“Sonhei com uma Angola mais livre” – Governador Boavida Neto

O Governador provincial do Bié, Álvaro de Boavida Neto (Foto: Rosário dos Santos))
O Governador provincial do Bié, Álvaro de Boavida Neto (Foto: Rosário dos Santos))
O Governador provincial do Bié, Álvaro de Boavida Neto
(Foto: Rosário dos Santos))

O Bié é uma das localidades angolanas que mais sofreu com os horrores da guerra no país. Por largas décadas, viu o seu tecido humano e espiritual devastado, num caótico cenário de miséria e destruição. Desde 2002, regista visíveis sinais de progresso socio-económico, que dão novo alento ao seu governador.
Álvaro Boavida Neto falou à Angop sobre as várias etapas do desenvolvimento, os projectos para combater assimetrias e o ambiente político-partidário na província. Crente no futuro, o governante disse sonhar com uma Angola “mais livre, com equidade e respeito aos cidadãos”.

ANGOP: Que Bié encontrou quando tomou posse como governador?

BOAVIDA NETO (BN): Um Bié em paz, em vias de consolidação da unidade e reconciliação nacional e com a perspectiva de progresso, desenvolvimento e uma grande crença por parte dos seus habitantes. O Bié de futuro, cheio de esperança e uma perspectiva de vida saudável. De respeito aos cidadãos, independentemente das origens, do ponto de vista étnico, político, religioso e até mesmo económico.

ANGOP: Uma província foi bastante fustigada pela guerra. Quais foram as grandes vulnerabilidades encontradas?

BN: A primeira é a desestruturação do tecido social, dispersão das famílias, vulnerabilidade da estabilidade social, incapacidade económica e descrença no futuro. Uma província em fase embrionária de reconstrução, mas com vestígios físicos e espirituais de destruição; sem actividade produtiva ou económica praticamente nenhuma. As pessoas viviam à base de acções de subsistência.

ANGOP: Os sinais de destruição já são menos visíveis, mas por alguns cantos ainda existem. Como pensa trazer ao Bié um desenvolvimento sem assimetrias?

BN: Inventariadas que estão as principais necessidades das populações, dentro dos vectores definidos na estratégia do Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), criar condições para que, gradualmente, se consiga um ambiente de estabilização em todas as vertentes: política, económica e social. Neste quadro, há sectores que são e constituem prioridades, nomeadamente as estradas (que promovem o desenvolvimento e estabelecem a livre circulação de pessoas e bens, valorizando a acção das pessoas); a educação (dá a possibilidade de formarmos os homens, de modo que a sua integração seja feita de acordo com as habilidades que poderem adquirir e ser capazes de corresponder às exigências da sociedade); a saúde (que é outro vector bastante importante, porque sem ela não podemos dar outros passos); a energia, água e habitação. A nossa província é essencialmente agrícola. Para o desenvolvimento da província, as políticas agropecuárias devem estar na esteira de prioridades do governo.

ANGOP: Já que faz essa destrinça sectorial, permita-nos “pegar” no sector das estradas. Qual a realidade nas estradas do Bié, tendo em comparação o período de guerra?

BN: É extremamente positiva. Houve uma alavancagem extraordinária das estradas nacionais. Hoje, podemos fazer ligação por estrada até ao Cuando Cubango. A estrada está em condições, tendo um ou outro percalço no campo da manutenção. Temos a estrada que nos liga ao Huambo, Benguela e Cuanza Sul, também reabilitada. São estradas nacionais que dão segurança na transitabilidade das pessoas e bens. Temos a estrada que liga à localidade de Nharea que, apesar de ter um troço de 51-56 quilómetros por intervir, também fizemos uma intervenção positiva. Começamos a melhorar a ligação entre o município do Cuito e os demais. Está-se agora com um programa das estradas terciárias e secundárias, que, na perspectiva do Chefe do Executivo, visa torná-las primárias, com asfalto e outros serviços técnicos necessários. As estradas poderiam estar melhor, mas exigem muitos recursos e as características geográficas da província fazem com que se tornem ainda mais caras. Mas, no cômputo geral, consideramos que estamos no bom caminho. Gostaríamos de ver já tratados os cascos urbanos de todos os municípios. A nível do Cuito, tratar da área periférica, urbana e suburbana. Os nossos bairros cresceram muito e as estradas não estão em condições. Mas, para governar, além de exigir capacidade de previsão, há que ter também paciência na gestão dos problemas e discernimento necessário para o equacionamento das questões. As estradas continuam a ser uma prioridade.

ANGOP: Por aquilo que pudemos ver, falta ainda muito trabalho nas estradas de ligação ao município de Catabola. A que se deve isso?

BN: Falta de recursos. As prioridades são estabelecidas e estamos a cumprir uma agenda. O país tem 18 províncias. Tudo isto implica um exercício bastante grande.

ANGOP: Em que pé vai o projecto de extensão da estrada nacional 250, que acaba por ligar também ao município de Catabola?

BN: Está a ir bem. Já foi um período mais crítico. Está contratada a empresa ENGEVIA. Os primeiros passos foram dados (a acomodação do tráfego). Estávamos a fazer quase três horas até ao município de Camacupa, agora estamos a fazer cerca de 1h10 ou 1h15. Vamos aproveitar agora o período seco para ver se conseguimos vencer 50 ou 60 porcento da extensão até Catabola. Vontade há, mas há outros factores que constituem constrangimento, como a questão da disponibilização de recursos financeiros por parte do Executivo, para que as empresas possam em tempo mobilizar, intervir e dar resposta à situação. O que nos satisfaz é que vencemos uma batalha. Refizemos o contrato que estava estabelecido. Está uma empresa nova a intervir e todos almejamos que desta vez cheguemos ao fim.

ANGOP: Quantos quilómetros de estrada terão sido reabilitados, de 2002 até hoje?

BN: Estradas fundamentais estamos próximos dos 400 quilómetros. Em relação às estradas terciárias, andamos em média entre os 400 e 500 quilómetros.

ANGOP: Há ainda alguns défices. Quais são os grandes projectos para o sector?

BN: O objectivo é atingir o município do Cuemba, até 2017; complementarmos a estrada que liga o Cunje e o rio Mbui, e termos depois as estradas de ligação para os municípios e comunas. Há um programa e neste momento estamos a fazer Camacupa até Umpulo, passando pelo rio Ngoma. Estamos a fazer, no Chitembo, de Cachingues até o Umpulo, em Camacupa, a estrada de Cassumbi. Estamos a fazer em Nharea, Gamba e vamos para a Caiueira. Temos um conjunto de estradas que estamos a desenvolver. Aqui há-de ter em atenção as estradas de subordinação central e as estradas de subordinação local. Mas creio que o esforço conjugado vai nos permitir ter bons resultados nesse domínio. Estamos a trabalhar para isso e não perdemos as esperanças.

ANGOP: O que mudou no Bié com a retomada do caminho-de-ferro?

BN: O Caminho-de-Ferro de Benguela, e mesmo o de Moçâmedes e de Luanda, em função da guerra, praticamente ficaram desactivados no seu todo: infra-estruturas de apoio, áreas de manutenção, a própria linha férrea. Tudo isto estava no ponto zero. Começou-se a construção de uma linha nova, que atravessa Benguela, Huambo, Bié e Moxico. Vai até ao Luau, dando a possibilidade de uma relação comercial com a Zâmbia e com os Congos. Voltou a dar vida às localidades por onde passa o caminho-de-ferro, baixou o custo de transportação das mercadorias, de transportação das pessoas, houve melhoria do ponto de vista da circulação, diminuíram-se os acidentes e, consequentemente, os resultados negativos e, do ponto de vista económico, começou a pulsar a própria economia ao longo do caminho-de-ferro. Há mais produção, escoamento dos produtos, começa a haver maior renda a nível das famílias e vontade de produzir-se mais. O caminho-de-ferro é a expressão do desenvolvimento do corredor do Caminho-de-Ferro de Benguela. Claro que há outros elementos suplementares deste processo, mas aquilo que está feito até agora representa para nós um ganho da paz, da democracia.

ANGOP: Qual a vossa realidade no sector de energia e águas?

BN: Vamos considerar bom, partindo dos indicadores iniciais. Hoje temos mais energia na província. Só para referenciar o município do Cuito, que há cerca de 12-13 anos tinha uma potência instalada de mais ou menos três megawatts. Construímos a subestação de Kalapanda, que produz cerca de 10 megawats, e uma linha de transportação que recebe energia do Ngove, com cerca de 20 megawatts, com a possibilidade de uma segunda linha em paralelo à estabelecida, de mais 20 megawatts. Teremos produção hídrica, cerca de 40 megawatts, e a produção térmica cerca de 10 megawatts. Temos, depois, a nível dos municípios, subsistemas de produção térmicos gerados a gasóleo e, também, em pouca quantidade, energia eólica. Temos energia nas 30 comunas, não na quantidade desejada, mas a possível, que garante a iluminação pública e o funcionamento dos serviços públicos e de algumas habitações, ou energia domiciliar em número reduzido.

Estamos agora na fase final da reabilitação da rede de baixa tensão no município do Cuito. Estamos a aumentar o número de beneficiários e a estabelecer uma acção de educação da população, para que possa participar na regularização do consumo da energia que tem. Estamos a recuperar a Barragem do Cuito (Barragem do Cunje) em Camacupa, que vai produzir cerca de dois a quatro megawatts de energia. Vai alimentar Camacupa. Haverá também uma intervenção da Barragem do Cuemba, que vai produzir cerca de 4 megawatts, dos quais 2/2.5 irão ser transportados para beneficiar os municípios de Camacupa e Catabola. A nível de energia, há um plano nacional integrado e iremos receber também energia da Barragem de Capanda, através do sistema que está a ser estabelecido. Terá uma subestação a nível do Waku Kungo e depois irá derivar para a região Centro. As nossas cidades estavam dimensionadas para um número de habitantes bastante limitado. Só o Cuito tinha na era colonial cerca de 75 mil habitantes e hoje tem 424 mil, segundo os dados do último censo populacional e habitacional. Esta diferença implica um esforço maior, para que a energia chegue a toda a população.

ANGOP: Há água para todos?

BN: A nível da água, felizmente temos em todas as comunas. Temos défice de produção nas capitais ou sedes municipais, em que estão já em estudo e alguns já começaram a desenvolver projectos de ampliação da capacidade de produção de água, fundamentalmente nos municípios de Chitembo, Nharea, Andulo e, muito recentemente, tomámos nota de que no município de Camacupa estaria para arrancar. Enquanto isto, a capacidade de oferta de água é muito limitada, tendo em conta a nossa capacidade de produção. Temos feito um esforço de, dentro do Programa Água para Todos, fazermos alguns furos, uns por motricidade humana, outros gerados por energia e outros gerados de forma eólica e também por captação de água superficial.

O caminho é continuarmos a aumentar a produção de água e conseguirmos fazer uma maior distribuição, de forma que as populações tenham água potável disponível. Fazendo contas, o estabelecido pelas Nações Unidas para o consumo de água potável por pessoa vai à razão de 80 litros a 160 litros dia. Se fizermos as contas, precisamos muita água. Está em curso (já se fez estudo e a adjudicação e estamos à espera que a empreitada comece) aumentarmos a capacidade de água à subestação do Cussole. É uma subestação nova, cuja produção já não satisfaz o número de habitantes ou pessoas necessitadas a nível do Cuito. Há uma segunda intervenção, que vai durar cerca de 3/4 anos, em relação à captação de água a nível do Cuquema. Felizmente, com a centralidade, conseguimos desenvolver um projecto que está em curso de captação de água para a centralidade, que terá um tanque elevado com capacidade de 200 metros cúbicos. Vai disponibilizar água para as seis mil casas instaladas na centralidade, para os bairros próximos e dentro da trajectória da conduta. No cômputo geral, acredito que o esforço é positivo. A avidez ou necessidade das populações são maiores. Têm urgência, pressa, mas a governação é feita de modo meticuloso, de forma que os nossos objectivos sejam eficazes e efectivos no seio das populações. Não basta dizer que temos água. As pessoas têm que sentir que há água, usam racionalmente e se sentem satisfeitas.

ANGOP: A construção de fogos habitacionais é uma das grandes apostas do Executivo. Aqui no Bié, em que regiões esse processo já é um facto?

BN: Temos construído casas em quase toda a extensão da província. Há vários sub-programas. Há o programa de sete mil fogos, dos quais seis mil estão no município do Cuito. Estamos a construir aqui a centralidade. Há cerca de mil casas que estão a ser construídas no Andulo. O Andulo tem 278 casas concluídas. O município do Cuito tem 3.830 já construídas, das seis mil. A nível dos sete municípios, temos cerca de 697 casas erguidas e estamos em fase de conclusão de todas elas. Mas nessas reservas, as populações já estão a beneficiar dessas casas. O que falta é muito pouco, são cinco ou 10 porcento daquilo que se devia fazer. Estará ligado ao desempenho das empresas contratadas para o efeito. Ainda neste âmbito, cada município construiu 100, tinha direito a mais cem. Nesta segunda fase, foram distribuídas 50 casas. Estas 50 estão em fase conclusiva. Infelizmente, os recursos não chegam aos empreiteiros, senão já teríamos terminado.

Mas estamos com um percentual de execução bastante satisfatório. Há, pois, um outro conjunto de casas que são também orientadas e desenvolvidas pelo Governo, através da saúde, educação e outras direcções que também vão construindo a nível de toda a província. Penso que o forte neste aspecto nem é a construção de modo público ou institucional que temos feito. É a auto-construção. O cidadão, com recursos próprios, tem construído muitas habitações, condicionais, definitivas e com uma boa apresentação arquitectónica, que satisfaz a vista de qualquer um que queira observar. Há, sim, nesse domínio, um atraso em relação à reacção das instituições públicas na satisfação da entrega de espaços ou lotes para a construção dos cidadãos, de modo a criarmos zonas urbanizadas, com definições urbanísticas que permitem que as pessoas construam dentro dos limites a serem estabelecidos, de forma a que a implantação de infraestruturas e outros meios não dificulte o desenvolvimento dessas localidades. Há aí alguns constrangimentos na compreensão e pensamento das pessoas, mas é preciso sermos persistentes e continuarmos.

ANGOP: A centralidade já abriu as portas?

BN: Ela não abre as portas sem que um elemento fundamental esteja garantido. É preciso que garantamos o fornecimento de água, energia e sobretudo consigamos ter já lá alguns equipamentos sociais, como escolas, posto policial, saúde, creches (…).

ANGOP: E quando isso será feito?

BN: (…) Os políticos não estabelecem prazos. É um programa e o mais importante é que o programa seja cumprido e satisfaça as populações. Está a andar e dentro do contexto acho que está a andar bem.

ANGOP: Há tímidos sinais no domínio da hotelaria e turismo. Como estão a preparar-se para o impulso do sector a nível dos municípios?

BN: Diz muito bem que há uma relativa apatia no desenvolvimento desses segmentos que referenciou, tanto do comércio, quanto da indústria, do turismo, dos transportes, por razões simples. Nós estamos no Centro, vivemos numa sociedade de mercado e o que funciona é o dinheiro. A gente faz investimentos ou desenvolve empreendimentos numa perspectiva de agregar mais capital, ter lucros. Então tem que fazer o estudo do mercado e em função das condições iniciais era muito difícil. Se não temos água, se não temos energia, esses dois factores fazem com que os investidores tenham mais dificuldades, porque os produtos que eles vão produzir não vão ter preços concorrenciais. Uma coisa é o indivíduo que produz com baixo custo na sua estrutura de produção em relação ao outro. Mas estamos optimistas. Aqui temos um milhão e 400 mil habitantes, recursos naturais, recursos humanos disponíveis, que podem ser capitalizados para esses seguimentos.

ANGOP: A educação é um factor chave de desenvolvimento. Como está o Bié?

BN: Estamos a andar bem e os números falam por si. A nível da educação, eu tinha, em 2010, cerca de 100 mil, 120 mil, 125 mil alunos nos vários subsistemas. Hoje tenho praticamente 700 mil alunos. Houve uma explosão escolar bastante significativa, na ordem de 700 porcento. Isto implica um esforço maior em termos de construção de infra-estruturas, para podermos acomodar as pessoas, que, por razões de independência e liberdade, estão a priorizar o estudo, a tornar-se homens livres mediante a educação. Mas temos grandes problemas. Até ao ano passado tínhamos o controle de 61 mil a 63 mil petizes que não tinham acesso ao ensino. Temos igualmente crianças que estão a estudar e precisam de ser acomodadas. Estimamos serem cerca de 120 mil a 200 mil crianças nessas condições. Mas o esforço é grande. Hoje temos quase quatro mil salas de aulas disponíveis, mas não são suficientes.

Do estudo que nós fizemos, ressalta que, para dar resposta às necessidades da província, precisaríamos de construir cerca de 500 salas de aulas/ano, para termos uma absorção de cerca de 72 mil crianças durante o ano. Projectando isto, estamos a ver que esta situação, nessa perspectiva de 500 salas, iria estabilizar o sistema, em 2022. Essas são as nossas contas. Há factores extra-planificação. Nós estimamos cerca de 10 ou 15 porcento como factor de crescimento no sector, mas o angolano é bom reprodutor e pode agregar mais que isto. Estamos a tentar gerir essa situação.

Melhoramos bastante na qualidade de vocação ou perfil de saída, começamos a ter mais instituições de ensino médio, estamos a forçar positivamente para que todos os municípios tenham magistério primário. Temos um programa que estabelecemos a nível de todas as comunas, para que consigamos construir pelo menos 24 salas de aulas, de modo que os subsistemas possam funcionar normalmente. Estabelecemos igualmente construir (estamos em regime de experiência) os clubes comunitários, que são um espaço que, a nível das comunas, há-de surgir, onde estarão concentrados laboratórios de física, química, biologia, geografia, informática. Terá também um espaço para o desenvolvimento da actividade cultural ou multifacética a nível das nossas localidades.

Um dos aspectos que interfere na educação, fundamentalmente no ensino primário e secundário, é a qualidade dos professores e a consciência profissional dos docentes. É um problema bastante grande a nível do sector, que influencia nos resultados. Creio que há políticas que o Executivo tem de adoptar, no sentido de permitir uma melhor fixação desses quadros. Mesmo assim, para agregar valências pedagógicas, estamos a construir três pólos de formação pedagógica a nível da província, no município do Cuito, Andulo e Camacupa. Servirão para fazermos a requalificação dos nossos professores em tempo de formação. É um processo que acreditamos vai dar certo.

Precisamos de ter alguma paciência. A nível superior, não tínhamos nada. Beneficiávamos de outras escolas de ensino superior do Huambo, Huíla, Luanda e Benguela. Temos agora a Escola Superior Pedagógica, que tem já como resultado cerca de 300 ou 400 formandos nos vários segmentos de formação pedagógica. Temos também a Escola Politécnica, que, entre os cursos, tem contabilidade e gestão, o de recursos hídricos, que é o único no país. Precisamos mais, porque há uma ânsia bastante grande por parte das pessoas em fazerem ensino superior. Precisamos mais uma ou outra faculdade e uma interacção positiva com o ensino privado, no sentido de complementar esta grande acção do Governo. Há iniciativas a nível médio (três colégios já a funcionarem – arrancaram este ano), mas a nível superior há intenções. Não temos nada consolidado.

ANGOP: Há boas condições de saúde no Bié?

BN: A nível da saúde, felizmente andamos bem. Temos 30 comunas, 28 centros de 30 camas nessas comunas e com todas as condições que podem ser visualizadas por quem visitar. O nosso grande problema este ano era completar as duas comunas em falta, nomeadamente da Chiuca e de Muiango. Apesar de terem serviços de saúde com 5 ou 10 camas, queremos que tenham 30 camas. Estamos agora também a consolidar a questão dos hospitais municipais, com a qualidade exigida, os serviços básicos necessários: salas para cirurgia, áreas de obstetrícia, ginecologia, radiologia, estomatologia. Mas tudo há-de gravitar sempre no factor humano.

As condições infra-estruturais estão criadas. Precisamos de uma abertura em termos de concurso público, para captarmos novos quadros para alí. A Escola Técnica de Enfermagem vai tirar 60 ou 70 técnicos superiores, no próximo ano, e pensamos que será uma mais-valia para a nossa província, porque a maioria já é funcionário público e poderá funcionar em regime de destacamento nessas unidades sanitárias. O nosso grande problema continua a ser o Hospital Provincial. Apesar do esforço e da dedicação que as pessoas têm tido, ainda temos muita dificuldade. É um hospital com capacidade mais ou menos já apertada para 200 pessoas, temos tido entre 600 pacientes internados em termos de pico. Mas temos feito algum esforço para melhorar a situação. Faltam-nos muitos médicos, muitos técnicos médios especializados, para darmos vazão a essa questão da saúde pública. Mas acredito que, com os serviços municipalizados introduzidos, melhorou substancialmente a questão do atendimento, do ponto de vista sanitário, medicamentoso e infra-estrutural. Acredito que vamos continuar.

ANGOP: Falar dos 40 anos de independência é falar da paz, harmonia e convivência entre os angolanos. Como caracteriza a convivência político-partidária no Bié?

BN: Considero boa, positiva.

ANGOP: Há espaço para todos?

BN: Há! Nós temos cerca de 71 mil quilómetros de superfície e os cerca de 1.400 mil habitantes cabem dentro desse espaço. Há espaço político, para a crença religiosa, para a sociedade civil, os empresários, num ambiente de sã convivência e tolerância. Claro que estamos no Bié, uma província onde a remanescência da guerra foi bastante forte e gerir a estabilização, recuperação espiritual levará o seu tempo. Mas, numa escala de 1 a 100, estamos a 90 ou 95 porcento num ambiente de sã convivência, democrática e de tolerância. Há um ou outro caso, que é próprio. É próprio em todas as outras motivações sociais. Temos de compreender que não haverá um ambiente 100 porcento daquilo que a gente desejaria.

O que é preciso, do meu ponto de vista, é que isso não desemboque para a agressão física nem para a violência entre pessoas. De resto, há o debate de ideias, a sustentação da argumentação (…). Há que dizer que teremos sempre um partido no poder e a oposição, que terá sempre o papel de se opor, bem ou mal, mas é o seu papel. O partido que estiver no poder há-de lutar para governar e se manter no poder. Os pólos são diferentes. Estamos numa mesma Pátria, mas quando se trata do objecto para o qual cada um constituiu a sua organização ou o seu grémio, há-de haver sempre divergências.

ANGOP: Os relatos de intolerância política no Bié são meros fantasmas ou têm algo consistente?

BN: São relatos! Eu ando pela província toda, e creio que se convive. Há num e noutro caso um indivíduo mais eufórico que pensa que é mais angolano que os outros e que, às vezes, sai daquilo que são as normas. Para isso, estão instituições que velam pela manutenção da segurança e tranquilidade e aqueles que, em função da violação das normas, devem tratar os cidadãos de acordo com a observância dos pressupostos do Estado democrático e de direito.

ANGOP: Qual é a principal dificuldade para que o partido no poder e a oposição estejam mais aproximados e não se oiçam mais discursos de intolerância?

BN: Nós estamos aproximados. Estamos no Parlamento, na vida civil, vivemos juntos (…). Acho que é a expressão da luta. Só que os caminhos que por vezes são utilizados não se compatibilizam com a instituição. Ao tentar manter os pressupostos constitucionais e outras normas, vão dizer que há intolerância. Um exemplo típico: é inaceitável que um indivíduo vá à casa do outro e a primeira coisa que faça é um desfile sobre a mesa. Você não vai aceitar essa conduta dentro da sua casa. Da mesma forma que, se houve um pleito eleitoral, e as populações depositaram confiança num determinado partido, esse partido, no período estabelecido pela Constituição, que é de cinco anos, deve governar. Os outros devem estar na oposição. Mas isso não significa que quem governa não respeite a opinião dos outros. Mas os outros têm que compreender que este tem o mandato para realizar o seu programa que foi apresentado e sufragado pela população. O grande problema, em minha óptica, é que por vezes se quer estabelecer uma paridade entre o Governo e a oposição. Não é nada disso.

ANGOP: E quem faz essa tentativa de paridade, a oposição?

BN: Obviamente! A oposição tem que ter força expressa na Assembleia Nacional, para poder fazer valer a sua vontade. Mas as regras da democracia assentam nos números. É sempre no exercício da votação que se aprovam os instrumentos a aplicar. Se você só tem 30 ou 40, o outro tem 160 ou 170, certamente se o outro que tem 160 ou 170 não faz cedências consensuais, quem está na oposição não impõe a sua vontade. Às vezes, há essa diferença. Mas isso é a democracia. Eles (os opositores) existem para isso, para fazer barulho. Mas têm que o fazer de modo urbano, ético e cívico, respeitando as normas. Se for assim, vamos conviver todos bem. Não sei qual a percepção que se tem da intolerância.

ANGOP: Para terminar, é esse o Bié com que sonhou quando “recebeu” o desafio?

BN: Sonhei com uma Angola mais livre, com equidade, com respeito aos cidadãos, que tenhamos todos uma perspectiva de viver. Quando o meu salário corresponder a viver 20 dias do mês, sem problemas, estarei bem. Estou a falar do salário do cidadão comum. Não estou a dizer aumentar o salário. Temos que trabalhar para que o salário mínimo permita às pessoas viver. Angola dá para todos. É bela e muito doce. Temos de saber apreciar a doçura do nosso país, amá-lo e ter sentimentos patrióticos. (portalangop.ao)

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