Espanha: O turismo que mata o turismo em Barcelona (vídeo)

400x225_310528Alexandra e Federica são peritas em fazer-se passar por turistas. Mas, na realidade, são nada menos do que detetives privadas. A missão que têm é muito específica: foram contratadas por proprietários que pretendem saber se os seus apartamentos foram subarrendados ilegalmente.

Estamos em Barcelona, uma cidade onde o turismo parece assumir uma dimensão desproporcional. Mais de 7,5 milhões de dormidas por ano – mais de quatro vezes a população local. Houve uma explosão de plataformas online de arrendamento de casas particulares, muitas delas sem licença para acolher turistas. “Aqui na porta está escrito ‘Advogados’. Mas não é verdade. É um apartamento com turistas. É possível ouvi-los a falar. Foi subarrendado”, revela Alexandra.

Aos 9 anos de idade, já ajudava o pai, Josep Maria, no trabalho de detetive, uma atividade que passa de geração em geração nesta família. Os problemas com o subarrendamento ilegal de apartamentos a turistas tornaram-se flagrantes em Barcelona há cerca de três anos.

Josep Maria e Alexandra já assinalaram mais de 400 casos de inquilinos que obtêm rendimentos avultados desta maneira. “O arrendamento ilegal de um apartamento pode render 25, 30, 35 mil euros por ano. Depende do tamanho do apartamento. Tudo sem impostos, claro, é um mercado negro. Durante as minhas investigações, encontrei uma pessoa que geria 50 apartamentos… Assim que denunciámos a situação, essa pessoa começou a pôr os pais e a namorada a tratar dos assuntos para dispersar a atenção sobre os seus negócios…”, conta Josep Maria.
A nova câmara está a fechar a torneira

As últimas eleições municipais levaram Ada Colau, um dos símbolos das plataformas “Indignados”, a assumir a presidência da Câmara de Barcelona. Colau decidiu alargar uma moratória sobre o licenciamento de alojamentos turísticos na cidade, congelando cerca de 30 projetos hoteleiros. Uma decisão audaciosa numa cidade onde 120 mil pessoas trabalham no setor do turismo.

David Riba dirige uma agência de arrendamentos. Começou nesta atividade há 10 anos, com apenas um imóvel. Hoje em dia, gere mais de uma centena. Segundo ele, o bloqueio de mais projetos de alojamento vai favorecer o surgimento de mais ilegalidades. “A nova moratória vai provocar o aparecimento de muitos mais apartamentos ilegais. Já vemos isso acontecer na parte velha da cidade, onde existe uma moratória há dez anos. O resultado é que há cerca de uma centena de edifícios vazios, sem qualquer uso”, considera.
Moradores à beira de um ataque de nervos

Os habitantes da zona de La Barceloneta têm estado no centro da revolta anti-turistas, sobretudo desde os excessos do último verão. Tornou-se célebre o caso do grupo de italianos que saiu pelas ruas como veio ao mundo.

Segundo as contas das associações de moradores locais, o arrendamento ilegal nesta área rende cerca de 9 milhões de euros por ano. E com isto vem o consumo exagerado de alcóol e outras substâncias, e a reputação de festa contínua. Tudo o que os residentes, como Manel Martínez, já não podem ouvir: “Eu tenho uma filha de 12 anos. Não gosto que ela entre nas lojas onde vai esse tipo de turistas, onde se vende alcóol sem qualquer tipo de controlo. Quando acaba a festa, eles andam por aí bêbados, por todo o lado, nas escadas, a fazer necessidades no meio da rua, a vomitar na paragem do autocarro…”

Barcelona tem quase cinco quilómetros de praia. Os resquícios de festa estão em todo o lado. Todos os dias são recolhidas mais de 2,5 toneladas de garrafas e latas. Pedro Sánchez Escalera trabalha como lixeiro. “Há situações que são estranhas, com todo o consumo de alcóol aqui… Há gente que não nos deixa limpar. Há os que ficam por aí deitados, completamente arrasados… Uns desmaiam, outros andam perdidos, outros choram, outros andam à luta…”, afirma.

Elizabeth Casañas fundou uma associação que reúne aqueles que arrendam apartamentos particulares de forma legal. Com todas as controvérsias, também eles estão a ser estigmatizados, apesar de, salienta Elizabeth, esta atividade ser uma bóia de salvamento para muitas famílias em situação precária. Ela sublinha que “tanto o antigo governo regional, como o atual, deixaram de atribuir as licenças para alojamentos turísticos. E isso tem consequências negativas para as famílias, para as pequenas empresas e para o emprego.”

Há mais oferta de alojamentos privados na internet do que quartos de hotel na cidade. O governo regional impõe agora que o arrendamento online seja sujeito a taxas. O número de ofertas em simultâneo passou a ser limitado.

A Casa Calico é uma loja de material de pesca foi fundada em 1850. Mas, em breve, vai fechar portas. Cada vez mais, o comércio tradicional dá lugar a espaços pensados para os turistas e cafés sofisticados. Daniel Calicó considera que “este bairro está a perder o seu encanto, a essência, as particularidades que tinha. Agora os contratos de arrendamento comercial têm de ser renegociados. Para muitas lojas, isso implica o encerramento, porque as rendas que passaram a pedir são muito altas. Estamos a falar de diferenças entre os mil e os 5 mil euros.”
Demasiado turismo mata o turismo?

Os gigantescos cruzeiros que aportam em Barcelona chegam cedo para despejar milhares de turistas na cidade, ávidos para ver rapidamente os sítios mais emblemáticos e depois regressar ao final do dia.

Será que demasiado turismo mata o turismo? É o que defende Núria Cuadrado, autora de um livro intitulado “O Sonho de Barcelona”. Nele argumenta-se que as desigualdades sociais e económicas nesta cidade estão a agravar-se, que a disparidade entre residentes e turistas também, e que o ponto de rutura está prestes a acontecer.

“Há cerca de 20 anos, na altura dos Jogos Olímpicos de 1992, Barcelona era uma das melhores cidades do mundo. Isso permitiu-lhe criar uma das marcas mais poderosas do planeta. Hoje em dia, Barcelona já não é uma das melhores cidades do mundo, mas continua a possuir uma marca muito valiosa. Mas essa marca está prestes a explodir”, afirma Núria.

Dentro de alguns meses, a Comissão Europeia vai apresentar um conjunto de normas no sentido de regular o arrendamento privado para fins turísticos. Será isso suficiente para fazer uma limpeza num setor tão abrangente? (euronews.com)

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