A Obesidade é um mal global

Gabriel Baguet Jr (Foto: Jorge Monteiro/Portal de Angola)
Gabriel Baguet Jr (Foto: Jorge Monteiro/Portal de Angola)
Gabriel Baguet Jr (Foto: Jorge Monteiro/Portal de Angola)

As Sociedades actuais passam por vários fenómenos e por vários desafios à escala mundial. E as respostas para os desafios e os problemas com que se confronta a Sociedade Global não são fáceis, apesar das inúmeras estratégias em curso em múltiplos sectores como o da Saúde Pública, das Migrações ( tema mais que actual e muito preocupante a todos os nivéis ), da Educação, do Combate à Fome, logo da redução da Pobreza passando pelas Alterações Climáticas e outros que preocupam todos os decisores mundiais. Entendi ao ler pela curiosidade do tema a Revista Le Figaro Santé. A recente ediçao de periodicidade trimestral aborda a questão da Saúde em vários perspectivas, focando-se em 2 dossiers muito imporatntes quer no mundo inteiro, quer em França. E os números sobre o aumento da Obesidade e da Diabetes são inquestionavelmente inquietantes. E é sobre a Obesidade que pretendo falar. No Dossier que a Revista francesa Le Figaro Santé dedica ao tema o título é e cito: “ L´´ OBÉSITÉ: UNE ÉPIDEMIE MONDIALE”: ( Obseidade: Uma Epidemia Mundial). Subscrevo o título porque é uma realidade da Saúde Pública Mundial. Se os dados de 2005 já eram muito preocupantes de acordo com diversas fontes de consulta, incluindo a Organização Mundial de Saúde ( OMS), os dados de 2012 e agora citados nesta edição francesa da Revista Le Figaro Santé traçam um quadro que é muito grave.

Os dados mais recentes sobre a prevalência da obesidade a nível mundial tem aumentado dramaticamente nas últimas décadas, sendo tão elevada que a OMS considera esta doença a epidemia global do século XXI. As últimas projecções da OMS indicavam que globalmente, em 2005, aproximadamente 1,6 biliões de adultos tinham excesso de peso e pelo menos 400 milhões eram obesos. A OMS previu ainda nessa altura que, se não forem adoptadas as medidas correctas, em 2015 aproximadamente 2,3 biliões de adultos terão excesso de peso e 700 milhões serão obesos, sendo que em 2025 50% da população mundial será obesa. É grave pela multiplicidade de doenças que a Obesidade gera. E a mesma não escolhe países ricos e pobres. É evidente que as escalas de prevalência em percentagem nos países do Norte da Europa são mais baixas, mas existem e sendo países designados Desenvolvidos, a percentagem situa-se entre 5 a 10 por cento da população nos países do Norte da Europa afectada pela Obesidade. Além disso, a Obesidade não se encontra limitada aos adultos; a prevalência tem aumentado rapidamente entre as crianças. Segundo a Who-Europe (2006), a prevalência da Obesidade aumentou cerca de 10-40% na maioria dos países europeus, nos últimos 10 anos, tendo mesmo triplicado em alguns países da região europeia desde 1980. Quase 400 milhões de adultos residentes na região europeia têm excesso de peso e estima-se que cerca de 130 milhões sejam obesos. Assim, 30 a 80% da população adulta tem excesso de peso e até um terço são obesos. A Obesidade está ainda associada a níveis elevados de morbimortalidade: em 2002 a Obesidade era responsável por 10 a13% das mortes em diferentes partes da região segundo o (World Health Report, 2002- Relatório Mundial de Saúde de 2002). De acordo com a OMS, a prevalência da Obesidade na Europa (Programa Nacional de Combate à Obesidade (2005) e em Portugal a Obesidade também constitui um sério problema de Saúde Pública. A título de exemplo e de acordo com dados pesquisados há 8 anos, a prevalência da pré-obesidade e da obesidade na população portuguesa adulta tem sido avaliada através do IMC,( Índice de Massa Corporal ) com uma prevalência média de cerca de 34% para a pré-obesidade e de 12% para a obesidade, sendo de realçar a grande percentagem de homens com pré-obesidade e obesidade, em relação às mulheres (Programa Nacional de Combate à Obesidade, 2005). Na população portuguesa com mais de 55 anos a prevalência da pré-obesidade e da obesidade é mais elevada, respectivamente, 1,9 e 7,2 vezes. Por outro lado, os portugueses mais escolarizados apresentam cerca de metade da prevalência de pré-obesidade e um quarto da prevalência de Obesidade, quando comparados com os de baixa escolaridade. A prevalência da Obesidade é, também, mais elevada nas classes sociais mais desfavorecidas. De acordo com estudos publicadas em 2007 em Portugal, 39.4% da população portuguesa tinha excesso de peso e 14.2% são obesos (IMC ≥ 30). Assim, perfaz-se uma prevalência total de Obesidade/Excesso de peso de 53.6%.

Mas se os números são graves e enunciam a adopção de Programas de Prevenção multisectorial, a etiologia da Obesidade é multifactorial, ou seja, existem vários factores que estão na base da Obesidade como factores bioquímicos, dietéticos e comportamentais que podem contribuir para o acumular de gordura corporal. De acordo com estudos internacionais e investigação feita neste domínio da Obesidade a patofisiologia da Obesidade segundo estudos médicos e de especialistas nesta matéria da Obesidade como Nutricionistas, Dietistas, Endocronologistas, Cardiologistas é complexa e pouco compreendida. No entanto, a Obesidade pode ser encarada de uma forma simplificada como uma consequência de um desequilíbrio energético. Ou seja, a energia ingerida excede a despendida por um período de tempo considerável, sendo que muitos factores diversos e complexos podem dar origem a este balanço energético positivo. A Obesidade pode, então, resultar de um balanço energético positivo minor que resulta num ganho ponderal gradual mas persistente durante um período considerável. Este desequilíbrio tende a perpetuar-se, pelo que a Obesidade é uma doença crónica. Uma vez atingido o estado de obesidade, processos fisiológicos tendem a manter este novo peso. Apesar da susceptibilidade individual ser evidente, dados epidemiológicos recentes indicam que a causa primária para a Obesidade Global reside em mudanças ambientais e comportamentais.

O aumento da obesidade ocorreu num período de tempo demasiado curto por existirem alterações genéticas nas populações (Hill, 1998). O aumento do teor de gordura nos alimentos, bem como as dietas de grande densidade energética, associadas à redução dos níveis de actividade física e ao aumento do comportamento sedentário parecem ser os factores mais importantes no aumento de peso global. Mas outros estudos e conferências internacionais realizadas demonstram também que a Obesidade está associada também à Pobreza. Logo, as consequências da Obesidade são diversas. As consequências adversas da obesidade na saúde são muitas e diversas, variando desde o aumento do risco de morte prematura a queixas não-fatais mas debilitantes que têm efeitos adversos na qualidade de vida (Malnick, 2006). As co-morbilidades associadas à Obesidade determinam a gravidade desta doença. A Obesidade e o excesso de peso são factores de maior risco para distúrbios associados a resistência à insulina, como a redução da tolerância oral à glicose ou a diabetes tipo 2 (DM2), distúrbios cardiovasculares (DCV), que incluem a doença coronária, o enfarte agudo do miocárdio (EAM) e a hipertensão arterial (HTA), distúrbios biliares (litíase e colecistites) e algumas neoplasias (especialmente os hormono-dependentes e os colorrectais (Calle , 2003), estando ainda em muitos países industrializados associados a vários problemas psicossociais. A obesidade abdominal tem importância particular, uma vez que está associada a maiores riscos para a saúde do que a obesidade de distribuição mais periférica, sendo a primeira um preditor independente da diabetes tipo 2( DM2), doença coronária, ( HTA – Hipertensão Arterial ), cancro de mama e morte prematura. A Obesidade está também associada a um risco aumentado de morbilidade e mortalidade, assim como a redução da esperança média de vida. Existe uma relação quase linear entre IMC ( Índice de Massa Corporal ) e morte. Segundo especialistas os indivíduos com Obesidade mórbida têm a mortalidade aumentada em até 12 vezes (Harrison’s, 2008). Quanto maior a duração da obesidade, maior o risco de morte. Isto realça a importância da prevenção. As doenças debilitantes, mas não-fatais, associadas à obesidade incluem as dificuldades respiratórias (como a apneia do sono), os problemas musculo-esqueléticos (principalmente a osteoartrose e a gota), os problemas cutâneos e a infertilidade. Embora sejam frequentemente consideradas condições minor, elas podem ser bastante debilitantes e dolorosas, acarretando elevados custos para a Saúde Pública, devido aos recursos de saúde consumidos pelo seu tratamento e aos custos indirectos do absentismo que provocam conforme um estudo publicado pela Organização Mundial de Saúde em 2000.

Mas apesar destas preocupações reais e factuais, há benefícios para a Obesidade com a perda de peso. Embora os efeitos da Obesidade na capacidade funcional, saúde e qualidade de vida dos indivíduos obesos tenham sido estudados detalhadamente, o impacto da perda de peso não está tão bem documentado. Estudos de follow-up curto demonstraram benefícios evidentes decorrentes de perdas ponderais modestas no que diz respeito à maioria das consequências associadas à Obesidade, mas existem poucos estudos bem delineados que documentem os benefícios a longo prazo da perda ponderal (Anderson , 2001). Na generalidade, os benefícios conseguidos por um obeso através da perda de peso intencional e mantida a longo-prazo podem manifestar-se na saúde em geral, na melhoria da qualidade de vida, na redução da mortalidade e na melhoria das doenças crónicas associadas. ( Os custos económicos da obesidade foram avaliados em alguns países desenvolvidos e variam de 2 a 7% do total dos gastos em cuidados de saúde conforme valores revelados pela OMS no ano 2000). Dados preliminares de alguns estudos sugerem que uma grande proporção destes gastos poderia ser evitada com prevenção ou estratégias de intervenção eficientes. A maioria destes estudos incluíram na análise apenas os custos associados à Obesidade. Se fossem incluídos os custos associados ao excesso de peso, os custos atribuídos deveriam aumentar substancialmente uma vez que o número de indivíduos com excesso de peso numa comunidade é geralmente 3-4 vezes superior ao dos obesos. Os custos atribuídos à Obesidade são altos não só em termos de morte prematura a cuidados de saúde, mas também no que toca a morbilidade e redução da qualidade de vida. Em Portugal, estima-se que os custos directos da obesidade (que incluem as despesas com a prevenção, diagnóstico, tratamento, reabilitação, investigação formação e investimento) absorvam 3,5% das despesas totais da saúde como revelou em 2005 o Programa Nacional de Combate à Obesidade. A escolha de várias Estratégias de combate à Obesidade e Prevenção embora ainda haja muito para descobrir acerca dos complexos e diversos factores envolvidos na etiologia da Obesidade, é claro que forças sociais e ambientais influenciam a ingestão energética e o seu gasto, sendo capazes de ultrapassar os mecanismos fisiológicos regulatórios que mantêm o peso estável. A susceptibilidade individual a estas forças é afectada por factores genéticos e outros factores biológicos como o sexo, a idade e a actividade hormonal, factores esses que são pouco ou nada modificáveis. Os padrões alimentares e de actividade física são considerados os factores de risco major de Obesidade e são modificáveis. Assim, se corrigidos, podem servir como base de prevenção e tratamento da Obesidade. Evidências indirectas indicam que a Obesidade pode ser prevenida e que a sua prevenção é mais fácil, menos dispendiosa e mais efectiva do que o tratamento da obesidade após a sua instalação. A prevenção efectiva da Obesidade deve basear-se na modulação do ambiente (social, cultural, político, físico e cultural) que afecta o ganho de peso, no desenvolvimento de programas que tenham por objectivo o trabalho directo com os indivíduos/ grupos de alto risco de obesidade ou co-morbilidades associadas e no desenvolvimento de protocolos para os indivíduos já obesos.

Análises recentes preliminares indicam que poucos países desenvolveram estratégias de abordagem da Obesidade, sendo que ainda menos possuem serviços capazes de assegurar os cuidados necessários para lidar efectivamente com a Obesidade. Acresce ainda a falta de sensibilização e formação dos profissionais de Saúde para esta problemática. A Obesidade é um problema de Saúde Pública grave e, por isso, deve também ser visto de uma perspectiva populacional ou comunitária. Estratégias de Saúde Pública apropriadas para lidar com a Obesidade devem ter como objectivos melhorar o conhecimento da população acerca da Obesidade e reduzir a exposição comunitária a ambientes promotores de Obesidade. Assim, as duas prioridades em Saúde Pública para prevenção do desenvolvimento da Obesidade deve ser o aumento da actividade física e a melhoria da qualidade da dieta na Comunidade. As iniciativas de Saúde Pública devem incluir um esforço por tornar a Alimentação Saudável mais disponível e a promoção de iniciativas que visem a Educação Comunitária e o Planeamento Urbano por forma a encorajar e facilitar a prática de exercício físico. A par destas opções os médicos de família são, com frequência, quem tem a primeira oportunidade de encorajar a perda de peso e são os seus consultórios o pilar do tratamento da Obesidade e das suas co-morbilidades. No entanto, e apesar da prevalência crescente, permanece uma considerável resistência por parte de muitos profissionais em envolver-se activamente no tratamento da Obesidade.

O envolvimento familiar também pode ser positivo em alguns casos seleccionados. Estão indicadas diferentes estratégias em função dos objectivos propostos. Quando o objectivo é a redução de peso será necessário um balanço energético negativo temporário, o que implica redução da ingestão de certos alimentos. Nutricionistas e outros intervenientes médicos no estudo e no combate à Obesidade dizem que a modificação comportamental, a terapia farmacológica, a opção por tratamento cirúrgico e a combinação de diferentes terapias é muitas vezes necessária. E podem-se começar pelas Alterações Alimentares, a educação alimentar dos pacientes acerca dos alimentos e dos hábitos alimentares facilitam o controlo do peso e é uma componente essencial de todas as estratégias de perda de peso. Os padrões de ingestão alimentar devem ser registados e avaliados por forma a identificar áreas que necessitam de atenção especial como a adequação nutricional, a quantidade das porções e a frequência das refeições. A restrição alimentar representa o tratamento mais convencional para a Obesidade. A Obesidade implica a atenção de toda a Sociedade. Para além da Actividade Física e Exercício que produz inúmeros benefícios independentemente do Índice de Massa Corporal e da idade, uma sensibilização multidisciplinar quer no seio da família, nas Escolas e na Sociedade em geral trará, estou certo, grandes contributos à redução da Obesidade em todo o mundo. A Obesidade constitui um problema global muito sério. No nosso caso e nas demais Sociedades do mundo inteiro, envolver para além dos decisores políticos outros intervenientes como os orgãos de Comunicação Social de modo a sensibilizar gerando a criação de debates públicos pode permitir olhar para esta gravíssimo problema com outra esperança e outro olhar. As estatísticas não escondem a realidade. A Obesidade Global existe e é preciso travar este combate. Se a Obesidade por si e conforme os relatórios e estudos internacionais são uma inquietação que requer diferentes intervenções, a Diabetes é outra das doenças que não deve ser ignorada à escala mundial. De acordo com a Revista Le Figaro Santé e cito, “ em cada sete segundos uma pessoa morre de Diabetes “. A mesma publicação francesa revela que só em 2014, morreram 4,9 milhões de pessoas com Diabetes. A Saúde Pública deve ser uma opção estratégica dos Estados, mas também do envolvimento responsável de toda a Sociedade Global. (opais.co.ao)

por Gabriel Baguet Jr

2 COMENTÁRIOS

  1. Brilhante Artigo. Para muitos a qualidade de pensar incomoda quando a mesma deveria ser apreciada. Este articulista surpreende-nos com as pertinentes formas de olhar à volta do Mundo. Afinal o que somos? Benvindo Portal de Angola e sua extraordinária Equipa. Angola tem quadros muito capazes que não são convidados para a Reconstrução do nosso País. Limito-me a ler, a ouvir e a sentir.

  2. Subscrevo o que diz a nossa Compatriota. Ter qualidade incomoda.
    A forma como escreve este nosso Camarada e Compatriota como o Carlos Rosado de Carvalho a todos nos devia orgulhar. Mas preferem outras makas do que aproveitar no bom sentido os Angolanos e as Angolanas de qualidade. 40 anos já passaram. Dia 11 de Novembro vamos celebrar. Sem dúvida. Mas não percam a oportunidade de acarinhar os filhos e as filhas da nossa Terra que já deram provas em vários lugares do mundo e também em Angola. Leiam a Entrevista do Kota Bonga. Ele tem razão. É tempo de União há muito tempo. Não de divisão. Divididos é o que alguns querem para melhor reinar.

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