Cimento Nacional (ParteII)

(D.R.)
(D.R.)
(D.R.)

Em termos de produção, os saltos quantitativos da Nova Cimangola deram-se em 2005 e 2011, com a introdução de dois moinhos de grande capacidade (hoje são seis). Outro momento-chave surgiu em 1984, com a construção do porto-cais com 1 quilómetro de comprimento, através do qual os navios podem descarregar directamente o clínquer (ou exportar o produto acabado). Além da reestruturação empresarial profunda, a entrada dos novos accionistas em 2007, implicou o investimento na modernização da fábrica (a título de exemplo, até os sacos são produzidos internamente) e da capacidade (hoje de 1,8 milhões de toneladas, com vendas de 1 milhão em 2014).

O grande projecto já em curso, segundo afirmou à EXAME o administrador-delegado Mário Medina, é a construção de uma fábrica mais moderna, que ficará localizada em terrenos contíguos à actual. A capacidade será igual (1,8 milhões de toneladas por ano), mas terá duas linhas de produção que visam o fabrico próprio de clínquer (hoje, parte dele é importado). “É como ter duas fábricas no espaço de uma”, diz.

Nova Cimangola na RDC, Cimenfort em Cabinda e Nacala

Mário Medina garante que o projecto deverá estar concluído no final de 2016, mas não referiu o investimento (o jornal Expansão deu conta, em Junho de 2014, que o Ministério das Finanças concedeu um financiamento à Nova Cimangola de 113 milhões de dólares para a modernização da fábrica).

O próximo grande desafio da Nova Cimangola é a internacionalização. O primeiro passo é a compra da cimenteira estatal Cinat (Cimenterie Nationale), localizada a 200 quilómetros de Kinshasa (República Democrática do Congo — RDC), processo que foi iniciado em 2012 e agora está em vias de conclusão (a imprensa local da época refere que a empresa angolana pagou 40,6 milhões de dólares por uma participação de 53%, tendo-se comprometido a investir mais 54 milhões na sua modernização).

A terceira do ranking é a Fábrica de Cimento do Kwanza-Sul (FCKS), localizada no Sumbe, com capacidade de 1,35 milhões de toneladas (vendas de 583 mil em 2014). A empresa foi constituída formalmente em 2003, mas o arranque da fábrica passou por várias vicissitudes, só tendo começado a laborar em 2014 (algo que justifica o volume elevado de investimento que, segundo relatos da imprensa, terá oscilado entre os 600 e os 800 milhões de dólares).

Trata-se, porém, de uma unidade integrada (tem matérias- primas, central que gera 15 MW, produz clínquer e sacos) e moderna (via seca). Em entrevista à Economia & Mercado, o administrador, Tambwe Mukaz, a_rmou, com orgulho, que a FCSK é 100% angolana (desconhece-se a estrutura accionista, mas sabe- -se que foi celebrado um contrato de fornecimento de máquinas e assistência técnica com os dinamarqueses da FLSmidht e que a obra foi construída pela ETA Star, do Dubai). Acrescentou que a marca Yetu significa “nosso” em várias línguas africanas — não só em quimbundo, kikongo e cokwe como em swahili (África Oriental).

“É um factor que pode facilitar a expansão internacional da marca que já está a ser comercializada na RDC”, a_rmou. A quarta do ranking, a Cimenfort, pertence ao grupo Genea, que também actua nos sectores da construção civil e imobiliário (veja EXAME n.º 9). Com uma capacidade de 750 mil toneladas, vendeu 349 mil em 2014. A fábrica foi inaugurada no ano anterior, numa área de 270 hectares, em pleno pólo industrial da Catumbela, perto da linha do caminho-de-ferro de Benguela (o ramal interno de 25 quilómetros de extensão a partir da fábrica é uma das suas vantagens competitivas).

“No ano passado, já vendemos algum cimento para a RDC, sobretudo através de intermediários locais. Trata-se de um mercado de grande potencial, com 70 milhões de habitantes, com fábricas ine_cientes e onde a oferta é cara. Para já a Caminho de Ferro de Benguela (CFB) só transporta cargas pequenas (25 toneladas) até à RDC. Mas, no ano passado, a CFB reportou que 60% da carga transportada já foi relativa ao cimento. A médio prazo, a nossa meta é exportar 20% da produção para aquele país”, afirmou à EXAME, Hermes Cruz, administrador-delegado. O potencial da CFB não se fica pela RDC.

A linha vai permitir a ligação a outros mercados de grande potencial como a Zâmbia, rica em minérios, e demais países do interior (hoje o transporte de minerais faz-se pelos portos da Tanzânia e de Moçambique, estando o novo, do Lobito, a posicionar-se como alternativa mais rápida e menos onerosa). A Cimenfort também tem projectos em curso para expandir a sua produção. No final deste ano estará concluída a segunda fase do projecto industrial da Catumbela (prensa de rolos) que duplicará a capacidade para 1,4 milhões de toneladas. A terceira fase, que permitirá a produção de clínquer, também já começou, mas só vai terminar em 2017 (o investimento que rondará os 180 milhões a 200 milhões de dólares).

Outra novidade da Cimenfort é a construção de mais duas fábricas. Segundo referiu Hermes Cruz, a primeira, a erguer em Cabinda, já está em curso e irá começar a operar no final de 2016. Terá uma capacidade de 300 mil toneladas e um investimento de 70 milhões de dólares. A segunda, cujas obras só arrancam no final deste ano, será em Nacala (Moçambique), estando por definir a capacidade. Falta referir a Secil, localizada no Lobito, em frente à Restinga e ao lado do porto mineiro e da nova refinaria. É a mais antiga do país (foi inaugurada dois anos antes da de Cacuaco) e é detida a 51% pela portuguesa Secil (desde 1994 que pertence à Semapa, da família Queiroz Pereira) e em 49% pelo Estado. A fábrica tem capacidade para 300 mil toneladas e em 2014 vendeu 185 mil. “No ano passado as vendas cresceram 2,6%, não obstante o acréscimo de concorrência.

Já o volume de negócios caiu 8,9%, fruto da descida dos preços, o que obrigou à redução de custos operativos (incluindo a redução de efectivos que hoje totalizam 227)”, lê-se no relatório da Secil. Augusto Miragaia, administrador-delegado da Secil Lobito, afirmou à EXAME que o foco da empresa é o mercado industrial. “Fornecemos as grandes obras, dado que as construtoras, algumas delas portuguesas, confiam na nossa marca, que tem uma grande notoriedade no país.” Outra boa notícia é que a linha de caminho-de-ferro, que irá ligar ao porto mineiro, terá forçosamente de atravessar a Secil.

“As obras estão a prosseguir a bom ritmo e, em breve, poderemos beneficiar dessa vantagem”, refere. Sobre a anunciada construção de uma nova fábrica de cimento e clínquer referiu que “o acréscimo da concorrência, que hoje já produz acima das necessidades do mercado, e o momento da economia, aconselham prudência”. Importa sublinhar que no relatório e contas diz-se que o projecto — a erguer a 200 metros da actual cimenteira — começou a ser pensado há cinco anos, estando na fase de análise de propostas. A meta é ter uma capacidade de 1,2 milhões de toneladas, através de um investimento de 300 milhões de dólares. Se subsistem dúvidas sobre a nova fábrica da Secil, parece haver certezas de que os outros dois projectos previstos para o sul do país não sairão do papel. Um deles era a cimenteira Palanca, ao lado da Secil, projecto que antes se dizia estar ligado à Escom, depois à Camargo Corrêa e recentemente à Samsung.

O outro era a CNA (Cimentos Nacionais de Angola), vizinho da Cimenfort, associado à gigante alemã Heidelberg. Tal cepticismo é compreensível. Hoje a capacidade da indústria já supera o consumo. E ela ainda vai expandir. A procura, por seu lado, di_cilmente crescerá ao mesmo ritmo. Angola deverá ter um consumo per capita de cimento de 270 quilos por habitante (superior ao da média africana de 150, mas inferior à mundial de 536). Mesmo sabendo que o esforço de reconstrução nacional (que exige obras, logo cimento) ainda não está concluído, não é líquido que, a médio prazo, o sector continue a subir muito acima do crescimento da economia. Consequentemente, a saída parece ser a exportação.

Olhando para a dispersão regional dos actuais protagonistas veri_camos que há dois grandes competidores a actuar na capital e a norte do território — CIF e Nova Cimangola — e três no Sul — FCSK, Cimenfort e Secil. O cimento tem fama de ser “mau viajante”. Como o custo do transporte rodoviário é elevado, diz-se que tipicamente o raio de acção das cimenteiras não ultrapassa os 200 a 300 quilómetros. A boa notícia é que as opções ferroviárias e marítimas são cada vez mais competitivas. Um estudo da Cembureau, associação europeia do cimento, diz que transportar 35 mil toneladas por barco é mais barato do que percorrer 300 quilómetros por camião. Logo, a meta da exportação, sobretudo para os países vizinhos, não é uma miragem. “Angola pode tornar-se uma potência regional do cimento”, resume Sindika Dokolo. (exame.ao)

Por: Jaime Fidalgo


 

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA