Dia histórico na reaproximação dos Estados Unidos a Cuba

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Cuba vive, esta sexta-feira, mais um dia histórico. Depois do lançamento do reatar de relação em dezembro, pela primeira vez em setenta anos, um chefe da diplomacia dos Estados Unidos efetua uma visita oficial a Havana.

Numa viagem relâmpago de ida e volta, John Kerry vai presidir ao simbólico hastear da bandeira norte-americana na recém-reaberta embaixada dos Estados Unidos em Cuba. É mais um passo na normalização das relações entre os dois países, que estiveram de costas voltadas durante quase 54 anos por causa de um embargo imposto por Washington ao vizinho caribenho.

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Numa entrevista difundida esta semana pela cadeia norte-americana Univision, que emite em castelhano, John Kerry admitiu que o controverso reatar de relações “não vai ser uma mudança de dia para a noite”. “Nós ainda nem sequer fomos lá hastear a nossa bandeira”, sublinhava o secretário de Estado norte-americano. “Comparado com o que se passou nos últimos 54 anos, em que não houve qualquer progresso, penso que assim que iniciarmos o processo vamos poder começar a ver a transformação a acontecer”, defendeu Kerry.

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O içar da bandeira dos Estados Unidos será o ponto alto do dia e marcará um importante capítulo no processo de normalização das relações entre Washington e Havana. Caberá aos mesmos três “marines”, que a retiraram 1961, voltar a hastear a “stars and stripes” (“estrelas e tiras”, como é conhecida em inglês a bandeira norte-americana) na capital cubana.

Antes da visita de Kerry, estiveram, entretanto, em Havana os presidentes da Bolívia e da Venezuela. Evo Morales e Nicolás Maduro foram cantar os parabéns a Fidel Castro. O ex-líder cubano e irmão do atual Presidente, Raúl Castro, celebrou quinta-feira 89 anos.
Cronologia da reaproximação entre Washington e Havana
2014

17 de dezembro: Os presidentes norte-americano e cubano, Barack Obama e Raul Castro, respetivamente, anunciam em simultâneo o início das negociações entre os dois países para o restabelecimento de relações diplomáticas, suspensas desde 1961. O anúncio surge após 18 meses de negociações secretas entre os Estados Unidos e Cuba, sob a égide do Vaticano e do Canadá.

2015

12 de janeiro: Cuba conclui a libertação “humanitária” de 53 presos que figuravam numa lista entregue por Washington. Havana designava estes detidos como prisioneiros políticos;
15 de janeiros: Os Estados Unidos decidem facilitar as viagens e o comércio com Cuba, dentro dos limites das competências do Presidente Obama, de forma a mitigar os efeitos do embargo económico e financeiro norte-americano, em vigor desde 1962;
19 de janeiro: Seis políticos democratas norte-americanos concluem uma visita a Havana depois de encontros com altos responsáveis, dissidentes e o cardeal Jaime Ortega, líder da Igreja cubana. Outras missões de legisladores norte-americanos acontecem nos meses seguintes;
20 de janeiro: O Presidente Barack Obama (democrata) pede ao Congresso norte-americano, dominado pelo Partido Republicano, para iniciar em 2015 o debate sobre o levantamento do embargo contra Cuba;
22 de janeiro: Primeira ronda das negociações entre os dois países para discutir a reabertura de embaixadas. O encontro entre as duas delegações ocorre na capital cubana.

O primeiro encontro após o anúncio dos presidentes

A delegação norte-americana é chefiada pela secretária de Estado adjunta para os Assuntos do Hemisfério Ocidental, Roberta Jacobson, e a equipa cubana por Josefina Vidal, diretora-geral para os EUA no Ministério dos Negócios Estrangeiros de Cuba.

As duas partes admitem “profundas diferenças”, mas concordam em aprofundar o diálogo.

26 de janeiro: Fidel Castro, o eterno inimigo dos Estados Unidos, quebra o silêncio sobre o processo de restabelecimento, afirmando que não rejeita, mas que não confia em Washington;
03 de fevereiro: No Congresso norte-americano, Roberta Jacobson adverte que “a total normalização” das relações com Cuba “poderá demorar anos”;
17 de fevereiro: Uma delegação de políticos democratas norte-americanos, chefiada pela líder do Partido Democrata na Câmara dos Representantes (câmara baixa do Congresso) Nancy Pelosi, evoca em Havana a questão dos direitos humanos e apela para a reabertura de embaixadas;
27 de fevereiro: Segunda ronda de negociações decorre em Washington. As duas partes anunciam “progressos”, mas sem avançar informações concretas;
02 de março: Profissionais norte-americanos do setor agrícola visitam Cuba e exortam o Congresso norte-americano a levantar o embargo que proíbe as transações comerciais com aquela ilha caribenha;
04 de março: Começa a funcionar uma linha telefónica direta entre os dois países, a primeira em várias décadas;
16 de março: Nova deslocação a Havana da secretária de Estado adjunta para os Assuntos do Hemisfério Ocidental, Roberta Jacobson, para negociações com as autoridades cubanas. Após o encontro, as duas delegações concordam em “manter a comunicação”.
21 de março: Uma delegação norte-americana desloca-se a Cuba para discutir a futura colaboração entre os dois países ao nível das Telecomunicações e da Internet;
24 de março: O Departamento do Tesouro norte-americano anuncia o levantamento de sanções, nomeadamente contra seis personalidades e 37 empresas;
31 de março: Nova reunião entre altos responsáveis dos dois países em Washington, desta vez consagrada aos Direitos Humanos;
11 de abril: Encontro histórico entre Obama e Raul Castro na VII Cimeira das Américas, no Panamá — é o primeiro encontro formal entre presidentes dos dois países desde a revolução castrista de 1959, mas já haviam estado juntos no funeral de Mandela;
14 de abril: Barack Obama anuncia a sua decisão de retirar Cuba da lista de Estados patrocinadores do terrorismo. Para Havana, esta medida é uma pré-condição para o restabelecimento das relações diplomáticas com os Estados Unidos;
05 de maio: Os Estados Unidos afirmam ter emitido licenças que autorizam o transporte de passageiros por “ferry” com Cuba, pela primeira vez em mais de 50 anos. A primeira travessia está prevista para setembro;

12 de maio: Raul Castro afirma que as negociações com os Estados Unidos “estão a correr bem” e que os dois países poderão nomear embaixadores depois de 29 de maio;
19 de maio: Um alto responsável norte-americano anuncia que a representação diplomática cubana em Washington, privada de serviços bancários há mais de um ano, chega a acordo com uma instituição bancária para garantir futuras operações financeiras;
21-22 de maio: Quarta ronda de negociações em Washington;
28 de maio: Durante uma deslocação a Miami, Florida, Barack Obama faz uma visita surpresa a uma igreja popular entre os exilados cubanos;
29 de maio: Os Estados Unidos retiram Cuba da “lista negra” dos Estados patrocinadores do terrorismo. Havana constava desta lista elaborada pelo Departamento de Estado norte-americano desde 1982;
01 de julho: Barack Obama anuncia o restabelecimento das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba, evocando “um novo capítulo” e “uma etapa histórica” na relação dos dois países. Anúncio que é confirmado no mesmo dia por Raul Castro;

20 de julho: O ministro dos Negócios Estrangeiros cubano, Bruno Rodriguez, é recebido na sede do Departamento de Estado norte-americano, em Washington, pelo homólogo norte-americano, John Kerry, naquela que foi a primeira visita nestas circunstâncias de um diplomata de Havana desde 1958;

Bandeira cubana hasteada em Washington

A bandeira cubana é colocada no átrio do edifício do Departamento de Estado norte-americano, local onde estão as bandeiras de todos os países que mantém relações diplomáticas com os Estados Unidos. Nesse mesmo dia, 20 de julho, as secções de interesses nas respetivas capitais assumem o estatuto de embaixadas.

14 de agosto: John Kerry é o primeiro secretário de Estado norte-americano a visitar Cuba desde 1945. (euronews.com)

por Francisco Marques | Com LUSA, REUTERS

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