‘Hoje o golpe de Estado não se dá com armas’

Norberto Garcia, secretário para a Informação do MPLA. (Foto: D.R.)
Norberto Garcia, secretário para a Informação do MPLA. (Foto: D.R.)
Norberto Garcia, secretário para a Informação do MPLA.
(Foto: D.R.)

O caso dos jovens detidos, o empréstimo da China a Angola e a visita de Hollande marcaram a conversa do SOL com Norberto Garcia, secretário para a Informação do MPLA em Luanda.

As visitas do Presidente à China e ao Dubai, a criação do Observatório dos Investimentos com Portugal e a visita do Presidente francês demonstram a preocupação de Angola com a crise financeira?

Sendo Angola um país global, não é menos certo que este problema afectou e tem de encontrar soluções. E o primeiro responsável a ver soluções para isso, indiscutivelmente, é o Presidente da República. Queremos apoiar a acção do PR, sendo certo que os detalhes são uma questão técnica, que os técnicos dos dois países vão resolver, quer em relação à China, quer em relação aos Emirados. E isto também serve para aquilo que o Presidente Hollande veio cá fazer. A França veio a Angola porque entende que Angola é um parceiro importante. Sabe que as relações ficaram um bocado manchadas com o ‘Angolagate’.

Esta situação ficou ultrapassada?

Ficou ultrapassada porque os tribunais franceses souberam reconhecer que, na verdade, foi tudo inventado. Havia aí manobras de alguns partidos franceses que, sendo «inimigos de Angola» (nas aspas que isso merece), entendiam manchar o nosso bom nome. Angola estava a viver uma situação muito específica e tinha obrigação de se defender, e acho que mais uma vez o Presidente soube encontrar uma estratégia funcional, porque havia uma espécie de sanções e Angola encontrou a via para resolver um problema político-militar. Também o encontro com empresários portugueses tem um propósito: encontrar formas de fazer negócios. Os empresários olham para as potencialidades que os dois países têm e desenvolvem parcerias ou negócios de parte a parte.

No caso dos Emirados Árabes Unidos, o que foi fazer o PR lá?

Sabe que os Emirados Árabes Unidos, a partir do petróleo, criaram um grande mercado financeiro e de serviços. Na verdade, ali a diversificação económica foi tão grande que o mercado financeiro é bem funcional. É preciso que se encontrem vários mercados, não se pode pôr todos os ovos na mesma cesta, não é uma boa estratégia.

O empréstimo da China é mesmo de 25 mil milhões de dólares?

Este dado é que está na mesa, e fiquemos com ele, mais ou menos. Isso é um detalhe que não sei se é tão funcional. O mais importante é que existe a vontade de contrair um empréstimo. As pessoas têm sempre o interesse de saber a quantidade de dinheiro para saber como é que foi gasto, e é legítimo. Mas esta é a base e é a informação que todos temos.

Não acha que era importante avaliar antes de contrair nova dívida?

E quem disse que não há avaliações periódicas? É importante dizer que há muita coisa feita, mas precisamos de divulgar mais e esclarecer as pessoas. Por exemplo, assim que o PR chegou da China, face à especulação que foi ocorrendo, se calhar alguém deveria pronunciar-se no aeroporto, dizendo que ‘passou-se isto e aquilo’, e ninguém teria dúvidas. Mas a avaliação de todo o percurso é feita pelas entidades que trabalham nos projectos.

A ida do PR à China foi questionada pelos deputados, queriam que antes passasse pelo Parlamento.

Não há qualquer problema. O PR faz um discurso sobre o estado da Nação, vai agora fazer em Outubro e vai dar conta disso. Já deu conta no seu último discurso que o Executivo ia encontrar soluções para a crise. E há uma lei que permite ao PR contrair empréstimos.

Fala-se que os chineses têm estado a ocupar os empregos. Não deveria ser acautelado o emprego nacional?

O MPLA defende que, em igualdade de circunstâncias, o angolano tem sempre prioridade sobre qualquer outro cidadão. O MPLA tem consciência de que algumas pessoas são prejudicadas no seu local de trabalho. Mas o que eu sinto hoje e que acho que devemos discutir é se temos problema de falta de emprego ou de falta de qualificação profissional. Qualquer empresa quer lucro. Eu não vou pagar nunca a um estrangeiro, que vou sempre pagar mais, quando há um nacional que pode ocupar aquele espaço. Embora eu compreenda que há empresas que o façam.

Está a dizer que este problema tem a ver com falta de qualificação?

Para alguns casos sim. Como sabe, a nossa taxa de analfabetismo ainda é de um terço da população. E não se faz um país com analfabetismo. Além disso, há o problema da qualificação profissional. E nós não podemos fazer política de fala barato. Às vezes há discussões que são populistas.

O Comité de Especialidade dos Empresários do MPLA também continua a ser contestado.

Ninguém deve ficar zangado com a forma como o MPLA se quer organizar estrategicamente. Se o MPLA tem militantes empresários, porque é que não os junta e traça uma estratégia? Qual é a lei que proíbe isso? Nós temos CE dos Empresários, de Engenheiros, de Médicos, de Juristas. É normal. Anormal é quem não os tem, e muita gente só não imita o MPLA porque tem vergonha. Porque se o meu militante der uma vantagem na especialidade que domina, porque é que não vou juntar as pessoas e torná-las cada vez mais especialistas no sector?

Uma vez que muitos dos integrantes desse Comité são responsáveis de cargos públicos, como o seu líder, que é PCA do BPC, isso não fere o princípio da probidade?

É normal que as pessoas contestem. Mas uma empresa pública tem autonomia económica e financeira, não vejo mal nenhum em que um responsável de empresa pública se filie num comité de especialidade, se é militante do MPLA. Isto não tem nada a ver com transparência, porque a questão de transparência é outra. Agora, se esse militante do MPLA desviar fundos para outros fins, esta é outra conversa.

A sucessão presidencial no MPLA deixou de ser tabu?

Nunca foi. Primeiro, a sucessão depende daquilo que é a vontade dos militantes. O MPLA tem cerca de cinco milhões de militantes. Se, no Congresso, os militantes disserem que nós queremos que o presidente continue, vai continuar.

A longevidade não incomoda nem cria debate no seio do partido?

Pelo contrário, conforta, pelos resultados positivos. Primeira razão é a guerra, depois deve-se ao facto de o Presidente estar a levar o país com estabilidade, tranquilidade e harmonia nacional. Nós temos a sorte de este filho da pátria ter nascido em Angola e estar no MPLA. Se, em 1992, não continuasse a guerra, hoje já não estaria aí. No MPLA isso é abordado com toda a naturalidade.

A oposição quer debates em directo na AN. Como vê essa questão?

Têm legitimidade bastante para isso, mas o mais importante é fazer com que o que se produz seja do interesse de todos. Entendemos que tudo o que é debate deve ser transparente, em nome do interesse nacional.

Admite que a não apresentação dos debates em directo é culpa do MPLA, devido à maioria que tem?

Pode ter razão nessa lógica, mas pode não ter razão na lógica do funcionamento e de acordo com a visão de quem está lá dentro. Às vezes, há limitações técnicas, financeiras ou operacionais. Porque não interessa haver debate numa semana e noutra não.

A TPA  realizou nos últimos dias dois debates em directo e com algum contraditório. Houve uma ordem do partido?

Não importa quem decidiu, importa que a TPA, que é de todos, chegou a uma conclusão de cada vez mais democratizar-se. Isto é bom. Lembro-me que quando iniciámos os debates, com Ismael Mateus e Reginaldo Silva, eram calorosos. A TPA parou e a TV Zimbo foi dando claramente mostras diferentes. É um processo.

Como está a encarar a detenção dos jovens activistas?

Os jovens estão a criar aqui um estado de instigação. E abro aqui parêntesis para dizer que, hoje, o golpe de Estado não se dá com armas, as armas já não existem. Se os jovens vão ao Palácio, atiram-se às tropas e estas disparam, há um levantamento populacional sobre muita coisa que é instigada por eles. Ou vão às outras instituições públicas… Estará a acontecer uma insurreição? O que aconteceu em Inglaterra, quando David Cameron até suspendeu as suas férias e foram detidos cinco mil jovens? Revoltaram-se, começaram a incendiar Londres, prenderam todos, os tribunais julgaram e condenaram muitos e a situação ficou controlada. Meus senhores, está na hora de o país parar e dizer ‘calma, deixem a justiça fazer o seu trabalho’.

Mas é grave o que os jovens estavam a fazer?

É grave, põe em causa a segurança do Estado, o interesse nacional, instiga a prática de desobediência. Se querem constituir um partido político, que constituam e concorram às eleições de 2017. Vou dar outro exemplo, tentaram fazer isso com a Líbia. O que é a Líbia hoje, é país? Não. A Líbia, desculpem a expressão, é um nicho de país, não tem Governo, não tem nada. O que é o Iraque hoje? Vamos fazer bem as coisas, não vale a pena imitar as primaveras árabes. Do ponto de vista do Direito internacional, têm mesmo de ser sancionados.

Mas diz-se que estavam em palestra sobre resistência pacífica?

Não. Se a PGR dá conta do que faz, e eles não vêm de agora, vêm de há muito tempo e cada vez mais criam um estado de agitação e instabilidade social. E num país que acaba de sair de uma guerra. Com a nossa realidade, que é uma paz nova, não se pode brincar. Não se pode criar situações fantasmas para um povo que já sofreu tanto. Veja a CASA-CE, eram vários partidos, formaram uma coligação e estão aí, não é melhor assim?

Não acha que o Executivo deveria encontrar outro mecanismo de falar com os revús?

Concordo, mas o Governo não é responsável por isso, a PGR é que tem essa responsabilidade. E a polícia não faz diálogo.

O que está a acontecer agora não implica o fracasso do diálogo que o PR teve com a juventude?

Não. O diálogo juvenil foi um sucesso espectacular. O diálogo juvenil foi das coisas mais bem realizadas neste país. Os jovens disseram tudo o que tinham para dizer.

Mas os revús não estiveram.

Não, porque não quiseram. Quem é que não esteve? Vi lá militantes da UNITA, da CASA-CE. Estavam todos.

Esta detenção não belisca a imagem de um país que até está no Conselho das Nações Unidas?

Não. Temos que nos habituar a ser um país normal. Se não tiver segurança pública, não é país. (sol.ao)

Por: Félix Abias

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