Yetu, a nossa música que falta conhecer

Paulo Flores (Foto: D.R.)
Paulo Flores (Foto: D.R.)
Paulo Flores
(Foto: D.R.)

De um trabalho de pesquisa, recolha e gravação de música tradicional angolana para uma colecção privada acabou por nascer um documentário em vídeo, que se pode considerar único, sobre a história da música de Angola. Mas a Yetu, A Nossa Música falta divulgação.

Lançada em 2014, a colecção Yetu, a Nossa Música nasceu de uma ideia de um homem de grande relação com a Cultura nacional e antigo presidente do Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), Teodoro Franco.

Aproveitando o hábito da oferta anual de um presente aos maiores clientes da instituição bancária, pediu que lhe apresentassem ideias para um produto cultural de prestígio. É então que surge a ideia, em 2013, apresentada pela produtora UPF, de uma colecção de Música de Angola.

«Quando chegámos ao formato final, ficou decidido que realizaríamos três CD, o primeiro de música tradicional, o segundo dos princípios da música urbana até à independência, e o terceiro da independência até ao virar do século», explicou ao SOL a produtora Ulika da Paixão Franco que, como escreve no livro que acompanha a colecção, justifica que «este trabalho tem como objectivo dignificar a criação musical em Angola, procurando as raízes da música urbana e indo ao encontro das ancestrais raízes da música de Angola».

O produto final apresentou uma surpresa aos maiores clientes do BDA – um DVD com imagens da maior parte dos depoimentos e registos realizados pela equipa durante todo o trabalho. Um documentário.

A riqueza desta colecção passa também pelo relatos, na primeira pessoa ou por terceiros, ou mesmo antigos escritos, de nomes grandes da História da Música Angolana. De poetas a compositores, de músicos a produtores e estudiosos como o austríaco Gerhard Kubik, pioneiro dos estudos de Etnomusicologia em Angola.

No documentário – a que o SOL pôde assistir –, sucedem-se depoimentos de figuras como Aline Frazão, Bonga, Carlos Burity, Mário Alberto Assis, do famoso Trio Assis, Rosa Pegado e os mais recentes Paulo Flores, Nanutu e Nelo Carvalho (que ainda jovem serviu como voz e músico de suporte ao Duo Ouro Negro).

Mas a colecção refere-se a muitos mais dados históricos – alguns remontam ao princípio do século XIX. Mário Rui Silva, músico e investigador, garante que o primeiro disco gravado em Angola e por angolanos, entre 1942 e 1946, teve assinatura do Trio Assis. Provavelmente, durante um dos famosos saraus culturais da Liga Nacional Africana.

Ulika Franco prefere referir-se ao documentário como «o registo do processo de trabalho, em que vamos questionando músicos para podermos chegar a uma conclusão. No fundo, todo este trabalho é mais dos músicos, que nos orientaram, do que propriamente nosso». O dito«registo do processo de trabalho» não deixa de criar surpresa: torna mais fácil a percepção do que é parte da História da Música de Angola.

Explicou ao SOL a mentora do projecto que o ‘documentário’ quase nasceu por um acaso. O objectivo era a recolha de histórias e registo magnéticos dos sons musicais, mas como a maioria dos depoimentos foram gravados em vídeo, acabou por surgir um documento que fica para a ‘história’ da musicalidade nacional. «O objectivo nunca passou por gravar imagens, mas sempre por gravar os CD de música. É certo que previ registar em imagens os depoimentos, as recolhas», confirma.

Percebe-se no entanto algum descontentamento: «Também não houve assim tanto ‘ruído’ de fundo e, enquanto produtora, senti isso. Só daqui a alguns anos é que alguém vai poder dar valor ao que foi feito. A ideia que tenho é essa – que talvez não tenha tido a divulgação necessária».

Fraca divulgação

O documentário que completa a colecção de três CD de temas e de um livro de apresentação com textos sobre contos e factos da História da Música de Angola teve fraco acompanhamento mediático. «Este trabalho, em termos de divulgação, morreu na praia. Por exemplo, nunca foi exibido em Angola. A colecção foi lançada pela senhora ministra da Cultura, o que foi um grande apoio, tal como o que tivemos da parte do actual presidente do BDA, o dr. Manuel Neto da Costa. Mas não houve uma sala de cinema onde eu pudesse reunir com os músicos e ficar a saber a opinião deles», diz Ulika Franco.

À insistência sobre a consciência do peso do trabalho produzido, reage de pronto e, com algum lamento que se percebe na voz, afirma: «Não recebi qualquer feed back da UNAC, com quem trabalhei muito. Portanto quando me pergunta se tenho consciência do valor do meu trabalho, só posso responder que não tenho porque não tive qualquer tipo de feed back».

A colecção – DVD incluído – foi apresentada no FENACULT, no ano passado, mas não teve direito a exibição. E o convite recebido do Festival Internacional de Cinema de Luanda, também em 2014, para incluir o documentário na programação do Camões – naturalmente fora de competição –, ficou sem efeito: «Acabou por não ser exibido. E até hoje ninguém me disse nada. O trabalho serviu também uma associação e estava à espera que a UNAC me dissesse como é que a sociedade se conseguiu rever, ou não, naquilo que lá está. Acho que foi isso que faltou».

Faz questão, no entanto, de lembrar que o único retorno que acabou por ter foi em Lisboa, numa exibição, em Abril de 2015, no Cinema São Jorge, durante o FESTin – Festival do Cinema em Português. (sol.ao)

 

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