Economia 100 Makas: “Se non è vero, è ben trovato”

CARLOS ROSADO DE CARVALHO Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)
CARLOS ROSADO DE CARVALHO Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)
CARLOS ROSADO DE CARVALHO
Economista e Docente universitário
(Foto: D.R.)

Na década de 90, aproveitando uma visita de trabalho a Pequim, fui visitar a famosa muralha da China. De regresso à capital chinesa, parei numa zona comercial para comprar um “recuerdo”.

Nesta zona, os turistas são imediatamente “assaltados” por uma multidão de “kinguilas” chinesas oferendo-se para cambiar yuans por dólares. Contudo, a troca não é fácil, porque o comércio de divisas não é livre, e os polícias, montados em bicicletas, não paravam de rondar o local.

Com os yuans na mão, dirigi-me às lojas. Quando me preparava para pagar, tive a ingrata surpresa de saber que as cédulas que a kinguila me vendeu eram… dólares de Taiwan ou República da China, e não yuans da República Popular da China. Ou seja, fui no jajão.

O dólar de Taiwan valia (e vale) muito menos do que o yuan. Já não me lembro qual era a diferença na altura, mas a taxa de câmbio actual é de cerca de 5 dólares de Taiwan por cada yuan. Com receio da polícia, provavelmente “feita” com as “kinguilas”, apenas prestei atenção aos números. Só depois me explicaram que a melhor forma de distinguir as duas moedas eram as figuras impressas nas cédulas: Chiang Kai-shek, nos dólares de Taywan, e Mao Tsé-Tung, nos yuans.

Resumindo, fui um autêntico “totó”. Ainda hoje me sinto embaraçado ao contar este episódio. Porém, decidi fazê-lo à mesma neste espaço para prevenir que aconteça o mesmo com os angolanos quando os yuans começarem a circular em Angola. Segundo o Jornal de Angola de quinta- -feira, 6 de Agosto, citando declarações da ministra do Comércio, Rosa Pacavira, na terça-feira, 4 de Agosto, em Luanda, “o kwanza começará a ser aceite nas aquisições na China, e o yuan em Angola, fruto dos recentes acordos estabelecidos entre os dois países”.

Mas o suposto acordo monetário entre Angola e a China durou pouco. Na própria quinta-feira, o Ministério do Comércio (MinCo) fez sair um comunicado negando que Rosa Pacavira tenha anunciado transacções comerciais pagas nas moedas nacionais entre Angola e a China e lembrando que “(…) não é da competência do ministério assinar acordos de natureza monetária e financeira”. “Se non è vero, è ben trovato.”, diz um ditado popular italiano que, em tradução livre, quer dizer que “Se não é verdade, foi bem apanhado”.

Este ditado assenta que nem uma luva à notícia do Jornal de Angola. Embora nunca confirmado oficialmente, o suposto acordo monetário com a China tem sido apresentado pelos apoiantes do governo como uma das vitórias da visita do Presidente da República à China.

“Antes, nenhum país aceitou fazer isso [acordo monetário com Angola], só foi a China, o que é um dos grandes benefícios das relações económicas estabelecidas entre Luanda e Pequim”, salientou a ministra na desmentida notícia do Jornal de Angola. Contudo, as supostas declarações de Rosa Pacavira são coerentes com o discurso oficial segundo o qual a comunidade internacional deu as costas a Angola e só a China a compreendeu.

Ou seja, na versão oficial, a China afirma-se mais uma vez como o melhor amigo de Angola que está presente sempre que o País precisa. Por tudo isto, tenho para mim que o acordo monetário com a China será anunciado mais cedo do que tarde. Como sugere o próprio comunicado do MinCo, o suposto anúncio da ministra apenas pecou por usurpação de competências: os acordos monetários são da responsabilidade do BNA e não do MinCo.

Mas estejam descansados quanto a possíveis jajões. O acordo não implica lidar fisicamente com a moeda chinesa. Provavelmente, o que vai acontecer é um swap bilateral de divisas, troca de divisas em tradução livre, semelhante aos mais de 30 que a China tem por esse mundo fora.

Em termos simples, o BNA e o Banco Popular da China (BPC) deverão celebrar um acordo no âmbito do qual se comprometem a trocar as respectivas moedas, até um determinado montante, durante um certo período. Ou seja, o BNA vende kwanzas ao BPC e recebe em troca yuans, à taxa de câmbio do mercado, comprometendo-se, simultaneamente, a (re)comprar de volta os kwanzas numa data específica. Entretanto, os yuans utilizados pelo BNA servem para aumentar o nível de reservas de divisas de Angola ou podem ser vendidos a bancos e empresas para pagar importações da China.

Como não há almoços grátis, na data acordada o BNA recompra os kwanzas ao BPC contra yuans ou outra moeda forte, pagando uma determinada taxa de juro pela utilização dos yuans. Em África, a China tem apenas um swap bilateral com a África do Sul, válido por três anos, renováveis, até ao montante de 30 mil milhões yuans, o equivalente a 600 mil milhões Kz. (expansao.ao)

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