Precisamos de trabalhar como se não tivéssemos petróleo!

LUÍS LÉLIS Administrador Executivo do BAI (Foto: Angop)
LUÍS LÉLIS Administrador Executivo do BAI (Foto: Angop)
LUÍS LÉLIS
Administrador do BAI
(Foto: Angop)

No fim do primeiro trimestre de 2014, tivemos os primeiros sinais dos perigos da excessiva dependência da nossa economia face ao sector petrolífero. Observámos de forma quase que passiva o declínio do preço desta importante matéria-prima, e nem mesmo os analistas menos optimistas foram incisivos na discussão da possibilidade de estarmos perante uma alteração estrutural que poderá ter consequências graves para a nossa economia nos próximos 15-20 anos.

O angolano é, por natureza, muito positivo acerca das oportunidades de melhoria das suas condições de vida. Esta característica foi moldada nos nossos genes depois de anos de imensas dificuldades que começaram com o período da luta de libertação, passando pela fratricida guerra civil e que terminaram com os ganhos da paz. Por feliz coincidência, depois de ter alcançado a paz, Angola conseguiu retirar enormes benefícios de uma conjuntura onde os preços do petróleo bruto nos mercados mundiais foram subindo de forma sustentada.

Em meados de Agosto de 2008, no auge do período eleitoral em Angola, surgiu o novo choque petrolífero, levando ao despencar das receitas tributárias e cambiais, o que obrigou o Executivo a tomar medidas exigentes visando salvaguardar a estabilidade monetária e cambial do País. A situação vivida entre Outubro de 2008 e Outubro de 2010 foi o primeiro sinal claro da necessidade de se delinear um plano credível visando escapar de forma consistente da excessiva dependência da nossa economia das receitas provenientes do denominado ouro negro.

Neste pequeno ensaio, procurarei defender a tese de que o tempo das vacas gordas, ou seja, do alto preço do barril do petróleo, não voltará a acontecer tão cedo. Aliás, a minha posição é que estamos a observar uma alteração profunda e estrutural da matriz de produção e consumo, que dificilmente será alterada nos próximos 15-20 anos. Em meu entender, teremos de aprender a conviver nos próximos 10 anos num contexto em que o preço de petróleo tenderá a oscilar entre 40-60 USD por barril. É claro que gostaria imenso de estar completamento errado nas minhas previsões, mas, como a seguir procurarei demonstrar, tudo aponta para tempos de alguma turbulência em que será necessário apertamos o cinto de segurança, encostarmos as costas à cadeira, respirarmos com muita calma e encontrarmos opções de diversificação da economia viáveis a curto prazo.

Se já era bem aparente a nossa incapacidade de controlar os eventos externos resultantes da alta volatilidade do preço do petróleo bruto, a eleição de Barack Obama criou as condições necessárias para que os EUA se tornassem cada vez menos dependentes das jogadas do cartel OPEP. É consabido que os EUA são a maior economia mundial e o maior consumidor de petróleo e gás natural. E desde muito cedo foi fácil perceber que um dos pilares da estratégia de Obama para a redução desta dependência passava pela alteração estrutural da matriz de produção, garantindo maior oferta do produto nos mercados internacionais e a consequente redução do preço para o consumidor americano.

Os pilares fundamentais para o sucesso da estratégia de Obama foram a aprovação da legislação que permite a produção doméstica do petróleo e gás de xisto, assim como dos investimentos em sistemas de produção e transporte de petróleo no estado do Alasca.

A estratégia tem sido muito bem conseguida, e a sua implementação já começou a dar frutos, com a redução do preço médio do combustível para o consumidor americano. Nem a forte contestação do lobby de protecção ambientalista foi capaz de demover os decisores, pois os benefícios directos e imediatos do baixo preço do combustível para o consumidor americano são difíceis de negar Recentemente, a Bloomberg publicou um artigo indicando que os EUA já são o maior produtor mundial de petróleo e, ao que tudo indica, já existe um forte lobby interno no sentido de passar a ser exportador para que os seus produtores possam retirar benefícios do spread dos preços observado entre o WTI e o Brent.

Voltando ao tema da produção, é importante recordar que os investimentos em pesquisa e desenvolvimento na produção de petróleo e gás de xisto criaram uma oportunidade enorme para que a China possa desenvolver a sua própria indústria e eventualmente passar a produzir. É por todos reconhecida a enorme capacidade que os chineses têm em adquirir (possuem enorme volume de reservas cambiais) e dominar tecnologias e competências (investindo na formação do capital humano) e, como tal, não me surpreenderia que nos próximos cinco anos a China passe a produzir volumes significativos.

Segundo vários artigos que podem ser encontrados na internet, a China poderá ter a maior reserva mundial de gás de xisto, sendo que a reserva de petróleo de xisto também não é de desprezar. Ainda assim, a China procura diversificar melhor a sua matriz energética e recentemente assinou um acordo com a Rússia que poderá ter implicações significativas para os exportadores. Finalmente, e o facto que me levou a elaborar este artigo de opinião, ou seja, o acordo que o Irão assinou com as potências mundiais.

Segundo a CNN, o Irão tem reservas de cerca de 158 bilhões de barris e detém a segunda maior reserva mundial de gás natural. Num contexto em que efectivamente se abram as exportações do Irão, a oferta de petróleo no mercado mundial poderá aumentar em cerca de 1 milhão de barris por dia até ao final de 2015, sendo que até 2020 o Irão pretende atingir a produção de 4,3 milhões de barris por dia. Num cenário como o descrito até agora, caracterizado pela alteração da matriz estrutural de produção, alianças de diversificação de parcerias e a entrada de novos produtores, as probabilidades para o aumento do preço do barril de petróleo parecem-se muito exíguas.

Por esta e por outras afirmo: vamos ter de aprender a conviver com o preço de petróleo a 50 USD por barril durante a próxima década. Quanto mais rápido reconhecermos esta eventualidade, mais rápido começamos a trabalhar no sentido de nos ajustarmos para a conjuntura que se prevê muito diferente. Em súmula, tendo este cenário como muito provável, Angola precisa MESMO de pensar numa estratégia de desenvolvimento económico em que a diversificação seja o facto principal. (expansao.ao)

 Por: Luís Filipe Lélis, Administrador do BAI

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