Virgolino , o pai leão

Jorge Jesus, treinador leão. (Foto: José Sérgio/Sol)
Jorge Jesus, treinador leão. (Foto: José Sérgio/Sol)
Jorge Jesus, treinador leão.
(Foto: José Sérgio/Sol)

De braços cruzados no centro do relvado de Alvalade, Jorge Jesus encheu o peito de ar. Pernas inquietas, olhos no ecrã do estádio, a morder a língua. Para a cerimónia de apresentação do treinador aos adeptos, na quarta-feira, o Sporting produziu um vídeo com imagens do seu pai, jogador dos ‘leões’ na década de 40 e fervoroso sportinguista, e preparava-se para exibi-lo. Jorge Jesus não aguentou. Teve de desviar o olhar.

Virgolino António de Jesus, ainda vivo, com 92 anos, mas já com a saúde muito debilitada – no Sporting acredita-se que será o último sobrevivente da equipa em que jogou -, é uma presença muito forte na vida do treinador que se mudou da Luz para Alvalade. Só de falar nele, Jorge Jesus emociona-se. E em boa parte a decisão de trocar o Benfica pelo Sporting foi impulsionada pelo desejo do pai de o ver treinar o clube do coração.

Quando o filho tinha 13 anos, Virgolino tornou-o o sócio – é hoje o número 3289 -, já tinham decorrido mais de duas décadas sobre a sua passagem pela equipa leonina, da qual pouco ou nada se sabe. Habitual suplente, fez apenas dez jogos oficiais, num período em que começava a formar-se o famoso quinteto dos ‘cinco violinos’. O próprio Sporting não tem dados sobre Virgolino, que viveu na sombra de antigas glórias do clube, como o guarda-redes Azevedo e o ponta-de-lança Peyroteo.

Numa viagem aos jornais da época, é possível traçar-lhe um retrato mais nítido. E chega-se à conclusão que Virgolino era um avançado de dotes técnicos, mas demasiado franzino para vingar ao mais alto nível.

Quando chegou ao clube, em 1943, não teve direito a aparecer na lista de reforços de Os Sports, o principal jornal desportivo de então. Albano e Jesus Correia, dois ‘violinos’, juntavam-se nessa época a Peyroteo, mas Vasques e Travassos só chegariam mais tarde para completar o quinteto. Aos 20 anos, Virgolino teve oportunidade de se mostrar.

Habilidoso frágil 

Estreou-se a 26 de Setembro de 1943, na recepção ao Atlético para o Campeonato de Lisboa, a prova que preenchia nesses tempos a primeira metade da temporada, antes de se jogar o Campeonato Nacional. Um arranque auspicioso, com o primeiro e único golo que marcaria com a camisola leonina.

O Sporting perdia por 3-2, a 14 minutos do final, e a reviravolta iniciou-se pelos pés de Virgolino, então ainda tratado pelo apelido. “Um passe de Armando Ferreira, bem rematado por Jesus, abriu caminho à vitória leonina, a seis minutos do final”, escreveu Os Sports, classificando o novo jogador dos ‘leões’ como “uma das notas mais curiosas do desafio”: “Jesus, o estreante do Sporting, denunciou qualidades e provou que não foi arrojada a inclusão no ataque leonino”.

O Sporting acabou por vencer por 4-3 e Virgolino manteve a titularidade em sete dos oito jogos seguintes, embora sem voltar a mostrar a influência do jogo de estreia.

No empate que se seguiu, frente ao Benfica (2-2), “não se distinguiu”, mas ressurgiu em bom plano na goleada ao Unidos de Lisboa (5-1). “O interior esquerdo Jesus revela habilidade”, lia-se no Sports do dia seguinte.

Começava, porém, a perceber-se que as características físicas de Virgolino não iriam tornar-lhe a vida fácil: “É um pouco frágil. Deve por isso evitar os choques. Ontem experimentou certas dificuldades por ele próprio procurar o choque, por se fazer ao lance sem atenção, sem medir a distância nem olhar o adversário. Magoou-se algumas vezes desnecessariamente”.

Jogava numa linha de cinco avançados, ora a extremo ora a interior (entre o extremo e o ponta-de-lança). Na recepção ao Fósforos – que mais tarde daria origem ao Oriental -, o Sporting levou a melhor por 4-2, com “três ‘goals’ de Peyroteo” a disfarçarem uma má exibição.

Os dois interiores “jogaram deficientemente”, por causas distintas, na análise do Sports. “Jesus Correia mostrou-se muito inexperiente e emocionado com a estreia e Jesus foi prejudicado pela maneira como a bola lhe era entregue, quási sempre quando estava coberto. Sendo um jogador frágil, havia toda a conveniência em fazer-lhe o passe quando estivesse desmarcado”, escreveu o jornalista.

A linguagem tinha ainda muitos termos do inglês. Além dos goals, havia o score, o match e os teams. E, mais estranho, os shotadores. O jornal Sporting – que nada tinha a ver com o clube leonino e até estava sediado no Porto – começou por identificar Virgolino nas fichas de jogo como “Jesus (Bom Sucesso)”, numa referência a um pequeno clube de Lisboa que o pai de Jorge Jesus representou. É provável que tenha ido de lá para o Sporting, mas não há registos.

Segundo familiares, também jogou no Vitória de Setúbal e no Sport Linda-a-Velha, acumulando sempre o futebol com o trabalho na Celcat, uma empresa de cabos eléctricos onde mais tarde também Jorge Jesus trabalhou como aprendiz de soldador. Nunca foi profissional de futebol, nem nos anos de leão ao peito.

A primeira das duas derrotas que sofreu no Sporting surgiu ao quinto jogo. E por números expressivos: 5-1 frente ao Belenenses, que ganharia o Campeonato de Lisboa.

“Para a linha de ataque do Sporting não encontramos explicação. Menos que inexistente – talvez seja esta a expressão que melhor se ajusta”, escreveu Os Sports. E prosseguiu: “Os dois interiores não tiveram um lance jeitoso, um ‘nada’ que valesse elogio”.

Virgolino ficou de fora no jogo seguinte, frente ao Atlético, e voltou para a visita ao Benfica. Nova derrota (4-3) e mais um mau desempenho colectivo, só amenizado pelas intervenções de Azevedo entre os postes.

Ano e meio sem jogar

O regresso às vitórias deu-se no terreno dos Unidos de Lisboa (5-3), com o pai de Jorge Jesus a sair lesionado – o que “não quebrou o domínio do Sporting”. E na última jornada, na visita ao Fósforos, novo tropeção, com um golo para cada lado. Num duelo de “passes a mais e jogo proveitoso a menos”, Virgolino não mereceu referência na crónica de jogo e não voltou a actuar nessa temporada, ao longo de todo o Campeonato Nacional conquistado pelo Sporting.

Também foi suplente no Campeonato de Lisboa da época seguinte e só reaparecia na equipa na penúltima ronda do Nacional, ano e meio após o empate com o Fósforos.

O adversário foi o Estoril e Virgolino sentiu dificuldades depois de tanto tempo afastado do onze. “Mesmo no seu melhor período, o ataque leonino ressentiu-se sempre da fraca colaboração prestada por Cruz e por Virgolino”, lia-se nas páginas de A Bola, fundada uns meses antes. No Sports, o autor da crónica referiu que “Virgolino foi mais útil a interior do que a extremo, pois ainda tem falhas de iniciativa”.

Ainda assim, esteve na origem do primeiro golo na vitória do Sporting por 2-1. É dele o cruzamento que proporcionou a Albano inaugurar o marcador.

A 8 de Abril de 1945 chegava ao fim a ‘aventura’ com a camisola leonina, no triunfo em Coimbra sobre a Académica. Numa curta apreciação, o Sports resume assim o seu desempenho na hora do adeus: “Discretos, em demasia, Cruz, Virgolino e António Marques”. Tinha 22 anos.

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