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Hino nacional escrito e musicado em dois dias e sob muita pressão – escritor Manuel Rui
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Hino nacional escrito e musicado em dois dias e sob muita pressão – escritor Manuel Rui

(Foto: D.R.)

(Foto: D.R.)

O escritor angolano Manuel Rui aborda, em entrevista à Angop, os momentos que marcaram a sua intervenção no processo de produção do hino nacional de Angola, em vésperas da proclamação da independência nacional, no dia 11 de Novembro de 1975, bem como a actualidade do mundo literário angolano.
Angop-Manuel Rui é um dos ficcionistas angolanos e também autor do hino nacional. Sente-se realizado no mundo das artes?

Manuel Rui (MR): Não completamente. Nem no mundo das artes, nem em outra vertente. A realização, para mim, é sempre a busca de qualquer coisa que se acrescenta a nós próprios e não propriamente o que já se fez ou se está a fazer. O que se fez é passado, fica para a posteridade e poderá ser lembrado daqui a 100 anos. Ainda tenho muito por fazer, portanto, ainda não estou e nem me sinto realizado.

Angop-O que falta para que Manuel Rui se sinta realizado no mundo das artes?

MR: Nunca se sabe, exactamente, o que nos falta para nos sentirmos totalmente realizados e não estou a falar somente da vida pessoal, mas também da profissional.

Angop-Como surgiu a ideia da criação do Angola Avante?

MR: Era necessário fazer o hino e com esta missão fomos chamados, isto é, eu e o Rui Mingas, para tratarmos do hino de Angola independente. É assim que tive a incumbência de tratar da letra e o Rui Mingas da composição. Pensamos em algo que tinha que nos identificar, que tinha que marcar a identidade angolana, o patriotismo de quem sofreu durante muitos anos para ver o país livre do colonialismo português.

Angop-Em que circunstâncias escreveu a letra do hino nacional?

MR: Foi numa circunstância de guerra, de muita pressão e ansiedade. Tivemos dois dias para escrever e musicar o hino nacional.

Angop- Invade-lhe algum sentimento especial cada vez que ouve o hino nacional entoado, quantas vezes por milhares de cidadãos, em eventos culturais, políticos ou de outra índole?

MR: Muito feliz por saber que pertence ao povo, que, apesar de ser o autor da letra, apenas dei o meu contributo para uma criação colectiva. É um sentimento de identidade, é um sentimento de patriotismo e de cidadania.

Angop-Como foi passado o seu dia na véspera do 11 de Novembro?

MR: Com muita pressão e muitas actividades por realizar. Tínhamos a missão de tratar do hino nacional e também de arrumar o Palácio para não deixar que quem estivesse a sair levasse alguma coisa. A protecção do Palácio foi uma missão bem sucedida, porque contamos com a colaboração de todos os funcionários, entre angolanos e portugueses. Olha que nem uma colher foi levada (…). Foi um dia de preocupações de ordem militar, porque Luanda estava a ser invadida pelos zairenses, e da preparação da cerimónia da tomada de pose do Presidente Agostinho Neto.

Angop-Após o 11 de Novembro de 1975, Angola foi vítima de uma agressão dos racistas sul-africanos e fruto das acções militares, alguns deles foram capturados e julgados, tendo o escritor como um participante activo neste processo. Do que se recorda?

MR: É um processo que está escrito e arquivado. Tive a incumbência de ser o procurador. Houve uma comissão para resolver uma situação que se impunha em época de guerra e de afirmação do país (…).

Angop- É saudasista em relação à República Popular de Angola (RPA)?

MR: Não sinto saudades. Eu lembro. Tinha todos os defeitos que foram importados da União Soviética e de Cuba, mas também tinha algumas virtudes. Os valores da igualdade, da verdade e da solidariedade eram ensinados nas escolas. Estavam mais consolidados na sociedade angolana. Estes valores infelizmente desapareceram.

Angop- O que se lhe afigura dizer relativamente ao contributo da juventude na afirmação do país?

MR: A juventude faz o que é possível fazer. Temos grandes exemplos da acção da juventude na afirmação de Angola no contexto das nações. São os jovens que têm dado cartas no desporto, principalmente no andebol feminino e no basquetebol, em ambas as classes. Mesmo em tempo de guerra, conseguimos ser campeões africanos em andebol e basquetebol, modalidades que têm sido referência não só em África, mas também no resto do mundo. Temos ainda jovens que se têm destacado no ensino, empresariado e em outros domínios da vida política e social, portanto, os nossos jovens são um exemplo digno.

Angop- Quarenta anos de independência, 40 anos de cultura livre. Que análise faz do estado actual da cultura angolana?

MR: Não acompanho as edições todas de livros, mas do pouco que vejo não me deixa satisfeito. É preciso cuidar mais da qualidade. A literatura angolana já tem dois prémios Camões, portanto, merece mais atenção e cuidado por parte de quem está no mundo das letras. Temos tido sucesso no mundo da cultura e fico, por exemplo, feliz quando recebo informações de que o jovem Anselmo Ralph é um grande sucesso no mercado musical nacional e estrangeiro. São indicativos de que uma aposta na qualidade traz consigo frutos positivos para o país. Agora, na vertente socioeconómica e política, devo dizer que ainda há muito por se fazer. Há muitas coisas que ainda não chegaram. Há coisas, do braço que tivemos que estender ao longo de anos, que ficaram e que devem ser alteradas. Mas, felizmente, não está assim tão mal. Temos um país que regista progressos em várias vertentes. Construíram-se muitas escolas, hospitais, estradas e outras infra-estruturas, apesar de algumas delas terem tido pouca durabilidade, não por culpa do Governo, mas de pessoas sem escrúpulos, que enganam o Governo. A consideração de seremos um dos pacificadores da região dos Grandes Lagos, com a comunidade internacional a elogiar a acção de Angola, é um factor de orgulho. Temos ainda a satisfação de recebermos, para formar, constantemente, membros das forças de segurança de alguns países da região, como reconhecimento à qualidade que temos e apresentamos neste domínio.

A independência em si é também um ganho, pois permitiu ao povo ser livre, os angolanos passaram a decidir o seu destino.

Angop-É autor de várias obras, entre as quais a célebre e recomendável “Quem Me Dera Ser Onda”. Onde vai buscar a inspiração para a produção do produto que coloca ao dispor dos leitores?

MR: Não só do “Quem Me Dera Ser Onda”, mas também de outras obras como “A trança”. Recorro a factos que se registam na sociedade.

Angop-Quando escreveu o “Quem Me Dera Ser Onda” imaginou que, depois de muitos anos, continuasse a ser uma grande referência no mercado literário angolano?

MR: Sim. Sempre tive a percepção de que seria um sucesso, isto porque quando escrevo é mesmo para ser um sucesso. Já foi traduzido em várias línguas, já foi adaptado em teatro e em cinema. É bom.

Angop-“Quem Me Dera Ser Onda” é uma obra que surgiu num momento ímpar da história de Angola. Era uma mensagem para os que saiam de Angola ou para os angolanos da nova Angola?

MR: É uma mensagem para a mudança de comportamento.  É um retrato do que acontecia naquela altura. A mensagem de “Quem Me Dera Ser Onda” ainda hoje se pode enquadrar neste contexto. É um livro para todas as idades. Há críticos que dizem que esta obra mudou a sociedade. Lamento que ninguém tenha feito um bom filme de ficção. Não documentário. Porque a mensagem é bastante positiva e que ainda hoje se enquadra na actual sociedade.

Angop-Vive Luanda e já escreveu Luanda. Que comparação pode fazer entre Luanda de hoje e de ontem?

MR: Escrevo pouco sobre Luanda, mas é incomparável. Até aos anos 90, Luanda tinha mais árvores. Hoje está uma selva de betão armado. Não há jardins, é uma cidade triste. A Marginal mudou. Antigamente, era usada para as pessoas encontrarem-se, passarem alguns bons momentos de descontracção. Luanda está transformada numa sociedade fragmentada, não há sociabilidade. Hoje já não vemos pessoas a passar à noite à beira mar. A cidade de Luanda hoje transformou-se num arquipélago de arranha-céus, onde ninguém conhece ninguém, onde os vizinhos deixaram de ser os familiares mais próximos. É uma cidade onde cada um olha simplesmente para os seus interesses e não se importa de atropelar os demais para conseguir atingir os seus intentos. É uma aberração que uma terra com tanto espaço resolva crescer por cima. É necessário mudar-se este paradigma.

Angop-Acha que Luanda ainda tem uma solução para o tráfego rodoviário no casco urbano?

MR: A primeira solução é construírem-se parques subterrâneos pela cidade. Segundo, acabar-se com a confusão na colocação dos sinais de trânsito. Não se entende que o sentido de uma rua mude do dia para a noite sem antes fazer-se um anúncio desta mudança. Terceiro, que eu considero positivo, é o surgimento de uma nova classe, a classe “c”, uma pequena burguesia, que hoje conseguiu comprar carro, levando a cidade à saturação em termos de rede viária. A agravar, acresce-se o facto de os transportes colectivos não responderem às necessidades dos munícipes. Se os autocarros funcionassem como deve ser, a grande maioria das pessoas que vive na periferia optaria por ir ao trabalho de transportes públicos, desafogando, desta forma, o trânsito em Luanda.

Angop-Como é para um escritor fazer literatura num ambiente de conflito armado e noutro de paz, em termos de criatividade ou inspiração?

MR: Não há diferença. Quem tem dom está capacitado para trabalhar em qualquer circunstância. A mesma motivação que tinha nos anos de guerra, tenho agora. Nada mudou.

Angop- O que é necessário para se ser um bom escritor?

MR: Saber escrever, dominar a língua em que escreve, talento e criatividade. Devo, no entanto, adiantar que tem aparecido no mercado alguns talentos.

Angop-Qual é o papel da literatura na formação da identidade de um povo e na constituição de uma nação?

MR: A literatura transmite mensagens que ajudam a moldar a mentalidade dos cidadãos e que podem ser incluídas no código de ética das pessoas. São mensagens feitas de forma estética, assim como os que trabalham com madeira fazem artesanato e os que cantam fazem música. Portanto, os homens ligados ao mundo das artes têm dado um contributo significativo na formação da identidade de um povo, bem como na constituição de uma nação. No entanto, a literatura, no passado, tinha mais força do que tem agora, jogando um papel fundamental no desenho das sociedades.

Angop- Sente-se bem como contista, poeta e romancista?

MR: Sim. Se não me sentisse não fazia o que faço. Apesar de alguns fazerem mal, mas sentem-se bem.

Angop- Escritor, sente alguma saudade da antiga Nova Lisboa (Huambo)?

MR: Nem tanto. Huambo está bonita, mas parece mais uma maquete. O desenvolvimento também lá chegou, fruto da paz que se regista no país.

Angop- Quando teremos uma nova obra do escritor Manuel Rui?

MR: Até ao final do ano poderão sair 4 ou 5 obras.  Esperem que terão boas surpresas de autoria de Manuel Rui.

Perfil

Manuel Rui Alves Monteiro nasceu no Huambo, planalto central, em 1941. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, Portugal, onde desenvolveu advocacia e foi membro fundador do Centro de Estudos Jurídicos.

Figura incontornável das artes angolanas, ao longo da sua vida de escrita, Manuel Rui manteve sempre uma estreita colaboração com diversos jornais e revistas de renome, desde os tempos de Coimbra, no triângulo da Língua Portuguesa entre Angola (Jornal de Angola, Diário de Luanda, entre outros.), Portugal (Público, Jornal de Letras) e Brasil (Terceiro Mundo).

Foi co-fundador das edições Mar Além, onde foi editada a Revista de Cultura e Literatura dos Países de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), e fundador e subscritor da proclamação da União dos Escritores Angolanos (UEA), bem como da União dos Artistas e Compositores Angolanos (UNAC) e da Sociedade de Autores Angolanos.

Manuel Rui, ensaísta, cronista, dramaturgo e poeta, é igualmente o autor do Hino Nacional de Angola e de canções com parceiros como Rui Mingas, André Mingas, Paulo de Carvalho e Carlos do Carmo (Portugal), Martinho da Vila e Cláudio Jorge (Brasil).

A sua vertente literária inclui uma vasta obra de textos de poesia e de ficção publicados desde 1967 até à presente data. É o autor do primeiro livro de poesia e do primeiro livro de ficção publicados em Angola após a independência.

Galardoado com inúmeros prémios, recebeu o Prémio Caminho das Estrelas 1980, pela emblemática obra ” Quem Me Dera Ser Onda “, já adaptada para televisão e teatro em Moçambique, Portugal e Angola.

Em 2003, renunciou ao Prémio Nacional de Cultura na área da Literatura pelo conjunto da sua obra. Os seus textos encontram-se traduzidos para Umbundo, Espanhol, Francês, Hebraico e Mandarim.

Obras de poesia  

Poesia Sem Notícias

A Onda

11 Poemas em Novembro: Ano Um.

11 Poemas em Novembro: Ano Dois.

11 Poemas em Novembro: Ano Três.

Agricultura.

11 Poemas em Novembro: Ano Quatro.

11 Poemas em Novembro: Ano Cinco.

11 Poemas em Novembro: Ano Seis.

11 Poemas em Novembro: Ano Sete.

Assalto.

Ombela

O Semba da Nova Ortografia.

Prosa  

Regresso Adiado Lisboa

Sim Camarada!.

Luanda: Cinco Dias depois da Independência.

Memória de Mar.

Quem me dera ser Onda.

Crónica de um Mujimbo.

Um Morto & Os Vivos.

Lisboa

Rio Seco

Da Palma da Mão

Saxofone e Metáfora

Um Anel na Areia. Nos Brilhos.

Luanda

Conchas e Búzios.

O Manequim e o Piano

Estórias de Conversa

A Casa do Rio

Janela de Sónia.

Teatro

O Espantalho (Obra inspirada na tradição oral e representado por trabalhadores da construção civil da cidade do Lubango)

Meninos de Huambo. (portalangop.ao)

Por: Venceslau Mateus

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