Entrevista a Adelino Caracol: ‘O actor chega a tirar do seu bolso para ajudar o grupo’

Adelino Caracol (Foto: D.R.)
Adelino Caracol (Foto: D.R.)
Adelino Caracol
(Foto: D.R.)

Adelino Caracol revelou ao SOL que a AAT vai realizar um censo para saber quantos actores de teatro existem no país e onde estão. O também presidente de um dos mais antigos grupos de teatro do país, o Horizonte Njinga Mbande, disse que a arte é praticada muito por amor.

Qual o estado do teatro em Angola?

Podemos dizer que está bem, está bem porque as pessoas existem, os grupos não morreram, apareceram duas novas escolas de teatro – a escola média e a superior –, por isso digo que está bem. O dia-a-dia do teatro, o mercado, os consumidores, os fazedores, a produção do teatro não vai tão bem, porque não faz acreditar que a breve trecho os actores de teatro terão condições para viver. Tenho dito que em termos quantitativos o teatro vai evoluindo, mas precisamos da evolução qualitativa.

Em média, quanto ganha um actor profissional de teatro?

O actor chega a tirar do seu bolso para ajudar o grupo, por isso é que a maior parte dos actores de teatro têm outras actividades, têm que ser professores, trabalhadores de outras instituições, para que possam suprir as suas necessidades e ainda contribuir nos grupos onde estão inseridos. A maior parte está mesmo no ensino, onde trabalham como professores de Língua Portuguesa, História e outras disciplinas teóricas.

É feito por amor?

Sim, em Angola ainda é feito por amor. Aliás, com muito amor porque o retorno financeiro não compensa o sacrifício de todos os dias.

Além do dinheiro, quais são as principais carências do teatro?

Precisamos de perceber que o teatro é uma profissão. Os actores têm que ser profissionais e isso passa pelo entendimento do que é ser artista. Fazemos teatro mas ainda é muito incipiente, não vamos ao fundo do que é ser artista.

A incompreensão a que se refere é dos actores ou da sociedade?

Parte primeiro dos actores. Se o actor não se objectiva é a mesma coisa que procurar algo que não sabe o que é. Sem a devida percepção, o actor não consegue crescer, sair de amador para profissional.

A Associação Angolana de Teatro (AAT) já ponderou propor o estatuto do actor de teatro, para ter alguma protecção do Estado?

Temos isso como ponto de discussão, partindo de uma experiência da União dos Artistas e Compositores (UNAC), onde trabalhei. Temos de inserir os actores através da UNAC ou da AAT no Instituto Nacional de Segurança Social, para que possam ser contribuintes e na velhice receber protecção social. Mas veja que tudo isso passa pela regularidade de produção, porque se o actor e os grupos não têm trabalho, dificilmente conseguem esse estatuto.

Existem muitos actores profissionais em Angola?

No que se refere a exercer a actividade teatral com alguma rentabilidade, acho que já existem alguns, mas não posso dizer que são muitos. O mercado que mais se abre é o dos colégios. Aí os actores têm uma profissão e a garantia de um salário mensal.

Tem sido difícil participar em festivais internacionais?

Até chegar lá é feito um percurso estimulante, mas sofrido. Há alturas em que recebemos o convite mas não temos o dinheiro para o bilhete. As hospedagens, na maior parte das vezes são responsabilidade do festival que convida, mas as outras condições devem ser garantidas pelos grupos e não há apoio institucional.

Não há apoio estatal regular?

O Ministério da Cultura facilita algumas coisas, mas do que precisamos mesmo é de apoio financeiro para suprir algumas necessidades. Isso não é concedido, nem em eventos internacionais.

AAT prevê realizar um censo nos próximos meses. Quantos grupos estão inscritos na associação?

Neste momento, a nível nacional, estão inscritos 107 grupos. É nossa tarefa primordial, para o mandato que iniciado no ano passado, fazer um censo para perceber quanto somos e onde stamos a nível dos municípios e comunas. A ideia é ter números concretos.

O censo já tem data?

Ao que tudo indica vai ser realizado nos próximos dois meses. Este censo vai tornar possível conhecer também as direcções dos grupos e os projectos.

Só há grupos experientes na AAT?

Há uma mistura entre experientes e amadores. Houve mais desenvolvimento quantitativo do que qualitativo e a associação aparece para equilibrar, com formações de curto, médio e longo prazo, de angolanos e estrangeiros.

Luanda é a província com maior protagonismo no teatro?

Sem dúvida. Podemos dizer que, do leque da actividade no país, Luanda tem uma representatividade na ordem dos 55%.

Como avalia o estado das infra-estruturas da actividade?

Não existem salas de teatro ou de artes em quantidade suficiente. Luanda vem crescendo a nível habitacional, mas não se está a pensar que essas pessoas precisam de lazer. Precisamos de ter mais salas, nem que sejam multiusos, desde que sejam bem equipadas.

Houve um crescimento do número de amantes de teatro?

Sim, as pessoas vão tendo a cultura de assistir a teatro. É importante que haja equilíbrio social, para que as pessoas tenham a cultura de assistir. Quando for possível as pessoas circularem com segurança e com transporte facilitado, com iluminação nos bairros, acho que vai haver maior adesão.

Incomoda-o haver muitos actores de teatro no audiovisual?

Pelo contrário, orgulho-me disso. Fico feliz porque começa a existir teledramaturgia, para nós é óptimo. Eles experimentam na televisão, no teatro e no cinema e podem optar. Faz-me espécie ouvir um actor dizer que ama o teatro, mas nunca experimentou fazer cinema ou novela. Acho que é bom experimenta. (sol.ao)

Por: Mário Domingos

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