Odebrecht. Polícia prende CEO e investiga operações em Angola e Cuba

(Foto: D.R.)
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Para além de Marcelo Odebrecht, polícia prendeu CEO da Andrade Gutierrez, por envolvimento no esquema de corrupção na Petrobras, e investiga operações do BNDES a favor das construtoras em Angola e Cuba.

A polícia federal brasileira prendeu na passada sexta-feira Marcelo Odebrecht, o presidente da Odebrecht SA, a maior empresa de construção da América Latina, sob acusação de participação num esquema de corrupção que prejudicou a Petrobras em 1,2 mil milhões USD. Otávio Marques Azevedo, CEO da Andrade Gutierrez, a segunda maior construtora do Brasil, foi preso na mesma operação por envolvimento no mesmo esquema de corrupção.

A Odebrecht opera em EUA, Europa e África. A Andrade Gutierrez tem negócios em mais quatro dezenas de países. As duas companhias estão envolvidas na construção das principais infra-estruturas dos Jogos Olímpicos de Verão de 2016 no Rio de Janeiro. A Odebrecht e a Andrade Gutierrez desmentem qualquer participação nos crimes investigados e, em comunicado, a primeira destas construtoras nega qualquer participação em cartel envolvendo a Petrobras. Segundo as autoridades, os acusados orquestraram um cartel que roubou vários milhões de dólares à Petrobras, com a ajuda de políticos corruptos, a quem depois pagavam luvas.

O procurador federal acusou os dois executivos de terem conhecimento de que as suas companhias pagavam subornos a políticos que ascenderam a mais de 710 milhões de reais (230 milhões USD). “Temos provas materiais de que eles sabiam da prática de sobrefacturação em contratos com a Petrobras e que participaram directamente na divisão dos contratos pelos membros do cartel”, revelou o investigador Igor Romário de Paula, numa conferência de imprensa na sexta-feira.

O procurador Carlos Fernando dos Santos Lima disse “não ter dúvidas” de que a Odebrecht e a Andrade Gutierrez lideravam o que denominou por “cartel” que sobrefacturava a Petrobras por contratos efectuados e que repassavam o excesso dos fundos a executivos e políticos. Entretanto, a Andrade Gutierrez desmentiu que a sua subsidiária angolana, Zagope, tenha pago 1 milhão USD em luvas para favorecimento na obtenção de empreitadas.

Emílio Odebrecht ameaça derrubar a República

“Terão de construir mais três celas: para mim, Lula e Dilma”, disse Emílio Odebrecht, antes da prisão do filho, numa ameaça clara de que iria implicar a actual e o anterior chefe de Estado no escândalo de corrupção. A prisão de Marcelo Odebrecht, de 46 anos, com profundas ligações ao ex-presidente Luís Inácio Lula de Silva, trouxe o escândalo financeiro para o seio do Partido dos Trabalhadores (PT) no poder.

A operação policial Lava Jato, centrada na Petrobras, produziu centenas de acusações e envolve vários legisladores, a maioria pertencente ao Partido dos Trabalhadores. O tesoureiro do PT está preso e aguarda julgamento por corrupção.

Lula. Elo de ligação

Documentos obtidos na Operação Lava Jato trouxeram à luz do dia a relação do ex-presidente brasileiro com os executivos das maiores empreiteiras do país. Lula defendia, em viagens pagas pelas empreiteiras no estrangeiro, os interesses destas companhias, e era conhecido por Brahma entre as mesmas. A nova fase da operação anticorrupção revelou que o ex-presidente ajudou a resolver o impasse enfrentado por executivos da Odebrecht envolvidos no pagamento do patrocínio ao bloco baiano do Carnaval 2015 da Beija Flor, cujo tema foi a Guiné Equatorial.

Segundo a Veja, os relatos das mensagens apreendidas mostram que Lula era muito próximo do presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, e que respondeu ao seu apelo para ajudar o filho, acusado de lavagem de dinheiro em vários países. O presidente da empreiteira OAS intercedeu para impedir a extradição do filho do ditador africano, em Fevereiro de 2013, a pedido do governo francês, por acusação de corrupção e lavagem de dinheiro. Na ocasião, 17 carros de luxo de Teodorín Obiang foram apreendidos em França.

O filho de Obiang conseguiu sair do Brasil antes de o Supremo Tribunal considerar o pedido feito pela França. Pelas mensagens interceptadas, ficou claro de quem veio a a ajuda: “Nós avisámos Teodorín na quarta-feira, e ele deixou o Brasil. Como a França pediu ao governo brasileiro a extradição, havia o risco de ele ficar impedido de deixar o Brasil. Isto é mau para os negócios brasileiros lá. Vamos ver como fica a viagem de Dilma”, dizia, numa mensagem, o ex-presidente da OAS, Léo Pinheiro.

Operações com Angola já não são secretas

Entretanto, a imprensa brasileira revela que, sob pressão, face às últimas denúncias, o Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) resolveu divulgar alguns dos seus financiamentos mais polémicos no estrangeiro.

Assim, ficou a saber-se que, das 539 operações do banco no exterior, 411 foram a favor da Odebrecht, ou seja, mais de 76% do total. Em termos de volume financeiro, dos quase 12 mil milhões USD emprestados, mais de 7 mil milhões foram parar aos cofres do grupo de origem baiana, ou seja, mais de 60% do total.

Constata-se que o foco externo do BNDES visou quase exclusivamente as obras da Odebrecht, a maior parte em Angola, e que levaram quase 30% do total dos financiamentos. O BNDES afirma, no seu site, que num esforço do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior para ampliar o acesso a informações, “as operações com Angola e Cuba deixam de ser classificadas como secretas” e passam a ter tratamento semelhante a qualquer outro destino.

Em Março, os procuradores brasileiros abriram uma investigação preliminar contra Lula da Silva por “tráfico de influência”, um crime punido no país. A investigação visa apurar alegações de que terá ajudado a Odebrecht a obter contratos de forma ilícita em Cuba e Angola, entre outros países, ao mesmo tempo que a empreiteira contribuía para a Fundação Lula da Silva e o ex-presidente era pago através de convites da companhia para pronunciar discursos.

Entretanto, o ministério público pediu a colaboração das autoridades judiciais norte-americanas para rastrear a rede de corrupção, envolvendo o cartel das empreiteiras, através de offshores em nome de terceiros e contas secretas no estrangeiro. (expansao.ao)

Por: Sérgio Soares

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