferência promovida pela AJPD», afirmou a associação no final da visita.

A visita de Ana Gomes, lembra o comunicado, aconteceu na sequência de uma outra visita de trabalho que a AJPD realizou em Bruxelas, em 2006, onde apresentou ao Parlamento Europeu o trabalho que a associação estava a desenvolver.

«Nas democracias liberais, as maiorias parlamentares não são detentoras da legalidade democrática, da verdade absoluta para todos os indivíduos, porque o ser humano não é omnisciente nem infalível, mas livre para fazer escolhas e sujeito às consequências das suas escolhas», lembra a mesma nota. (sol.ao)

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