O Brasil e a crise anunciada

(Foto: D.R.)
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Banco Central do Brasil, depois de anunciar recuo de 0,2% da economia no primeiro trimestre, prevê outra queda no segundo. A confirmar-se, significa a chegada da recessão técnica ao país de Dilma Rousseff.

Os dados não são famosos. Já se sabia que a economia brasileira havia recuado 0,2% no primeiro trimestre deste ano, segundo dados divulgados no final de Maio pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Agora, o IBC-Br, um indicador criado pelo Banco Central do Brasil (BCB) para tentar antecipar a evolução do PIB, e usado para definir a taxa básica de juro, deu indicações da estagnação da economia em Maio, depois de uma queda de 0,88% no mês anterior. Embora o BCB já tenha afirmado que o IBC-Br é apenas “um indicador útil” para as suas políticas monetárias e para o sector privado, a confirmar-se a nova queda do PIB, confirma-se também a recessão técnica da economia brasileira.

No acumulado de Janeiro a Maio deste ano, segundo o BCB, o nível de actividade da economia brasileira aponta para uma queda de 2,78%. No entanto, este índice (2,78%) foi calculado antes do ajuste sazonal, e os dados do BCB, assentes no seu indicador, nem sempre se aproximam do PIB oficial do IBGE.

A queda do 1.º trimestre

A quebra confirmada da economia no primeiro trimestre do ano, afirmou Rebeca de La Rocque Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, citada no site da brasileira Globo, foi fruto, sobretudo, do desempenho negativo dos sectores de serviços e indústria, e também da quebra no consumo das famílias e do recuo do investimento.

Nos serviços, por exemplo, que representam 60% do PIB brasileiro, a queda no primeiro trimestre de 2015, comparado com o último trimestre de 2014, foi de 0,7%, e a indústria recuou 0,3%. O consumo das famílias caiu 1,5%, enquanto os investimentos e os gastos do governo sofreram uma retracção, ambos, de 1,3%. Em contracorrente esteve a agro-pecuária, que registou uma subida de 4,7%. Também as importações cresceram 1,2%, e as exportações, 5,7%.

O panorama de queda do PIB no primeiro trimestre do ano agrava-se quando o termo de comparação é o período homólogo do ano anterior. Neste caso registou-se uma queda de 1,6%. A boa notícia está na agro-pecuária, com um crescimento de 4%, assente nos bons resultados das culturas de soja e arroz, mas é contrariada pela retracção de 1,2% no sector dos serviços devido, sobretudo, ao comportamento no comércio.

A indústria, que recuou 3%, foi influenciada pela quebra na produção de veículos. De acordo com a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE , a quebra no sector automóvel teve o dedo da fazenda pública, através da suspensão dos incentivos fiscais. Também no consumo das famílias se registou uma queda de 0,9%,a primeira desde o terceiro trimestre de 2003, uma realidade que, segundo Rebeca Palis, é explicada pela evolução negativa dos indicadores de inflação, crédito, emprego e renda ao longo dos três primeiros meses do ano.

O Selic – Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, índice pelo qual as taxas de juro cobradas pelos bancos do Brasil se balizam, por exemplo, disse Palis, alcançou 12,2% ao ano, no primeiro trimestre de 2015, contra 10,4% ao ano, no primeiro trimestre de 2014. Juntamente com a aceleração da inflação, tudo isso, justifica Palis, prejudicou o consumo das famílias. O BCB define a taxa Selic como um regulador do consumo. Isto é, o menor crescimento da economia implica uma redução da inflação.

Neste momento, a taxa básica está nos 13,75% ao ano e espera-se que chegue aos 14,5%. Política monetária criticada Também o BCB não é poupado nas críticas à política monetária feitas pelo analista de conjuntura do FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Económicas), Roberto Luís Troster. O economista acusa a política monetária brasileira de poder vir a deixar marcas irreversíveis na economia do país.

Segundo Troster, em 2015, o incumprimento “bateu recordes históricos” quer no crédito individual, quer no crédito às empresas. Segundo o responsável, 3,6 milhões de empresas – uma em cada duas – têm contas em atraso, assim como 57 milhões de contribuintes, uma situação que se agrava fruto da conjuntura económica, mas também com a prática bancária de aumento dos critérios de concessão, elevação das taxas e redução dos prazos.

Troster refere que os créditos mais oferecidos pelos bancos são os cartões de crédito e os cheques especiais, que representam 2/3 da totalidade, e que são cobrados juros anuais de 226% e 347%. As suas taxas foram aumentadas nos últimos seis meses em 40% quando a taxa base de referência, a Selic, não subiu 3%.

Esta política monetária do BCB “destrói a capacidade produtiva do país”, já que, refere o analista, “dezenas de milhares de empresas, com perspectivas de expansão e solventes, ficam inadimplentes num primeiro momento e inviáveis depois de um tempo”. O incumprimento das empresas e particulares, diz Troster, está a corroer parcelas crescentes dos resultados da banca. “As provisões para perdas de crédito reduziram o lucro bruto da intermediação no segundo semestre”, afirma, adiantando que “os juros pagos por operações de crédito do sistema de financiamento totalizaram 9,1% do PIB no segundo semestre de 2010, 9,4% em 2012 e 10,1% em 2014”.

Isto é, refere, “cada vez mais recursos são destinados ao pagamento de juros”. Acusa o BCB de actuar “como se o problema não existisse” e defende uma alteração da política monetária para que a banca passe a ser “propulsora na retoma do crescimento”. (expansao.ao)

Por: Humberto Costa

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