Brasil em recessão: fui demitido – e agora?

Desde janeiro, mais de 350 mil brasileiros perderam empregos de carteira assinada (BBC)
Desde janeiro, mais de 350 mil brasileiros perderam empregos de carteira assinada (BBC)
Desde janeiro, mais de 350 mil brasileiros perderam empregos de carteira assinada (BBC)

Milhares de brasileiros têm feito a pergunta acima nos últimos meses, em função da queda no nível de atividade econômica, confirmada nesta sexta-feira pelo IBGE.

Segundo o instituto, o PIB de abril a junho teve uma contração de 1,9% em relação ao trimestre anterior, que, por sua vez, tinha registrado uma queda de 0,7% – o que nos coloca oficialmente em recessão técnica.

Mas recessão significa muito mais que um número negativo na planilha de economistas – e talvez a forma mais direta com que atinja a vida das pessoas seja mesmo pelo aumento do desemprego.

Segundo a Pnad Contínua, pesquisa sobre emprego do IBGE, a taxa chegou a 8,3% no segundo trimestre deste ano, a maior desde o início da série histórica, em 2012 – na Bahia, o índice superou os 12%.

Desde o início do ano, mais de 350 mil brasileiros perderam seus trabalhos no setor privado, segundo dados do IBGE, que, nesse levantamento, leva em conta apenas os que tem carteira assinada.

O que é pior: hoje, consultorias econômicas preveem pelo menos dois anos de PIB negativo – ou seja, outros milhares ainda podem perder seu ganha-pão nos próximos meses.

Para ajudar na saga de quem está buscando um novo trabalho neste cenário nada animador, a BBC Brasil pediu para que leitores colocassem suas dúvidas sobre o tema em entrevistas e postagens nas redes sociais.

Procuramos gestores de carreira e recrutadores para conseguir as respostas. Confira abaixo:

1. Vale a pena investir em qualificação e idiomas?

Há consenso entre especialistas consultados pela BBC Brasil que aprender inglês é essencial para quem busca uma recolocação no mercado.

“Não ter conhecimento de idiomas pode excluí-lo de um processo seletivo”, diz Fábio Cunha, da empresa de recrutamento e seleção Michael Page.

“Se você tiver condições financeiras, talvez essa seja até a oportunidade que precisava para passar um tempo em um país estrangeiro e melhorar o inglês”, diz Lucas Nogueira, da Robert Half, empresa especializada na busca de profissionais qualificados.

Sobre os outros cursos de qualificação, os especialistas dizem que é preciso pesar bem custos e benefícios.

Telma Guido, consultora sênior da Right, empresa ligada ao ManpowerGroup, ressalta que eles podem ser uma boa oportunidade para o profissional se atualizar em sua área ou até explorar uma área correlata.

“Mas não é qualquer qualificação que vale a pena, o curso precisa estar bem alinhado com sua carreira. E é preciso tomar cuidado especial com os muito caros, caso dos MBAs, mestrados e etc.”

Cunha concorda. “Afinal, um curso pode até fazer a diferença em um ou outro caso específico, mas no geral é apenas mais um entre muitos fatores a serem considerados na competição por vagas”, diz.

Para os especialistas, os cursos de mestrado e doutorado, em especial, seriam mais adequados para quem quer uma carreira acadêmica. No mercado, seriam valorizados apenas em ocupações específicas. r

Sobre fazer um curso para mudar de área, os especialistas divergem. Para Guido, o profissional tem de considerar que, com a crise, terá de competir com outras pessoas que já têm experiência nessa nova área.

Nogueira acredita que o risco pode valer a pena. “Essa é, afinal, uma oportunidade para você avaliar os rumos de sua carreira. Você pode ir para uma área que lhe deixe mais feliz ou esteja resistindo melhor à recessão.”

Para ele, quando o tema é cursos de qualificação, os contatos feitos na sala de aula são tão importantes quanto os conteúdos ministrados.

“O curso pode lhe agregar network (rede de relacionamentos). Você pode conhecer alguém que sabe de um novo projeto em sua área, por exemplo. Se trabalha em vendas e faz um curso de marketing, vai encontrar gente dessa área. Ou se decidiu largar tudo e virar chef de cozinha, é no curso que vai encontrar pessoas no mesmo caminho.”

2. E abrir um negócio próprio?

“Não há receita de bolo, mas é preciso cuidado com as propostas de retorno mirabolantes”, recomenda Nogueira.

Ele diz que é comum que uma pessoa que trabalhava de 8 a 10 horas por dia sonhando em ter uma pousada no litoral queira pegar o dinheiro recebido na rescisão de seu contrato para seguir esse sonho.

“Até porque a pessoa fica meio desnorteada de não ter de ir para o escritório na segunda de manhã. Mas é preciso muita calma e sangue frio para abrir um negócio. Os riscos precisam ser muito bem avaliados”, completa.

Cunha faz uma recomendação semelhante. “O profissional brasileiro tem uma tendência empreendedora – e abrir um negócio com o dinheiro recebido após a demissão vai ser uma tentação para muita gente”, diz ele.

“Mas é preciso lembrar que, em um momento de recessão econômica, os riscos desse caminho são ainda maiores. A decisão precisa ser muito bem pensada.”

3. Onde procurar trabalho?

O primeiro passo é o que os especialistas definem como “ativar sua rede de relacionamentos”, ou seja, contatar antigos chefes e colegas, conhecidos e profissionais de sua área.

O objetivo é detectar onde podem estar surgindo novas oportunidades e se mostrar disponível.

“Não é para apenas disparar e-mails com currículos em anexo. Você precisa trocar informações sobre o setor e também engajar algumas pessoas na sua busca por trabalho. Elas precisam se lembrar de você quando souberem de uma oportunidade”, diz Nogueira.

A internet é hoje a grande aliada de quem está atrás de um novo trabalho.

“Além de se cadastrar nos sites das empresas a pessoa deve manter atualizado seu perfil no LinkedIn (rede social de negócios) e conferir as vagas anunciadas ali”, recomenda o especialista da Robert Half.

“Os sites de busca de emprego também podem ajudar. E outra dica boa pode ser participar de grupos de discussão temáticos em redes sociais, pois muitas vezes os head hunters (caçadores de talentos) anunciam vagas nesses fóruns.”

4. Como manter a disposição e autoestima elevadas?

“Uma receita básica é: mantenha a disciplina. Acorde cedo, coloque uma roupa social. Marque almoços com pessoas da sua área, leia muito, faça algum exercício e mantenha-se ativo”, diz Nogueira

“Uma demissão tem de ser encarada como uma oportunidade de você revisar sua carreira e rumos profissionais, não dá para se desesperar – até porque as pessoas estão ficando desempregadas na realidade em função de um problema da economia.” a

Para Guido, a busca por um emprego deve ser encarada como um trabalho.

“Esse acaba sendo um teste de resiliência. Se você se abate e perde a confiança, pode ir mal em uma entrevista e reduz suas chances de encontrar uma boa oportunidade”, diz ela.

Fazer trabalhos temporários em sua área também pode ajudar nessa questão da autoestima, segundo a consultora.

“Mas se o trabalho for um ‘bico’, fora de sua área é preciso tomar cuidado para que ele não consuma todo seu tempo e energia e tire seu foco da busca de um novo emprego. É preciso que haja um equilíbrio.”

5. Como chamar a atenção de recrutadores que avaliam tanta gente qualificada?

Segundo Cunha, um currículo “eficiente” fala de maneira clara e objetiva o que a pessoa fez em cada lugar que trabalhou e por que fez a diferença para a empresa.

“Um currículo não pode ter mais de duas páginas e precisa ser claro e objetivo. Uma dica legal é fazer a divisão por pontos, como em uma apresentação de Power Point”, completa Nogueira.

No caso de vagas específicas, é interessante ressaltar experiências e competências que possam ser interessantes para a função anunciada.

E na entrevista, os recrutadores lembram que os candidatos precisam mostrar que estudaram a empresa e tem uma ideia clara de como podem contribuir para potencializar seus resultados.

6. Como explicar uma demissão?

A regra seria transparência. “Não minta. É preciso ser direto e objetivo, mas sem se alongar muito. Não dá para ficar falando mal do emprego anterior ou do chefe”, diz Guido.

“Se houve uma reestruturação na empresa, ou a empresa fechou, nem há muito o que explicar. Se o problema foi o desentendimento com gerente ou diretor, fale abertamente: ‘Foi uma incompatibilidade de ideias, de estilos ou algo do tipo'”, completa Nogueira.

7. E quem está fora do mercado há algum tempo e precisa voltar?

Para Nogueira, os projetos ou trabalhos temporários são uma ótima forma desses profissionais que estão afastados conseguirem voltar ao mercado.

“No caso de uma engenheira civil, por exemplo, pode ser uma obra, uma reforma ou uma parceria com um arquiteto”, diz ele.

Guido diz que o afastamento em função de maternidade, caso da leitora Mayara Porfírio, é aceito e compreendido por boa parte das empresas.

Para ela, se tiver pressa de entrar no mercado, a profissional pode ‘flexibilizar’ sua busca.

“Talvez seja o caso de aceitar posições um pouco mais baixas e depois tentar subir na empresa, ou de procurar ocupações em áreas correlatas”, diz ela.

Cunha concorda: “Ela pode tentar entender quais das suas habilidades e competências poderiam fazer a diferença em áreas e setores que estão resistindo melhor à crise.”

8. Qual o melhor momento para procurar estágio?

Os programas de estágio e trainee estão resistindo à crise, como relataram empresas de recrutamento em matéria recente publicada pela BBC Brasil.

Segundo Guido e Nogueira, um bom momento para fazer estágio seria no segundo ou terceiro ano. Para a consultora da Right, o primeiro ano seria uma fase de adaptação ao curso, na qual o estudante estaria ganhando maturidade.

Já Cunha acha que se o estudante tiver uma oportunidade e a carga horária do curso permitir, começar logo do primeiro ano pode ser interessante para que ele já possa ter contato com o ambiente corporativo e comece a entender suas preferências em termos de carreira.

“O quanto antes, melhor. Mas é preciso entender que um estágio que você vai conseguir no primeiro ano pode envolver funções mais simples, operacionais. O estudante precisa ajustar suas expectativas”, diz. (bbc.co.uk)

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA