O Baobá na paisagem africana: singularidades de uma conjugação entre natural e artificial

"O Baobá, símbolo da africanidade, incorpora como vimos múltiplas prefigurações". (Foto: D.R.)
"O Baobá, símbolo da africanidade, incorpora como vimos múltiplas prefigurações". (Foto: D.R.)
“O Baobá, símbolo da africanidade, incorpora como vimos múltiplas prefigurações”.
(Foto: D.R.)

2. ÁRVORES DO PODER

A incompreensão das acepções africanas de transformação do meio natural, onde os limites entre naturalidade e artificialidade não são claros ao olhar ocidental , resultou em equívocos de toda ordem. Assim, frequentemente a visão europeia codificou territórios dotados de função social para a sociedade tradicional como supostamente devotados a um não-uso e, por conseguinte, “vazios”, parte da natureza.

Neste sentido, a avaliação do espaço habitado em África deve levar em consideração as lógicas especificamente africanas de apropriação da natureza e na sequência, metodologias diferenciais que evoquem as singularidades da transformação do meio natural por parte dos povos do continente . Necessariamente, a interpretação da organização do espaço em África implica em reconhecer as modalidades próprias adotadas pelos africanos para assimilar as pulsões da natureza, via de regra mantendo uma parceria com a naturalidade.

Neste primado, os fluxos ecológicos foram orientados de modo a induzir sua difusão em meio à territorialidade que emergia da transformação do ambiente natural, construída através de uma parceria com a natureza, e não em oposição a ela. Disto resulta ser comum encontrarmos no espaço africano marcadores espaciais resultantes não de uma esculturação, mas sim, da apreensão direta de um elemento da natureza, deliberadamente implantado ou transplantado para outros pontos do espaço habitado.

Imbondeiro, árvore gigantesca de África. (Foto: D.R.)
Imbondeiro, árvore gigantesca de África.
(Foto: D.R.)

Nesta senda, as virtudes descritas dos Baobás certamente garantiram-lhe posição privilegiada dentre as opções ao alcance dos africanos para consolidar a construção do espaço. Oriundo do meio natural, o Baobá foi, outrossim, plotado em pontos de destaque da espacialidade, passando a atuar como um autêntico objeto espacial, dotado ademais de enorme força inercial, magnetizando os dinamismos presentes no espaço.

Um bom exemplo são as famosíssimas árvores ensandeiras do reino do Ndongo, um Estado tradicional angolano. Denominadas múlèmba, tais árvores do poder representavam simbolicamente a ordem instituída e as ligações do mundo dos vivos com o dos mortos. Portanto, eram coerentemente plantadas no centro de toda aldeia do território Ndongo, empreitada altamente perdurável e reincidente na evocação dos direitos ancestrais .

Em todo continente, dentre os elementos topologicamente invariantes da articulação do espaço, o ponto fixo constituído pela árvore da aldeia é um memorável marco da atuação humana. O Baobá constitui uma das manifestações genuinamente africanas pelas quais a naturalidade encontra na sociedade a celebração da artificialidade. Assim, mesmo quando as comunidades desaparecem fisicamente, os Baobás se mantêm enquanto última reminiscência da articulação espacial do passado .

CONSIDERAÇÕES FINAIS – Com base no que ponderamos, se torna explícito que os Baobás não configuram elementos propriamente naturais dispostos aleatoriamente na paisagem.

Pelo contrário, sintetizam a ação do homem no espaço, presente ou pretérita. Por isso mesmo, frequentemente os africanos observam nesta árvore uma evocação do espaço habitado, e a ela recorrem com o fito de localizar no espaço a materialidade de uma antiga vivência social. Isto, a despeito de eventualmente reportarem a lapsos de um tempo quase imemorial. Complementando, seria meritório argumentar que o Baobá não pode ser restringido à condição de mera recordação do passado da comunidade ou dos grupos. Pelo contrário, para o mundo africano e afro-descendente ele é o próprio símbolo de uma identidade imorredoura, que resistiu a todas as intempéries da história.

Nesta senda, tanto quanto a memória ancestral, o Baobá permanece em seu posto: imbatível, altivo e atuante. E mais: numa clara demonstração de que as prefigurações imaginárias do espaço são permanentemente reatualizadas a partir de contextos específicos – que modelam ou reconstroem sua figuratividade – os Baobás ressurgem das profundezas da memória investidos de novos papéis.

Eles agora reaparecem para condenar a utilização predatória dos recursos naturais, defender a inviolabilidade dos territórios das populações tradicionais, resgatar o acervo cultural de grupos oprimidos e apoiar a libertação dos povos não-representados. O Baobá, símbolo da africanidade, incorpora como vimos múltiplas prefigurações, subsidiadas, é claro, por suas qualidades naturais intrínsecas.

Virtudes estas que expressam, em si mesmas, a aspiração africana em manter suas raízes e resistir às forças que pretendem desqualificá-la, inferiorizá-la e oprimi-la. Assim, o Baobá continua a inspirar as novas gerações de africanos e afro-descendentes na afirmação de sua identidade. Mais do que uma árvore, o Baobá tornou-se um símbolo civilizatório, baluarte da memória africana, no seio do qual muitas comunidades encontram abrigo e esperança. Anseio este que tem no Baobá um aliado a toda prova.

__________________ BIBLIOGRAFIA BARBIERI, Gian Paolo. Madagascar, Álbum de fotos, República Federal da Alemanha: Taschen, 1997;

BAUM, D. A.; SMALL, R. L.; WENDEL, J. F. Biogeography and floral evolution of baobabs (Adansonia, Bombacaceae) as inferred from multiple data sets. Systematic Biology, V. 47, pp. 181-207. EBSCO Publishing. 2002; CHRÉTIEN, Jean Pierre.

Hierarquia e Trocas nos Reinos dos Grandes Lagos do Leste Africano, in Para Uma História Antropológica, página 48, Coleção “Lugar da História”, nº 2, Edições 70, Portugal: Cidade do Porto. 1978; COELHO, Virgílio. Em Busca de Kábàsa: Uma Tentativa de Explicação da Estrutura Político-Administrativa do Reino do Ndongo. (cultura.ao)

Por: Maurício Waldman

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