Projecto Kalunga II regressa a Angola 35 anos depois com show a 9 de Setembro

Martinho da Vila, com Paulinho da Viola, no lançamento da sua discobiografia, em 2013. (Foto: D.R.)
Martinho da Vila, com Paulinho da Viola, no lançamento da sua discobiografia, em 2013. (Foto: D.R.)
Martinho da Vila, com Paulinho da Viola, no lançamento da sua discobiografia, em 2013.
(Foto: D.R.)

Há 35 anos atrás teve lugar em Luanda, a primeira edição do Projecto Kalunga, na Tourada em Luanda com a participação da maior embaixada musical brasileira em conexão com um naipe de artistas angolanos, numa salutar sinergia, alguma vez realizada no nosso país.

Na quarta-feira, dia 26, às 17h30, no restaurante Lookal, realiza-se a apresentação do projecto Kalunga II à imprensa, onde será anunciado o show, a ter lugar no dia 9 de Setembro, no mesmo local. Sua Excelência, o Embaixador do Brasil, Sr. Norton de Andrade Mello Rapesta e a Sra. Adriana Dias, directora executiva do IDEIA farão uso da palavra para divulgarem a natureza do grande evento.

A segunda edição do festival de música popular brasileira, contará, curiosamente, com algumas das vozes de há 35 anos atrás. A saber: Elba Ramalho, Francis e Olívia Hime, Geraldo de Azevedo, Martinho da Vila e Mart´Nália. Desta vez o patrocinador e organizador do espectáculo, o Instituto de Desenvolvimento Educacional de Angola (IDEIA) decidiu, em parceria com a Embaixada do Brasil incluir os artistas Miúcha, Mariene, Nei Lopes e Yamandu Costa.

A organização prevê colocar 600 pessoas a abraçar o IDEIA, desde empresários angolanos e brasileiros, convidados protocolares e todos os que “acreditam num futuro de harmonia e cooperação entre duas grandes Nações”.

Os ingressos estarão disponíveis a partir do dia 26 de Agosto, no restaurante Lookal pelo telefone 936000017, no Centro Cultural Brasil- Angola, pelo 936621540 e na Executive, através do número 936621546.

Outros contactos:

EXECUTIVE:

Manuela Rodrigues dos Santos – [email protected] +244 94 23 44 923

Ou

Maúda Bandeira – [email protected] +244 942 344 923

Ou

Aoaní d’Alva – [email protected] +244 942 34 49 23  (idea)


(VIDEO)

MARTINHO DE ANGOLA
“Eu sou brasileiro e estou realizando meu grande sonho, que é pisar este solo africano. Me emociona muito estar aqui em Angola, talvez a terra dos meus bisavós. Lá no Brasil, se comemora o sesquicentenário da nossa independência. Espero quando aqui voltar encontrar um país livre”.

Ao proferir estas palavras no imenso teatro N’Gola Cine, lotado de angolanos, em 7 de setembro de 1972, Martinho da Vila plantava em Luanda a semente da liberdade, do sonho de uma pátria livre, de um país que deixaria de ser Colônia, que rejeitaria de uma vez por todas a Metrópole portuguesa.

Passados 150 anos da “independência” do Brasil, os negros brasileiros ainda sofriam com a falta de oportunidades, o preconceito social e a intensa marginalização no campo de trabalho, fruto da inexistência de políticas sociais voltadas a eles. Os negros angolanos, por outro lado, ainda buscavam, além da emancipação cultural, social e racial, a liberdade política, na própria terra natal.

A presença de Martinho em solo africano marcaria, no entanto, o início de uma forte relação cultural, social e artística entre os dois países e entre os dois continentes – relação que até então, e por séculos a fio, foi feita no campo da escravidão, com pessoas sendo arrancadas de seu pedaço de chão, desterradas e coisificadas em um novo continente, afligidas pelo “banzo”, a imensa saudade da Mãe África.

Em Angola estava, ainda, as raízes musicais do samba, ritmo que fez de Martinho José Ferreira o Martinho da Vila. O “semba”, expressão folclórica autêntica do país africano chegaria ao Brasil com os escravos em forma de batuque e se moldaria, com o tempo, como um gênero musical popular urbano. A ida de Martinho ao país representaria ao sambista, então, mais do que uma busca às suas origens raciais – faria com que o compositor reconhecesse, em outro continente, muitos elementos comuns e outros tantos inspiradores, motivadores, que dariam origem ao ritmo nacional brasileiro, o samba.

O sambista viajaria ao país africano com um pandeiro à mão. Seria de importância fundamental para explicar aos músicos que o acompanhariam na excursão pelo território angolano como se toca o ritmo brasileiro. “Os Cunhas” era o nome do grupo africano, formado por um pianista, um baterista, dois violeiros e dois percussionistas. Os músicos conseguiram pegar o ritmo do samba, ainda que nas apresentações os partido altos de Martinho ficassem um tanto quanto “merengados”.

O brasileiro, após cantar para os negros angolanos, faria uma apresentação para a elite portuguesa, no Cinema Avis (hoje Cinema Karl Marx). Vendo a multidão de angolanos na porta do local, ansiosa para vê-lo cantar, pediu que deixassem que eles entrassem para assistir ao show. Com a resposta afirmativa por parte dos organizadores, uma plateia com colonizadores e colonizados se formou, algo raro à época no país.

A viagem de Martinho ao continente africano se estenderia por vários dias, com o artista popular brasileiro conhecendo as mais distantes localidades do país, celebrando com o povo de lá a cultura comum dos negros brasileiros e angolanos, inclusive em noitadas regadas à caparroto – a cachaça dos angolanos –, em musseques (favelas locais) localizados no subúrbio de Luanda. Esta experiência o marcaria de forma indelével, fazendo com que a negritude, a africanidade e a lusofonia ganhassem um papel preponderante na obra de Martinho da Vila.

Origens

Nascido em Duas Barras, interior do Rio de Janeiro, filho de lavradores da Fazenda do Cedro Grande, ainda criança se mudaria para Serra dos Pretos Forros, na capital fluminense. Sua criação se deu, portanto, em um ambiente rural, à princípio, e depois em uma favela carioca. Sendo assim, sua conscientização a respeito da importância da preservação das raízes e da valorização da cultura negra vem de berço. Angola, de uma maneira ou outra, está presente em sua vida desde o seu nascimento, é uma herança familiar.

Com a viagem ao país, então uma colônia portuguesa, Martinho da Vila passa a trazer as referências, a sonoridade, o folclore e os ritmos angolanos para sua música. Em 1973, no disco “Origens”, grava uma faixa batizada de “Som Africano”, com uma sequência de canções folclóricas angolanas cantadas em dialetos falados no país. Dez anos depois, em “Novas Palavras”, registra um “semba” que fazia sucesso no carnaval angolano, “Foi Ela”, de Adelino Tavares e Ana Maria Mascarenhas. Com compositores locais Rui Mingas e Manoel Rui, o brasileiro compõe e grava “À volta da fogueira”. Por fim, com seu parceiro Rildo Hora, faz um “semba”, “Negros Odores”, onde celebra a independência dos povos africanos, recém-conquistada.

Com o passar dos anos, o tema da lusofonia fica cada vez mais presente em sua obra, culminando com um CD inteiramente dedicado a música dos países onde se fala o português: “Lusofonia”, lançado em 2000. Seis anos depois, editaria o romance “Os lusófonos”, na esteira de suas pesquisas sobre o assunto.

Em 1975, três anos depois da viagem de Martinho a Angola, o país tornaria-se independente, mergulhando, todavia, em uma sangrenta guerra civil que perduraria até 2002. Na segunda metade da década de 1970, quando o recém-criado Estado independente ainda não possuía diplomatas no Brasil, foi o sambista quem estreitou os laços entre os dois países, sendo consultado a respeito de todos os intercâmbios realizados entre os dois países, especialmente na área cultural. Martinho era, de fato, o Embaixador Cultural de Angola no Brasil.

“Projeto Kalunga”

Por conta de sua intensa relação com o país africano, em 1980, quando Fernando Faro e Chico Buarque idealizam o “Projeto Kalunga”, que levaria uma caravana de músicos brasileiros para atuar no país, Martinho da Vila foi um dos primeiros nomes a receber o convite – assim, ele cumpriria a promessa de retornar ao país independente. Participaram, ainda, da excursão: Clara Nunes, Elba Ramalho, Dona Ivone Lara, Djavan, Miúcha, Cristina Buarque, João do Vale, Francis e Olívia Hime, Geraldo Azevedo, Quinteto Violado, Wanda Sá, MPB-4, Conjunto Nosso Samba, Edu Lobo e João Nogueira.

Apesar da extrema importância do projeto, um marco na relação cultural entre Brasil e Angola, entre América do Sul e África, a mídia brasileira ignorou completamente a excursão dos artistas brasileiros ao país africano. Angola, recém-independente e em guerra civil, era um Estado comunista e a ditadura militar vigente no Brasil, zelando pelas determinações imperialistas estadunidenses em tempos de Guerra Fria, não recomendava à imprensa que se noticiassem notas positivas a respeitos de países alinhados com a União Soviética.

“Canto Livre de Angola”

Três anos depois da realização do Projeto Kalunga, Martinho resolveu produzir um projeto inverso ao “Kalunga”. Desta vez, foram os músicos angolanos que vieram para o Brasil. Batizado de “Canto Livre de Angola”, o programa trouxe, para apresentações no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, marimbas, tishumbas e dizanlkas angolanos, que ressoaram junto a nomes como Mestre Geraldo, Mana Sofia, Velho Bastos, Carlos Burity, Pedrito, Dina Santos, Joi Artur, André Mingas, Felipe Mukenga, Robertinho, Carlitos Vieira Dias, Candinho, Rodolfo Kituxi, Paulo Kaita e Elias Dias Kimuezo. A apresentação na Sala Cecília Meirelles, no Rio, foi gravada para um disco homônimo. A parte alta da apresentação, que arrancou lágrimas dos olhos dos presentes, se deu quando os angolanos se puseram a cantar: “Chê Menino / Posso morrer / Já vi Angola independente”.

“Kizomba”

Martinho destinaria, durante a década de 1980, grande parte de sua energia para o intercâmbio cultural entre Brasil e Angola. Motivado pelo sucesso do “Canto Livre de Angola”, o sambista criou um grupo de estudos para realizar os Encontros Internacionais de Artes Negras. Chamado de “Kizomba”, que no dialeto quimbundo significa “encontro de identidades”, “congregação”, “festa de confraternização”, o projeto contou com a participação de nomes como Benedita da Silva, Antônio Pitanga, Milton Gonçalves, Jorge Coutinho, entre muitos outros colaboradores.

De 1984 até 1990, foram realizados diversos eventos, com artistas angolanos e de outras localidades: vieram para o Brasil músicos de 30 países, entre os quais estavam Moçambique, Nigéria, Congo, Guiana Francesa, Estados Unidos e África do Sul.

1988: Centenário da Abolição da Escravatura

O protagonismo de Martinho da Vila frente às comemorações do Centenário da Abolição da Escravatura no Brasil teve início ainda em 1987, quando foi convidado pela direção da Rede Globo para compor o tema da vinheta de ano novo da emissora. Naquele ano, em vez da tradicional música “Um novo tempo”, de Marcos Valle, Paulo Sérgio Valle e Nelson Motta, outra canção, que fizesse referência ao Centenário da Abolição – celebrado no ano de 1988 que adentrava – teria espaço. E ninguém mais propício para realizar a tarefa que Martinho.

O compositor criou um tema comovente, que a princípio causou estranheza nos diretores globais, mas logo seria aceito: tratava-se de um ijexá, “Axé para todo mundo”, onde o sambista canta, de forma quase a entoar um mantra, os versos “Muito axé pra todo mundo, axé/ Eu, negro brasileiro / Desejo para esse Brasil / De todas as raças / De todos os credos / Axé”.

O ano começava de forma promissora. No Carnaval, em fevereiro, realizaria o maior sonho de sua vida, vendo sua Escola de Samba de coração, a Unidos de Vila Isabel, vencer a disputa, com um samba-enredo épico, criado a partir de um enredo concebido por ele: “Kizomba, Festa da Raça”, composto por Luiz Carlos da Vila, Rodolpho e Jonas. Em pleno Centenário da Abolição, a Vila faria história com um desfile magistral, exaltando a negritude. Martinho da Vila estava realizado – tal como os angolanos livres da colonização de Portugal, já podia morrer feliz.

Estas experiências vividas em 1988, bem como detalhes das viagens de Martinho a Angola estão pormenorizadas no livro “Kizombas, andanças e festanças”, lançado em 1992, de autoria do próprio sambista.

Concerto negro – Celebração da cidadania

Foi no ano de 1988, emblemático para vida e obra do compositor, que nasceu o convívio com o maestro Leonardo Bruno. À época, atuaram em um projeto de integração entre a música popular e a música clássica.

Sete anos depois, criaram o “Concerto negro – Celebração da cidadania”, um espetáculo em que foi exposta a participação do negro na música erudita, e contou com a participação da Orquestra Sinfônica do Rio, da pianista Sarah Higino, da soprano Elizeth Gomes, do violoncelista João Cândido, do barítono Pedro Alcântara, além do Coral da Família Alcântara, grupo que preserva a tradição do canto lírico desde o século XVIII, quando vieram trabalhar na mineração em Minas Gerais.

O espetáculo teve direção geral de Antonio Pitanga e Ricardo Cravo Albin e direção de produção de Antônio Pompêo. Depois de compor músicas, promover espetáculos, realizar encontros, escrever um livro e organizar ideias em palestras e seminários, uma peça de teatro era o que faltava para o sambista exaltar a negritude.

Martinho da Vila, do Carnaval, do Brasil, da África, de Angola

Martinho da Vila nasceu em pleno sábado de carnaval e a fascinação pelo tríduo momesco o acompanha desde então. Martinho é compositor de primeira, partideiro de mão cheia, sambista de patente, um bamba.

Martinho é militante da causa negra. Lusófono. Um batalhador pela valorização da cultura popular brasileira. Embaixador cultural da cultura africana no Brasil.

Martinho é carnaval, é samba, é negro, é lusofonia, é cultura popular. Martinho é África. Martinho é Angola. Uma terra de onde vieram seus ancestrais, de onde vieram os elementos que dariam origem ao samba.

Músicas angolanas cantadas por Martinho
(e outras compostas por ele em homenagem ao país):

1 – Som africano (folclore angolano) – 1973
2 – Negros odores (Rildo Hora / Martinho da Vila) – 1983
3 – Foi ela (Adelino Tavares / Ana Maria Mascarenhas) – 1983
4 – À volta da fogueira (Rui Mingas / Manoel Rui / Martinho da Vila) – 1983
5 – Axé pra todo mundo (Martinho da Vila) – 1988
6 – Kizomba, festa da raça (Rodolfo / Jonas / Luis Carlos da Vila) – 1988
7 – Hino da madrugada (Dom Kikas) – 2000

Por: *André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, “Kino”, colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre

 

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