Encontro de psicanálise reflete sobre o poder da imagem na sociedade

(saopauloglobal.sp.gov.br)

Pela primeira vez no Brasil, o Enapol acontece no World Trade Center em SP.

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Pensar que hoje vivemos num mundo inundado pelas imagens – onde “não existe, não se produz e não se consome mais do que imagens”, parafraseando Roland Barthes – é a proposta do 7º Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana (Enapol), que acontece entre os dias 4 e 6 de setembro, no World Trade Center, em São Paulo. O tema do evento é “O Império das Imagens”.

Realizado pela primeira vez no Brasil, o encontro reúne a Escola Brasileira de Psicanálise, a Escuela de Orientación Lacaniana da Argentina e a Nueva Escola Lacaniana, agregando especialistas da América do Sul, Central e do Norte. Conta com parceria da Faculdade de Educação da USP e patrocínio da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

O evento abordará o imaginário e suas incidências, ocupando o lugar das referências na atualidade, em diversas áreas do conhecimento. “Atualmente, o império das imagens aprisiona os sujeitos por via da publicidade, da pornografia, do exibicionismo, das artes etc.”, afirma a professora Leny Magalhães Mrech, docente da Faculdade de Educação da USP e uma das organizadoras do encontro. “Em plena era da realidade virtual, o real e o virtual não possuem uma diferenciação clara. Um dos fatores que contribuem para isso é a popularização da internet. A entrada do computador na vida dos adolescentes, adultos e cada vez mais cedo na vida das crianças tem produzido novos tipos de construção do conhecimento e novas formas de laço social.”

Serão abordadas diversas temáticas, como sexualidade, feminilidade, novos laços amorosos, adolescência, a relação com os novos meios digitais, a criança diante da tela, a construção do corpo na atualidade e a vigilância eletrônica.
Curto-circuito

Para Rômulo Ferreira da Silva, diretor do 7o Enapol e diretor-geral da Escola Brasileira de Psicanálise em São Paulo, o Enapol tratará de elucidar, a partir da experiência dos praticantes, como as imagens incidem, se introduzem e fazem “curto-circuito” no campo da fala e da linguagem.

Silva questiona a importância do mundo imagético e seu impacto nos sujeitos, na cultura, na educação e na contemporaneidade. “O evento pretende abordar o tema desde o mais clínico da psicanálise até a experiência dos analistas em consultório, em instituições públicas e privadas da saúde, da educação e jurídicas. Contribuições vindas de outros setores da sociedade fornecerão um amplo espaço de produção de conhecimento, de troca e pensamento sobre as diversas práticas e de grande interesse para pesquisadores das mais variadas áreas.”

Para o diretor do evento, a proliferação e o poder das imagens faz com que ocupem o lugar das referências e trazem a sensação de desordem, fugacidade, desarticulação e incidem nas formações familiares, na vida comum, na ordenação social, na cultura, nos laços sociais, nas identidades sexuais, nas relações entre alunos e nas relações entre professor e aluno.

Pelo viés da educação, Leny diz que a escola está sendo atravessada invasivamente pelas imagens e isso tem causado mudanças na relação do professor com o aluno e o conteúdo transmitido. “Vivemos num mundo em que a escola deveria ter características do século 21 e ainda há muitas delas que vivem no século 19. Os professores hoje ocupam papéis diferentes do professor transmissor. Espera-se que ele seja tutor, mediador, facilitador, diferentemente do professor do passado, que jogava o conteúdo para o seu aluno. Esse papel está em processo de redefinição.”

Outro papel que se redefine é o do aluno. Leny lembra que hoje o aluno é apático, agressivo, desligado, sem interesse em relação ao conteúdo apresentado pelo professor. “Seu perfil atual é de um aluno multimídia, conectado com seu smartphone, tablet, computador. O conteúdo escolar se tornou algo que o aborrece.”
Plenárias

O que mudou então? Com esse questionamento, os especialistas querem discutir e entender um pouco a vivência do imaginário do século 21. Rômulo Silva comenta que a adolescência está cada vez mais longa, começa cedo e termina tarde, daí a importância do evento para se pensar a educação dentro desse novo imaginário.

Os meios virtuais funcionam como promessa de que toda a atividade humana possa ser captada em imagens. “Há uma enxurrada de imagens sucessivas, simultâneas, fragmentadas, belas, horrorosas, desproporcionais, bizarras, pornográficas, artísticas, realistas, surrealistas, enigmáticas, grotescas e banais que impactam, fascinam, traumatizam, capturam, anestesiam e despertam, afetando as subjetividades e os corpos”, comenta Silva. “Essas imagens são produzidas e reproduzidas por variados aparelhos – TV, cinema, vídeo, câmera, celular, computador, telescópio, microscópio, tomógrafo, ressonância magnética, ecodoppler, satélites – criados pela ciência e tecnologia e se projetam sobre todos os campos.”

“Há uma enxurrada de imagens sucessivas, simultâneas, fragmentadas, belas, horrorosas, desproporcionais, bizarras, pornográficas, artísticas, realistas, surrealistas, enigmáticas, grotescas e banais”.

O diretor do evento lembra ainda que o império de hoje não é mais aquele que exerce seu poder através das armas, e sim pelos meios de comunicação de massa, pela internalização dos mecanismos de controle e pelo biopoder, uma forma de regular a vida social a partir de seu interior, acompanhando-o, interpretando-o, absorvendo-o. “Por isso é importante saber o que a psicanálise pode dizer, à luz de sua experiência, a respeito da profusão das imagens no mundo contemporâneo”, explica.

O evento contará com 20 trabalhos de psicanalistas, apresentados em sessões plenárias, e 45 trabalhos de diversos países americanos discutidos nas conversações. São três plenárias: uma, de analistas membros da Escola de Psicanálise que vão tratar do novo imaginário na constituição da subjetividade. A segunda plenária terá como convidados a artista multimídia Regina Silveira, que mostra em suas obras a imagem desconectada do simbólico; a dramaturga Maria Adelaide Amaral, que falará como o império das imagens ressoa nas criações artísticas; e o diretor artístico e maestro titular da Orquestra de Câmara da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Gil Jardim, que tratará da imagem sonora. A terceira plenária contará com analistas que recém-concluíram a análise, testemunhando como o imaginário se mostrou e foi elaborado nela.

O 7º Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana – O Império das Imagensserá realizado entre os dias 4 e 6 de setembro no World Trade Center (avenida das Nações Unidas, 12.551, Brooklin Novo, São Paulo). A programação completa do evento está disponível no endereço eletrônico www.oimperiodasimagens.com.br. (saopauloglobal.sp.gov.br)

Izabel Leão / Jornal da USP

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