Água: Uma questão de vida ou de morte

(Foto: D.R.)
(Foto: D.R.)
(Foto: D.R.)

A água vai tornar-se um bem precioso neste século em que o aumento populacional agravará as dificuldades para obtê-la. Explosão demográfica, urbanização desordenada e má gestão fazem da competição pela água o rastilho para centenas de conflitos. E, para não chegarmos a meio deste século com 5,5 mil milhões de pessoas sedentas, é preciso mudar a maneira como lidamos com a água.

A escassez alarmante de água nalguns pontos do globo e a má utilização que fazemos dela puseram-nos à beira do abismo. Mil milhões de pessoas vivem já em zonas onde escasseia. O rápido aumento da população (hoje há mais de 7.000 milhões de pessoas) e o aumento da temperatura média nas próximas décadas farão deste um dos recursos mais escassos e procurados, como têm alertado cientistas desde há anos.

A busca por soluções capazes de reverter esse quadro de escassez é um dos desafios mais importantes da ciência actualmente. Enfrentamos o desafio de produzir mais alimentos para mais população, mas com menos água. Seapopulaçãocresceraté9 mil milhões de pessoas em 2050, como se estima, será preciso usar entre 56% e 128% mais água do que dispomos agora.

O consumo de água está a crescer mais rapidamente do que a população mundial – no século XX, cresceu o dobro. Várias agências da ONU prevêem que, em 2025, 1,8 mil milhões de pessoas viverão nas regiões atingidas por escassez absoluta de água, implicando a falta de acesso a quantidades adequadas para a utilização humana e ambiental. E dois terços da população enfrentarão condições de stress hídrico – escassez de água doce renovável.

Uma das primeiras guerras da história foi travada por causa de água, há 4.500 anos, entre duas cidades-Estado na margem do rio Eufrates, região onde fica o actual Iraque. De lá para cá, a quantidade de água potável disponível no planeta não mudou, mas a explosão demográfica, a urbanização desordenada e a má gestão de um recurso insubstituível fizeram do acesso à água uma competição cada vez mais agressiva – e o rastilho de centenas de conflitos.

No Sudão, desde 1963, a falta de água foi um dos factores que impulsionaram o conflito que matou mais de dois milhões de pessoas. A guerra civil no país, agora separado entre Sudão e Sudão do Sul, foi provocada por elementos, políticos, sociais e económicos, mas investigadores da Universidade de Columbia apontam a água como um dos principais.

E as mudanças climáticas devem elevar a temperatura, aumentar a aridez do solo e mudar os padrões sazonais de chuva em África. O continente também deve esperar inundações e secas mais frequentes, menos neve e derretimento nas regiões montanhosas e ao nível do mar aumento da salinidade nos aquíferos costeiros.

O cenário é de alto risco. Na África Subsariana apenas 5% da água doce renovável é utilizada anualmente. O abastecimento de água potável nas áreas rurais cresceu para 47% até 2008, mas estagnou em 80% nas áreas urbanas desde 1990. Só 31% da população usa instalações sanitárias adequadas. Entre meados da década de 1990 e 2008, o número de pessoas desnutridas aumentou de 200 milhões para 350-400milhões.

Desde meados dos anos 1960, a produção agrícola aumentou em média menos de 2% ao ano, enquanto a população cresceu 3%. A falta de água e a seca afectam o crescimento do PIB num terço dos países. Apenas um em cada quatro africanos tem acesso à electricidade.

A energia hidroeléctrica fornece um terço da energia do continente, mas poderia suprir todas as suas necessidades de electricidade. Apenas 3% dos recursos hídricos renováveis são actualmente explorados para a hidroelectricidade.

Mas os países africanos já começaram a abordar as questões transfronteiriças da água, relacionadas com o desenvolvimento hídrico, por meio de consórcios multinacionais de energia. Segundo investigações recentes, se a temperatura média do planeta aumentar apenas 2 ºC em finais do século (um dos cenários mais optimistas), 8% mais da população mundial viverá em zonas com escassa água, agudizando a sua situação actual.

Se o aumento for de 3,5 ºC (uma previsão que, segundo os cientistas, é provável que se torne realidade se continuarem as emissões de gases de efeito estufa ao ritmo actual), a percentagem de cidadãos que passam sede aumentaram em 11%. Por fim, uma subida da temperatura média de 5 ºC elevaria o número em 13%. Este seria o cenário mais pessimista, segundo o último estudo realizado pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas das Nações Unidas (IPCC).

No entanto, África dispõe de três grandes aquíferos, o de Nubia (Sudão), com um volume de água de 75.000 km3, o do Norte do Sara, com 60.000 km3, e o de Karoo (África do Sul e Namíbia). O continente tem, assim, um bom potencial de água para os seus 850 milhões de habitantes com 6.460 m3 por pessoa/ano, um número muito importante.

Contudo, este dado é mais estatístico do que real, apenas por efeito do caudaloso rio Congo e zonas húmidas dos trópicos, já que os enormes rios da África Ocidental começam a perder caudal. As estatísticas proporcionadas pela ONU asseguram que 300 milhões de africanos não têm acesso a água potável. Praticamente todos os seus rios e lagos estão contaminados pela sobreexploração humana, sobretudo por razões económicas. (expansao.ao)

Por: Benjamim Carvalho

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA