Editorial: Também tu, Angola?

CARLOS ROSADO DE CARVALHO Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)
CARLOS ROSADO DE CARVALHO Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)
CARLOS ROSADO DE CARVALHO
Economista e Docente universitário
(Foto: D.R.)

Uma das perguntas clássicas das minhas provas de avaliação da disciplina de Moeda e Bancos aos finalistas de Economia na Universidade Católica de Angola é um pedido de comentário a uma frase de 2009 do escritor e jornalista João Melo. Tudo passa por saber se, ao utilizar instrumentos de política monetária, como o aumento das reservas obrigatórias e da taxa de redesconto, as autoridades não estarão a restringir demasiado o crédito, matando o doente com a cura, questionou o então deputado do MPLA citado pelo jornal O País. Aos mais distraídos, lembro que, em 2009, como hoje, Angola enfrentava graves problemas económicos devido à queda do preço do petróleo. Hoje, como então, as políticas económicas de resposta à queda do petróleo, sobretudo as monetárias, são fortemente contraccionistas.

Com uma pequena nuance ao nível dos instrumentos utilizados. Em 2009, os sinais sobre o curso da política monetária eram dados pelo aumento das reservas obrigatórias e da taxa de redesconto, e agora, além da taxa de reservas, o BNA utiliza a taxa básica. Uma nuance que deriva do novo quadro operacional da política monetária adoptado no final de 2011, mas que, no essencial, conduz aos mesmos resultados.

Desde que, em Outubro de 2014, o BNA ‘acordou’ para a queda do preço do petróleo, a política monetária foi ‘apertada’ sete vezes: três subidas da taxa de reservas obrigatórias e quatro aumentos da taxa básica do BNA.

A decisão do BNA de tornar o crédito mais difícil e caro numa altura em que a economia está em forte desaceleração vai contra o que dizem os manuais de economia.

Segundo as propostas do economista John Maynard Keynes, quando uma economia está a perder velocidade, as autoridades do país devem adoptar uma combinação de políticas monetária e fiscal. No primeiro caso, baixando os juros; no segundo, aumentando os gastos públicos. A ideia é estimular a procura e, com ela, a própria economia. Como fizeram os EUA, por exemplo.

Em Angola está a fazer-se o contrário. Um pouco à moda da política austeritária europeia. Não só os juros estão a aumentar, como o Governo anunciou um plano de austeridade assente em ‘cortes’ na despesa pública. Ou seja, as políticas monetária e orçamental angolanas são pró-cíclicas, isto é, arriscam arrefecer ainda mais uma economia cujo crescimento foi revisto em baixa já por duas vezes. Após terem começado nos 9,8% com o OGE 2015 inicial, as projecções actuais não ultrapassam os 4,4%.

Apesar de as decisões das autoridades angolanas contrariarem aquilo que dizem os manuais de economia e o que outros países estão a fazer para combater a crise, não quer dizer que a política económica do Governo esteja errada. Acredito que não está. As opções austeritárias do Governo em matéria de políticas monetária e orçamental podem parecer tanto mais estranhas quanto se sabe que Angola precisa urgentemente de diversificar a sua economia, e isso passa por mais crédito e mais barato e mais investimento em infra-estruturas.

Mas é só aparência. Se as autoridades utilizassem as políticas monetária e cambial para ajudar a economia em desaceleração, arriscavam pôr em causa a estabilidade macroeconómica do País – com (ainda maior) agravamento das contas públicas, aumento da inflação e forte desvalorização da moeda. E sem estabilidade macroeconómica não há crescimento sustentável. O tempo dirá se Angola fez a escolha certa. (expansao.ao)

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA