Francisco Moita Flores: “Portugal rejeitou o servilismo”

Moita Flores no Palácio da Independência, em Lisboa, onde os conjurados planearam o golpe. (Foto: Mariline Alves)
Moita Flores no Palácio da Independência, em Lisboa, onde os conjurados planearam o golpe. (Foto: Mariline Alves)
Moita Flores no Palácio da Independência, em Lisboa, onde os conjurados planearam o golpe.
(Foto: Mariline Alves)

O Dia dos Milagres’ é um romance histórico que conta os bastidores do golpe que, em 1640, acabou com o domínio espanhol.

É no palácio dos  Bragança, em Vila Viçosa, que se passa a ação de ‘O Dia dos Milagres’, o novo romance de Francisco Moita Flores, editado pela Casa das Letras. Ali se conta como o duque D. João preparou o golpe que haveria de fazer dele o rei D. João IV, em 1640. Com a ajuda inquebrantável de D. Luísa de Gusmão, uma nobre espanhola com quem casou por conveniência mas que se revelaria a melhor esposa, amante, mãe e confidente.  

Escreve que Filipe II “tomava um país submisso, empobrecido, que se arrastava sob o peso das feridas antigas e aceitava o destino como uma desculpa reconfortante”.

Nota alguma semelhança com o Portugal de hoje?

De certa forma nós nunca nos libertámos do trauma de Alcácer Quibir. Houve sempre um fatalismo, ou à tona ou meio submerso, que está nas nossas práticas e nos nossos entendimentos do mundo. Esse fatalismo sebastiânico foi de tal maneira importante que deu origem a correntes literárias.

Esse sebastianismo ainda vive hoje?

Julgo que sim. Estivemos sempre à espera que alguém resolvesse aquilo que nós temos para resolver. E isto abriu a porta a vários caudilhos. Repare que, de cada vez que surge um novo secretário-geral de um partido, parece que ressurge D. Sebastião. Vemos isso com todos os partidos, quando chega uma nova figura parece que tudo é projetado nela.

Com fulano tal o país vai mudar, com fulano tal o país vai ficar melhor. Essa personalização da política tem algo de mítico.

Temos essa eterna expectativa que venha alguém melhor do que nós tomar conta do país?

Sim, isso acontece, embora o D. Sebastião fosse um idiota. Até podia ser risível não fosse a tragédia que provocou. Alcácer Quibir é a maior comoção nacional de sempre. Nós na guerra colonial perdemos cerca de 30 mil militares em 14 anos, naquela manhã [de 4 de Agosto de 1578] perderam-se 20 mil portugueses, mortos ou cativos. O que dá a dimensão do que é destruir as elites de um país, que D. Sebastião arrastou para uma tragédia que mergulhou Portugal numa profunda depressão.

O duque D. João que nos apresenta no livro está nos antípodas de D. Sebastião. Apresenta-o como um homem ponderado, que recusa embarcar em aventuras de alto risco…

A ideia que uma certa historiografia tem dado dele é a de um rei ‘banana’, meio indeciso e casado com uma mulher muito ambiciosa, que determinou com uma frase o destino dele. Isso é falso. É falso que ele fosse um banana e é falso que ele tenha dito essa frase [antes rainha por uma hora do que duquesa toda a vida] com a intenção que lhe atribuem. No meu livro a frase tem o sentido certo, disse-o como forma de amor e até como um impulso de maternidade e não pela ambição do poder.

Apresenta D.João como um homem muito culto…

É um homem com uma cultura fora do vulgar. Era um compositor, aliás algumas das peças dele foram cantadas pelo Pavarotti ou pelo Placido Domingo e outros grandes tenores. Por exemplo o ‘Adeste Fideles’, que é uma canção de Natal que ficou para sempre. Publicou um cancioneiro próprio de grande qualidade. Mas, para além de um melómano, era um homem de uma cultura muito abrangente.

Mas tinha ele vontade de chegar a rei de Portugal?

D. João conhecia os autores da época, conhecia os clássicos e era muito bem formado. Tinha uma visão estratégica do que seria a tomada do poder contra o maior exército do mundo e contra o maior império do mundo. A coroa espanhola estava na mãos dos Hasburgos, que dominavam a Europa.

O duque de Bragança via-se na obrigação de negociar com os grandes estadistas de então, entre eles o poderoso cardeal Richelieu, de França. Isto faz com que ele pondere muito o golpe e o prepare para a altura em que apanhava mais frágil  o poder espanhol. Esperou pela insurreição da Catalunha e avançou no Natal, quando toda a administração espanhola tinha partido para Madrid. As guarnições militares que ficaram em Lisboa eram compostas por mercenários. E teve a preocupação de não matar a duquesa de Mântua, que era a vice-rainha, para fazer dela moeda de troca.

Esse plano, que hoje sabermos ser racional e muito ponderado, foi visto até por muitos dos seus apoiantes como um sinal de cobardia…

A impaciência era muito grande. Lisboa estava mergulhada numa crise terrível. Os comerciantes de Lisboa, a burguesia mercantil, não tinham nada. Os navios corsários e os próprios navios espanhóis tomavam as cargas. As mercadorias escasseavam e a miséria já era bastante grande. Havia uma impaciência em acabar com isto.

Mas o rei sabia que aquela impaciência, em vez de levar a uma vitória, deixaria o país numa situação muitíssimo difícil. Portugal não tinha exército.

Conta que as nossas tropas, e até o próprio irmão de D. João estavam a combater ao serviço dos Hasburgo…

Se reparar, os grandes momentos da história de Portugal envolvem o exército. O 25 de Abril, o 28 de Maio, o 5 de Outubro, a Regeneração, o liberalismo de 1820, houve sempre exército nisto. Mesmo Aljubarrota, em 1385, havia um exército pequeno mas tínhamos um general invulgar, D. Nuno Álvares Pereira, que era um estratega de grande nível. Tivemos sempre a tropa em todos os golpes, conspirações e revoluções. Aqui não, havia 40 conjurados e povo de Lisboa.

Foi isto que fez uma revolução.

Conta que o futuro rei D. João IV nunca se envolveu diretamente nas negociações que conduziram ao golpe. Porque não foi ele a contatar os estadistas que o podiam apoiar?

Do ponto de vista da autoridade do reino, não lhe cabia fazer essas negociações. Mais tarde ele chamou o Padre António Vieira e lançou grandes diplomatas por essa Europa fora para fazerem a política diplomática portuguesa. Mas ele é o homem que tem a visão que fez triunfar um golpe que tinha 1% de possibilidades de ser bem realizável. Apesar de estarem envolvidos em várias frentes de Batalha, os Hasburgos tinham na Andaluzia um dos seus maiores exércitos. Que por acaso era comandado pelo irmão da duquesa D. Luísa de Gusmão.

A insurreição da Catalunha faz com que esse exército se mova para lá. Mas há ainda o perigo de as guarnições fronteiriças poderem reunir um pequeno exército  que rapidamente resolveria a situação em Lisboa. Daí ter-se aproveitado o Natal, o 1 de Dezembro era o princípio das férias. Lisboa estava vazia e dava tempo para criar uma força de reação, ter os aliados consigo, como os inglese e os franceses que permitiram perpetuar o golpe e estabelecer uma política.

O seu romance narra o grande amor entre D. João e a sua esposa, a andaluza Luísa de Gusmão. Um casamento que deveria apaziguar as pretensões independentistas de Portugal teve o efeito contrário?

Consultei os arquivos da casa Medina-Sidónia [a família de D. Luísa] e de facto ela chega inserida numa estratégia espanhola pensada pelo conde de Olivares [o conde espanhol que governava de facto o país] para dissolver a nobreza portuguesa. Tudo o que tinham sido os compromissos das cortes de Tomar, assinados por Filipe II, que, ao ocupar o trono de Portugal entregou a portugueses a administração do reino, desapareceu ao fim de 60 anos. O primeiro Filipe foi um homem contemporizador, cumpria compromissos. E apanhou um povo em choque, Alcácer Quibir tinha deixado o país de rastos. O conde-duque de Olivares mudou tudo isto. É um outro tipo de político. O objetivo passou a ser dissolver o país e transformá-lo numa província. E dissolvia-o através da colocação do clero e de uma política de casamentos em que se ia dissolvendo as casas senhoriais portuguesas no quadro da nobreza espanhola. É para cumprir este objetivo que Luísa de Gusmão casa com o Duque D. João de Bragança.

Mas o plano falha porque ela se apaixona por ele.

Retrata D. Luísa como uma mulher fogosa, sentimental e apaixonada. Em que se baseou para construir esta personagem?

No reinado dela. D. João IV morre relativamente cedo e ela fica como regente. O filho mais velho, D. Teodósio, tinha morrido e ela fica regente durante a menoridade de D. Afonso VI período que se prolongou também por causa da doença dele. Ela procurou várias vezes que fosse o seu filho Pedro a assumir o reino, o que viria a acontecer mais tarde. As principais batalhas da Restauração dão-se no tempo em que D. Luísa era regente. É uma mulher de genica extraordinária a defender a terra dos seus filhos.

O que seria fácil para ela seria, perante a morte de D. João IV e a doença de D. Afonso, seria promover o regresso de Filipe de Espanha. Devemos a nossa independência a uma andaluza com alma portuguesa, apaixonada pelo marido e pelo país. Mesmo quando é destituída pelo atestado que leva D. Pedro ao poder, manteve-se em Portugal.

A ação do livro é centrada em Vila Viçosa, descrita como um idílio para os Bragança…

A fortuna dos Bragança era uma das maiores da Ibéria. O duque era um homem poderosíssimo. D. João tinha todas as razões para não querer ser rei. Porque ele vivia dentro de um paraíso.

Não se interrogou se afinal D. João não pretenderia afinal viver descansado em Vila Viçosa, sem nunca ter tido vontade de ser rei?

Ele só pensa em ser rei quando percebe que Portugal já não aguenta mais. E o que o faz tomar a decisão não são exatamente os conjurados mas antes as grandes rebeliões de Évora. Ficaram para a história como a revolta do Manuelinho. Foi uma revolta reprimida com violência brutal, porque se estendeu ao país todo. O Duque de Bragança tinha visitado Évora, e é na sequência da sua visita que começa a rebelião. Percebe que o país não aguentará muito mais tempo o domínio a que estava sujeito.

Ele era a única figura que estava em condições nobiliárquicas de assumir o poder.

A causa da restauração nunca foi unânime em Portugal…

Por estupidez ideológica. Muitas vezes o preconceito político faz com que nós tratemos a história a pontapé. A República valorizou sempre o 1º de Dezembro. O Estado Novo sobrevalorizou-o no sentido de se apropriar do 1º de Dezembro como uma data simbólica e do renascimento do novo reino. Exacerbou isto a tal nível que as forças da oposição o passaram a entender como um dia do Estado Novo. Esta distorção fez com que uma certa historiografia de esquerda tivesse conduzido à desvalorização e a um desprezo grande por esta data. Mas veio a verificar-se que quem acabou com o feriado do 1º de Dezembro não foi essa esquerda mais sim um centro-direita semi analfabeta que não valorizou aquilo que há que valorizar na história única de Portugal.

A diferença grande entre o Portugal da altura e o Portugal de hoje é que o Portugal daquela altura não aceitou a troika deles com a submissão e o servilismo com que nós a aceitamos no século XXI. Talvez o 1º de Dezembro seja coisa para esconder por causa disso.

Essa “submissão e servilismo” de que fala estará relacionado com esse tal desígnio de que venha alguém melhor que nós tomar as rédeas do país?

Não sei, as causas da nossa decadência foram bem identificadas pelo Antero de Quental há 140 anos. Se lermos aquela conferência, parece que foi escrita ontem. Os pressupostos da nossa decadência estão associados àquilo que foi a demissão que resultou de uma visão absolutista do poder que o liberalismo não conseguiu resolver. Nem o republicanismo. O nascimento de Salazar veio recuperar essa ideia do homem providencial e a ditadura manteve essa ideia.

D. João era também um homem providencial?

Não, isto não tem nada a ver com D. João IV, até porque este morreu cedo. O 1º de Dezembro deve ser entendido na sua forma mais serena e descomplexada daquilo que é a discussão ideológica político-partidária, que depois contamina a própria historiografia. Fez-se de um momento único da história portuguesa um momento nacionalista ou mais atávico, de exacerbação de sentimentos, quando afinal de contas é talvez dos momentos mais extraordinários que Portugal viveu. Temo que, sem este golpe, aquilo que é o maior ativo produzido por Portugal e dado ao mundo, que é a nossa língua, não tivesse sobrevivido como sobreviveu.

Hoje falam português 250 milhões de pessoas. Não tenho dúvidas nenhumas que a emancipação política esteve ligada à emancipação de uma língua que era na altura relativamente recente. Criaram-se condições para que Portugal ganhasse a sua própria identidade e uma memória de Pátria e território que tendia a desvanecer-se no quadro do imperialismo filipino.

António Costa já prometeu que, se for primeiro-ministro, regressa o feriado da restauração. Acredita que isso possa acontecer, mesmo que o atual governo ganhe as eleições?

Eu julgo que o governo fez isto por ser servo, mas percebeu que não se pode ser servil até ao limite de trair a nossa identidade. Percebe-se que hoje existem vozes no próprio Governo muito desconfortáveis com o facto de terem perdido este feriado. Que deve ser uma exaltação da nossa língua, da nossa identidade, daquilo que nos diferencia no quadro europeu. O que nos diferencia é a língua e a postura identitária que temos em relação ao Atlântico e ao mundo. Nós passámos do 8 para o 80 em termos de estratégia política. Nós que éramos um país virado para o mar, com a inclusão na União Europeia continentalizámo-nos. A vocação portuguesa passa pela Europa, mas passa também por África, pelas Américas, porque foi assim que vivemos sempre. As nossas grandes comunidades de emigrantes estão na Europa, é certo, mas também na África do Sul, no Canadá, nos Estados Unidos, no Brasil. Porque a diáspora expandiu-se sempre tendo o Atlântico como uma estrada de comunicação muito própria.

E o feriado da república, o 5 de Outubro acha que faz falta?

Julgo que sim, o regime é republicano. Isto não tem a ver com a ver com uma alma nacionalista no sentido perverso dessa expressão. Mas tem a ver com o nosso sentido de território, de maternidade, de encontro com a nossa memória. Portugal não pode acabar, porque é muito mais que este território. É uma língua, é uma história com oito séculos, é um povo que se dispersa pelo mundo, que se reencontra e que se vai reproduzindo através de uma fala comum a outros povos.

Escreve eu o livro seguindo as normas do antigo acordo ortográfico. Não é um entusiasta das novas regras…

Não sou entusiasta, mas também não sou um prosélito contra o acordo. Eu aprendi essa lição com o Fernando Pessoa. Quando foi o acordo de 1911, Pessoa desfê-lo de alto a baixo, escreveu violentamente contra ele. Mas, em 1911, Pessoa valia muito pouco como poeta, ainda. Foi à luz desse acordo ortográfico que o grande Fernando Pessoa veio à luz do dia. Não foi por casa do acordo que ele deixou de ser um dos grandes poetas da humanidade. Estamos a falar da ortografia, não estamos a falar de língua.

Acha exagerada a discussão que se tem feito?

Sim, estamos a falar de ortografia. A língua é uma coisa muito mais complexa. Esta história de reduzirmos a língua a um acordo ortográfico é uma discussão tão simplista que esquece a dinâmica da própria língua. Eu não tenho dúvidas que, daqui por 50 anos, a nova linguagem que surge nos telemóveis, nos sms, serão parte integrante da nossa língua. O ‘gramo-te bué’ e os ‘cotas’ e esse linguajar novo que nem tem expressão ortográfica nem linguística a não ser através dos milhões de mensagens que os jovens trocam entre si e que vai ganhando cada vez mais espessura. A língua é um perpétuo movimento, impulsivo, tumultuoso.

Como foi a investigação que fez para este livro?

Demorou muito tempo porque eu andava há muito com a Luísa de Gusmão na cabeça. Não acreditava que uma mulher tivesse dito a tal frase [reproduzida assim no livro: “Prefiro morrer rainha, nem que o seja por uma hora, ao lado do meu rei e marido do que ser duquesa e viúva toda a vida”]. Ela tinha três filhos pequenos quando se deu o golpe de 1640. O D. Teodósio tinha seis anos, a Catarina de Bragança – que depois se tornaria a famosa introdutora do chá em Inglaterra – tinha quatro anos e a Ana de Bragança dois. Era um impulso anti-maternal que D. Luísa, num momento de fogosidade, atirasse o marido para uma guerra impossível de ganhar, pedindo-lhe para ser rainha por uma hora em vez de ser duquesa toda a vida. Isto fez-me questionar muito e procurar muito aquilo que eram as causas daquela aliança estranha em uma andaluza e a maior fortuna portuguesa. Procurei historiadores como o Veríssimo Serrão e outros, e nenhum deles aceita essa frase. Era preciso averiguar as circunstâncias em que isso ocorreu e fui investigando, não com a militância dos profissionais, mas procurando saber na Biblioteca Nacional, na Torre do Tombo, nos arquivos da Casa de Bragança e, sobretudo, nos arquivos da casa Medina-Sidónia, porque aí estariam respaldadas nas cartas e nas mensagens e nas atitudes do pai de Luísa qual era a postura da filha. E percebi que havia de facto uma circunstância diferente. Quando nos aproximamos da data do golpe e das razões que levam o Duque de Bragança a adiá-lo tantas vezes, à procura do momento oportuno, percebe-se que a oportunidade tinha a ver com a reunião de uma série de condições.

D. João IV guarda segredo do golpe em relação a D. Luísa quase até à última hora. Temia que esta avisasse o pai, que era um grande aliado de Filipe IV?

Exatamente. Isto embora o irmão de Luísa, D. Gaspar, tivesse ambições independentistas para a Andaluzia. Aliás ele acabou por ser afastado do Exército espanhol por caso dos planos que fez nesse sentido, talvez um pouco inspirado pelo exemplo da irmã. Os portugueses mais poderosos estavam em Madrid. Miguel de Vasconcelos não passava de um secretário de Estado que cumpria ordens do conselho de Madrid, onde pontificavam portugueses do clero e da nobreza que estavam de alma e coração com Filipe.   Descreve a grande tensão vivida por D. João e D. Luísa em Vila Viçosa, a aguardar ansioso por um pombo correio que lhe trouxesse notícias de Lisboa naquela manhã de 1 de Dezembro de 1640? Imagine-se o ambiente que se vive a 170 quilómetros de distância. É um ambiente cinematográfico, uma tensão enorme. Sobretudo com o segredo que D. João IV tinha de manter acerca de tudo. Há uma altura em que D. João, que sabe ter espiões em casa, dá instruções para que só seja visitado pelas pessoas mais próximas, pessoas da Casa de Bragança. Quando se dá a revolta na Catalunha, em Junho de 1640, Miguel de Vasconcelos e o conde de Olivares pedem a D. João o apoio do exército português. Ele era o Condestável do reino, mas era um general sem tropas e manda dizer que não tem nada para lhes dar. A partir daí a desconfiança instala-se, há a suspeita de que ele estará a preparar alguma coisa.

Conta que afinal Miguel de Vasconcelos estava morto quando é atirado de uma janela do Terreiro do Paço…

Ele morre dentro de um armário. E morre porque estava lá escondido, armado. Quando abrem o armário, há ali uma espécie de legítima defesa de quem o matou. Quando o atiram para a rua já estava morto. Mas o Miguel de Vasconcelos era irrelevante no plano de D. João. Ficou como símbolo do odioso traidor, mas o que era relevante para o Duque de Bragança era não matarem a Duquesa de Mântua. Ela seria a moeda de troca para tudo aquilo que fosse necessário nas negociações com Filipe. Se têm morto Duquesa de Mântua, não tenho dúvidas nenhumas que Filipe invadiria Portugal de imediato. São os conjurados que a mandam para Espanha, para mostrar boa fé.

Se fosse só Portugal a revoltar-se contra os Hasburgos teria alguma hipótese de vencer?

Não teria hipótese nenhuma. A Catalunha, do ponto de vista estratégico era mais importante do que Portugal. Para além da riqueza natura, a Catalunha é um porto do Mediterrâneo que podia cortar o acesso ao mar que guarda todas as histórias da história universal. Portugal não colocava em causa a relação Atlântica porque havia três portos importantes em Espanha, Cádiz, Sevilha e Vigo. A perda da Catalunha seria sempre uma tragédia muito maior.

Vivemos um tempo em que o edifício europeu, construído com palavras bonitas e boas intenções parece estar prestes a ruir a cada momento. Está otimista em relação ao futuro da Europa?

Não, nem ninguém pode estar. Foi traído o princípio fundador. Isto hoje tornou-se uma oligarquia financeira onde meia dúzia de burocratas querem comandar os destinos de várias nações e estados, com uma contradição- é que os estados assumem-se democráticos, os seus poderes são eleitos democraticamente, mas esses poderes não podem confrontar aquilo que são as instituições europeias, que não são eleitas democraticamente. A única coisa eleita é um parlamento que pouco mais é do que figurativo. As grandes instituições que comandam a Europa, a Comissão, o BCE, não são democráticos e configuram uma oligarquia dos burocratas que vivem de Bruxelas, para Bruxelas, se alimenta de Bruxelas e enriquece em Bruxelas à custa desta União, tendo como aliados os especuladores e o poder da finança.  Isto não tem nada a ver com o que Jean Monet pensou. Essa Europa morreu com a geração de Helmut Khol, Mário Soares, Felipe Gonzáles, Andreotti, Miterrand. Esses eram os grandes europeístas. Agora há uma loja de conveniência altamente especializada em espoliar povos.

Que papel podemos ter na Europa e no Mundo?

Devemos olhar para a Europa, mas também para os países de África e das Américas. Aliás eu julgo que a nossa política servil em relação à Europa resulta de nós termos amputado as nossas relações com outros. Não devíamos ter uma relação privilegiadíssima com um país tão perto de Portugal como é Marrocos? Ou com os países do norte de África onde vamos à pesca, como é o caso da Mauritânia? Não devíamos ter uma relação que não fosse só de aproximação tática com Angola e com Moçambique? Com São Tomé? Não devíamos ter maior intimidade com o Brasil e com os Estados Unidos – em que uma parte significativa foi construída por emigrantes portugueses, que têm hoje colónias significativas? Há muitos portugueses a exercer cargos relevantes no aparelho de estado americano. Este virar de costas a este mundo, o estarmos aqui encolhidos e servis à Europa não é o melhor caminho. (cmjornal.xl.pt)   

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