Como o euro valorizado afeta a economia brasileira

(REUTERS)
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Moeda europeia está em patamar acima dos 4 reais pela primeira vez desde 1999, quando começou a ser adotada. Tendência pode ter consequências positivas e negativas para o Brasil. Entenda.

Numa segunda-feira considerada “negra” pelo mercado financeiro, com baixa acentuada nas ações em Xangai, o real sofreu desvalorização em queda livre em relação ao euro. A tendência se manteve nesta terça (25/08), com o euro atingindo novamente o valor de 4,10 reais.

É a primeira vez que a cotação do euro fecha em patamar acima dos 4 reais desde que a moeda passou a ser adotada por países europeus, em 1999.

Com a participação relevante da Europa na balança comercial do Brasil – maior que a dos Estados Unidos –, o real desvalorizado em relação ao euro traz impactos negativos sobre as importações brasileiras.

O economista Luis Nelson Porto Araujo, especialista da Universidade de Chicago e consultor da Delta Economia e Finanças, considera a perda de valor do real como “muito danosa”, especialmente para o controle da inflação.”Ela pode ser boa para manter o fluxo de comércio internacional, mas para fins de inflação é muito ruim”, explica.

“As multinacionais europeias estão perdendo repatriamento com a mudança acentuada de câmbio”, diz Araujo. “Elas podem ganhar em termos de investimento, porque o euro compra mais do que o real, mas o momento econômico do Brasil as leva a pensar: ‘Para que aumentar o investimento se o consumo está em queda?’.”

Segundo André Perfeito, economista-chefe da corretora Gradual Investimento, o real perdeu valor perante outras moedas devido à queda no preço das commodities e à impossibilidade de manter o ritmo anterior de valorização.

“O Brasil teve por muitos anos uma moeda muito sobrevalorizada. Até 2010, o real aumentou mais do que o franco suíço, a coroa sueca e até o euro, e estava um pouco fora do lugar em relação a outras moedas”, explica. “O país estava atraindo dinheiro por causa de um diferencial de juros muito elevado no período do boom das commmodities, mas esse cenário já não é mais o mesmo.”

Essas razões, somadas à crise política, abriram espaço para o real perder valor diante do euro, diz o especialista, que considera a desvalorização da moeda brasileira positiva.

“Tem que ter o real desvalorizado. Na verdade, esse é o passo de ajuste econômico em curso. Não podemos abrir mão disso agora”, defende Perfeito. “A boa notícia é que justamente isso vai ajudar o nosso setor interno, porque o Brasil basicamente puxou parte do mundo nos últimos anos fazendo com que a nossa demanda vazasse para fora.”

Impacto do mercado chinês

Depois de a bolsa de Xangai registrar uma valorização de mais de 150% no último ano, o mercado chinês se viu diante de uma quebra no ritmo de crescimento econômico. Pequim fez cortes na taxa de juros nesta terça para estimular a economia após as ações caírem mais de 7%.

“A abertura de alguns mercados nesta terça, depois do fechamento da bolsa chinesa, sinalizou uma situação mais estável em alguns mercados europeus e na Austrália. As coisas estão um pouco melhores. Talvez o contágio não seja tão grande quanto o pânico dos últimos dias, inclusive para o Brasil”, observa Araujo.

Segundo Perfeito, o cenário ruim na China tem impacto no valor do real. Ele argumenta que esse é o momento para o Brasil sofisticar a pauta de exportações ao mercado chinês.

“Deve-se parar de acreditar que apenas alterações no câmbio vão resolver o problema. O país deve entender que há boas oportunidades para tentar melhorar a pauta de exportações para a China e isso demanda planejamento.”

Dólar acentua crise

Desde 2014, o real já perdeu cerca de 30% do seu valor em relação ao dólar e cerca de 5% frente ao euro, a segunda moeda mais importante em escala global.

“Quando se diz que o real se desvalorizou muito em relação ao dólar e menos quanto ao euro, pode-se concluir que a moeda americana se movimentou frente à europeia. A velocidade de recuperação e a saúde das economias são diferentes”, explica Araujo.

O economista acrescenta que o Brasil é prejudicado globalmente não apenas pela desvalorização do real, mas pela perda de valor de outras moedas em relação ao dólar e ao euro.

“Ainda não se sabe se os EUA vão aumentar a taxa de juros no final deste trimestre ou se a divulgação vai ser postergada em função do que aconteceu com a China. Isso terá impacto sobre a valorização do dólar e, portanto, deve gerar maior desvalorização do real frente não só ao dólar como também ao euro. É mais um círculo vicioso em que estamos enrascados”, ressalta o especialista ao afirmar que a situação política no Brasil tende a agravar o quadro de instabilidade cambial.

A maior desvalorização do real em relação ao dólar também deve forçar o aumento de juros, já que os investidores esperam uma taxa de remuneração maior, na forma de juros, para compensar a perda do poder de compra da moeda.

“Esse é o dilema que o Brasil vive hoje. A gente tem que aumentar a taxa de juros para combater esse processo inflacionário dos últimos dois anos e, ao mesmo tempo, existe um efeito do movimento global de paridade de moeda, que pressiona a taxa de câmbio brasileira e retroalimenta a taxa de juros. É como se o cachorro estivesse correndo atrás do rabo”, critica Araujo. (dw.de)

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