‘Em qualquer esfera da vida, o poder é doce’

João Roberto Soki (OPAIS)
João Roberto Soki  (OPAIS)
João Roberto Soki (OPAIS)

Divide o seu tempo entre as Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto e da Católica, onde leciona a cadeira de filosofia. Ainda assim, João Roberto Soki não se descreve como um filósofo, porque nem mesmo Sócrates, o pai da filosofia, aceitou fazê-lo. Ele descreve-se como alguém que pode dar o seu modesto, à semelhança do que acontece com os outros homens, incluindo ‘os estúpidos’. Nesta conversa, em que o também membro da FNLA agiu «à filósofo», com mais perguntas do que respostas, ele falou do país, dos seus desafios e principalmente da educação. A única coisa de que tem certeza é que ‘a filosofia é uma ciência mal-amada em Angola’, porque ninguém está interessado que se ajude as pessoas a pensarem.

Qual é a importância que se dá a filosofia hoje?

Não sei se a conversa devia começar pela filosofia e sua importância. Se estamos a falar da ciência, a filosofia aparece como uma das ciências. Se é que consigo responder à sua pergunta, digo-lhe que por tradição a filosofia em Angola nunca foi uma pessoa amada. É um bocado complicado falar de filosofia em Angola.

Porquê ?

Primeiro porque parece existir uma ignorância de facto em relação à filosofia. E também porque é uma mal amada. Até porque, de facto, não exis­te uma filosofia angolana. Mas, como disse no princípio, o problema poderia ser visto no quadrante da ciência como um todo, onde a filosofia entra com uma particularidade. O ideal seria qual é o estado da ciência em Angola e dentro dela falar sobre o estado da filosofia.

Então, qual é o estado da ciência em Angola?

Este é o problema. Primeiro, o que é a ciência? Quais são as realidades concretas de Angola? Ou seja, nos pertencemos a uma realidade em que, primeiro por influência do colonialis­mo ou da ditadura colonial, herdamos dos portugueses a falta de liberdade. Onde não liberdade não há espaço para a ciência e para a investigação, porque a ciência só desabrocha lá onde o indivíduo tem a liberdade de pensar e de opinar. A liberdade de pensa­mento e de opinião permite o diálogo e a ciência por natureza é dialogante. As várias áreas cientificas e os investi­gadores depois de conseguirem os resultados entram em diálogo com os outros para intercambiar ou levar aos outros o que pensam, ou receberem o que se chama feed back, mesmo sob forma de crítica. Portanto, nós herda­mos esse défice do tempo colonial em que também por tradição do próprio Portugal não havia ciência. Vivemos o tempo que vivemos, a época pela qual passamos em que também não houve espaço para o desabrochar da ciência. Hoje tem-se feito esforço para os pri­meiros passos e nada mais. Não diria pessoalmente que a ciência ocupe um espaço. Há essa preocupação em se dar um espaço à ciência. Mas ainda parece estarmos a navegar no obs­curo. Vou ser sincero: isso para mim deve-se ao facto de o próprio Estado não ter nunca dado daquilo que queria ver como produto de investigação. Se o Estado não orienta, não ilumina é complicado, ficamos assim.

Vivemos hoje problemas políticos, sociais, económicos e tantos outros. Qual é a análise filosófica que se pode fazer desse período que esta­mos a atravessar?

Dá para exemplificar?

Fala-se da falta de valores na socie­dade. A nível político da perca de confiança em relação aos políticos e governantes. Que análise a filosofia pode fazer disso?

Primeiro que esses problemas são factos. Mas na minha leitura não são problemas exclusivamente filosófi­cos. São problemas que devem ser analisados ou pegando várias perspec­tivas possíveis. Nenhum problema filosófico é 100 por cento filosófico, há problemas sociológicos. Esses problemas são todos sociológicos, políticos, económicos. Em relação aos valores, há pouco disse que herdamos do colonialismo português a falta de liberdade e quando um individuo ou uma sociedade não tem liberdade, a sua perspectiva fecha-se, limita-se. Com o andar do tempo acaba-se por se cair no laxismo, no quoti­diano e banaliza-se a coisa. E pelas próprias contingências que o país viveu depois da independência não havia mesmo como desenvolver uma capacidade de pensar. Agora é que estamos a tentar. Mas o que descobri hoje é que a política ou o que se pretende que seja a políti­ca sempre tomou em relação ao resto. E isso. embora seja geral em África, é o que parti­cularmente matou a ciência, porque tudo é ou tem que se vis­to na perspectiva política. A política tem tendência a limitar.

É o que se passa concretamente em Angola?

É geral a África.

Mas no caso de Angola, a política está a matar a ciência?

Se o indivíduo não tem liberdade de expressão, como é que vai pensar? Se um indivíduo não tem liberdade de pensamento, como é que se vai exprimir? A ciên­cia é a expressão da liberdade. Só faz ciência quem é livre de pensar.

Não há liberdade de pensamento ou de expressão no país?

Primeiro, quem é que tem a liberdade de dizer a verdade resultante das

suas investigações? Todos nós nos sentimos limitados, ninguém quer ter problemas, principalmente com as autoridades. Porque é que tenho que arranjar problemas em dizer o que eu penso, ou que encontrei um resultado nas investigações, se de antemão já sei ou percebo que isso vai entrar naquele problema. Vou-lhe dar um exemplo simples: já fui professor de história du­rante um certo tempo, mas o angolano o que é que sabe da sua história ou de Angola?

O que é que o angolano sabe da sua história?

Eu diria facilmente que o angolano não sabe nada da história dele. O que o angolano pensa ser a sua história não passa de propaganda. Ora, a propa­ganda ou se quisermos a ideologia é oposta a ciência. Primeiro, a ideologia mata a liberdade e o espírito crítico, porque sempre exige a fidelidade. Há um pensamento traçado. É assim que quando a gente tenta falar em factos que têm a ver com a memória colectiva, até o próprio estudante durante estes anos todos não ouviu outra coisa senão feitos ide­ológicos, que a gente confunde com a história. Quando a gente tenta falar, por exemplo, de uma outra forma da Nzinga Mbandi ou de Agostinho Neto, é tendência do angolano que se revolte todo. O que é que sabemos de Nzinga Mbandi e de Agostinho Neto, para além daquilo que a informação oficial nos diz? Estás a ver o problema. Se sobre a própria história, que é memória colectiva estamos acanhados em ouvir os pontos de vista diferentes ou não conforme os cânones oficiais, como é que vamos estar abertos a outros por

exemplo a outros pormenores, con­versas ou outro tipo de diálogo?

Não estará a dizer que a nossa histó­ria tem sido falseada?

Não disse isso. Eu disse no princípio que infelizmente o aspecto comum ou particular ao continente africano, em que Angola não faz excepção, somos muito influenciados pela política. Tudo vai medido em função da política. Quando a política se mete em campo, fora da política, a tendência é de não produzir ou produzir resultados que não sejam conforme se esperam.

Porquê razão é que os africanos têm este modelo de pensamento?

Eu não sei dizer. Convinha pergun­tar aos africanos.

O professor é africano ou não?

Todos nós somos. É uma consta­tação dos africanos e exclusivamente minha. Agora, porque é que o político africano é assim, talvez todos nós nos devamos perguntar, indepen­dentemente da área de interesse de cada um. Ou cada um na sua área de interesse procure saber o que se passa, porque é isso que matou a ciência. Nos países onde havia ou há uma certa tradição de investigação científica, constatamos que os verdadeiros pen­santes acabam por sair, emigrar. Ou arranja problema com a classe políti­ca, e muitas das vezes são problemas que não têm a ver nem com a ciência nem com a política, ou nos calamos ou alinhamos. Resumindo, não há espaço para se fazer uma verdadeira ciência porque a classe política não define ainda as regras do j0go relativo à investigação científica.

Já se viu numa situação destas em que teve de calar para não ser mal visto?

Não é preciso que pessoalmente nos vejamos nesta situação. Basta ver o que acontece com certos colegas. Tem que ter uma certa idade como a minha e se lembrará de como é que no partido único alguns professores foram presos pela Segurança do Es­tado por terem dito uma certa coisa. Um aluno foi apresentar como uma ofensa. Se vejo o colega que é profes­sor desta forma, com que coragem é que eu ia depois continuar?

Está a falar do tempo do partido único, mas já vivemos 13 anos de paz. Não é diferente agora?

É verdade que estamos há 13 anos de armas caladas, porque a paz a paz não é necessariamente o calar de armas. Há países que não conhecem uma guerra tradicional, mas de facto

não têm paz.

Não é o nosso caso?

Primeiro, uma coisa é alcançar a paz das armas e a outra é libertar os espíritos. Será que durante estes 13 anos o angolano realmente está reen­contrado e reconciliado consigo pró­prio? Primeiro é que é uma cultura. Veio-me agora a música do Yannick, que desconheço o título, mas em casa toca porque o miúdo pediu-me para comprar o disco. Na música ele diz que não devemos dizer que Angola não mudou, porque nós os angolanos é que temos que mudar. O calar das armas é um facto. Será que nestes 13 anos somos receptíveis a ouvir e a escutar conversas de diapasões dife­rentes? Qual tem sido a nossa reacção perante as outras pessoas que pensam diferentes de nós? Este é o problema. A guerra durou tanto tempo, quase 30 anos, deformou o angolano e essa recuperação não é nada fácil. Quando fez referência a questão dos valores, eu me pergunto ultimamente o que é o valor? Até calou um bocadinho, mas houve um tempo em que se badalou a música recuperação dos valores. Mas, valores o que é? É uma conversa de políticos? Está a ver porque é que disse que a política falseia muitas das vezes e impede o raciocínio. Porque a política com base na ideologia ou com um outro tipo de método que não vai de encontro com a ciência. A política exige adesão e a adesão não deve ser discutida, temos que aderir a uma causa. O homem da ciência tende sempre a pensar como Descartes, a duvidar de tudo. Então, por defeito de formação tenho ten­dência de perguntar. Estamos a falar de recuperação de valores, primei­ro: o que são valores? Segundo: quais são os valo­res que conformam a angolanidade? Quais são os valores que os angolanos pretendem recuperar? Se não me dizem o que são os valores e quais são os que pretendemos recuperar, onde e quando os perdemos, se é que alguma vez os possuímos? Estás a ver que o discurso não é nada fácil. Para uma campanha política ou eleitoral funciona.

Acha que o movimento que houve de recuperação dos valores morais e cívicos seguiu apenas pressupostos políticos?

Politizou-se o problema. Ficamos depois sem saber o que se produziu da tal necessidade de se recuperar os valores.

Como é que se poderia fazer esse tra­balho de recuperar moral e mental­mente os angolanos depois do longo período de conflito que vivemos?

Como é que vai falar de valores se eles resumem-se a valores morais e éticos. Acontece que a moral tem a ver com o individuo para consigo próprio, ao passo que a ética tem a ver com as relações do indivíduo para com a sociedade. Agora, onde é que intervém a política? Talvez no segundo elemento. Será que o Estado é a pessoa inicialmente indicada para tratar da questão dos valores. Para mim, a questão de fundo é: de que valores queremos tratar? Porque dis­cursos todos nós fazemos. Queremos tratar dos valores que conformam a angolanidade. O que é a angolani­dade? Falar de valores é fácil, mas se passarmos à prática tocamos na questão da angolanidade. O angolano está preparado para debater a si pró­prio. Se nós ignoramos, desconhe­cemos a nossa história, como é que vamos debater a nossa identidade? Porque são problemas que desagra­dam certas pessoas. Desagradam não só porque os conhecemos, mas porque nos alarma simplesmente. Ninguém está aqui a dizer que a problemática da recuperação dos valores não deve ser ou que é nega­tiva. É um facto porque um país que viveu quase três décadas de guerra civil, mas já desde 1961 que Angola empenou.

O que é a angolanidade?

Este é um conceito muito compli­cado, mas até aqui não há consenso. A palavra foi lançada. Mas houve recepção que permitisse os angola­nos reflectirem e cada um dar a sua ideia de angolanidade? O problema está aí. O angolano foge sempre do próprio passado. O que se coloca aqui é um problema de identidade. Somos angolanos sim, mas o que significa ser angolano? Primeiro, o Estado devia dizer o entende por ser angolano. Com base neste projecto do Estado vamos trilhar o caminho. Ou melhorando, ou discordando ou enriquecendo. Será que os angolanos já estiveram dispostos a assumirem e a reconhecer-se como angolanos. Por isso, quando me perguntou em que pé está a ciência, eu lhe disse que não vejo ciência em Angola. Porque onde não há capacidade de diálogo, espírito crítico, como é que vamos ter ciência?

É possível misturar a política e a ciência?

São duas coisas opostas. Pri­meiro, o que é a política? Vamos desviar a conversa e entrarmos num tema mais complicado. A política é ciência ou não? Desde que o mundo é mundo e surgiu a ciência, sempre se colocou essa pergunta. A política é o quê? Aristóteles diz que é a arte de gerir os homens que vivem em sociedade. Só que antes de Aristó­teles já houve várias definições de política. É o quê afinal? Vamos supor que a política seja ciência: então como é que se explica que gente que era analfabeta como Nzinga-A-Nkuvu, Njinga Mbandi, Chaka Zulu e outros eram analfabetos e governa­vam? Se a política é ciência de facto, como explicar que um homem como (Adolf) Hitler, expulso da escola, re­negado porque os professores acha­ram que não valia nada e chamaram a mãe porque não cabia nada na cabeça dele. Mas foi um grande líder político. Em contrapartida, como entender que muitos intelectuais e cultos chumbaram. Mas, o facto é que a política tal como a entende­mos não é ciência e a ciência não é política. Há uma política científica e o Estado tem que ter uma sua política da ciência.

O Estado deve definir que tipo de ciência quer e o que é que espera da ciência. Agora, a ciência não tem que fazer política. É verdade que não é possível a 100 por cento separar a política das outras coisas. Há um ditado que diz que se não fazermos política, a política nos faz. É que a política por natureza é invasiva, porque tem a ver com a vida das pessoas. A vida das pessoas pode ser gerida de vários pontos de partida. É tendência natural que a política tem de invadir todos os horizontes. Todos os parâmetros da vida do homem. Mas isso não lhe dá autoridade de realmente fazer isso.

A política tem sido invasiva em Angola?

Qual é a actividade que não é polí­tica? Se o desporto absorve dinheiro dos contribuintes. Não é política? O Estado deve ter uma política des­portiva. Definir que tipo de desporto quer e o que é que espera dele. Des­porto não é só mobilizar as massas ou a juventude para ir aplaudir. Por essência não é política, mas tem muitas implicações políticas.

Essa política no desporto permite que se leve bandeira de partidos políticos nos estádios?

Isto é politização do desporto. O problema é que o Estado deve definir e apresentar o projecto que tem em cada área de vida humana. Deve apresentar o seu projecto de sociedade. O que é que o Estado espera numa determinada área? No Desporto, no Ensino. Por exemplo, quantos quadros e professores quer? Se o Estado não define o tipo de educação que quer ver no angolano, como é que vamos falar de educa­ção.

Temos um plano de formação de quadros. Não ouviu falar?

O senhor Dani Costa sabe o que reza o tal Plano Nacional de Forma­ção de Quadros?

Sim. Vocês não conhecem o conte­údo?

A educação não é um problema exclusivo do professor. O professor é técnico capacitado para concretizar esse projecto. E a família? Primeiro exigisse que o Estado indique o que é que quer e espera da educação. Depois quem de direito vai intervir com a parte técnica. Porquê é que se exige e se fala muito da comissão dos pais? Tem de haver um intercâmbio permanente entre a escola que for­ma, instrui e a família. Normalmen­te, nós os pais, independentemente de outras situações que possamos viver, só nos preocupamos com a educação dos nossos filhos no fim do ano, porque o filho reprovou. Mas, durante o ano, que acompanhamen­to dos pais fazem? O problema é que na maioria das situações a gente não tem balizas que possam guiar. Falou-se ultimamente da reforma e muita gente a dizer que não presta. Mas não presta porquê? Eu pessoalmen­te não estou em condições de falar porque não acompanhei de facto, do ponto de vista da concepção e dos debates, mas muitas vezes pergunto e as pessoas dizem que não presta por causa da monodocência. Mas monodocência é o quê? É a palavra que lhes preocupa? Ao fim ao cabo apercebo que está a falar de mono­docência sem saber o que significa. Monodocência é simplesmente o facto de educação a nível do ensino primário ser assumida por um único professor.

A olho nu os resultados da reforma são satisfatórios?

Como é que o povo avalia a satis­fação ou insatisfação? Eu não posso falar de coisas que não entendo.

Não tem mantido contacto com jovens que vêem deste processo de reforma?

Trabalho sempre com jovens.

Qual é o nível de conhecimento e de aprendizagem destes jovens?

Mas o problema está na reforma ou é do sistema? O nosso problema em Angola é que temos sempre que aprender. Temos que fazer esforço de destrinçar a forma do conteúdo. A falta de qualidade no nosso ensino, se assim podemos dizer, vem da reforma ou é anterior? Temos que ser realistas e admitir porque estamos a tratar das nossas vidas. Não esta­mos a falar de outro país, estamos a falar de Angola. Mas um país que, se juntarmos a luta de libertação, vem de 50 anos de guerra, vai ter um ensino estruturado? É injusto demais abonar todas as responsabilidades à reforma.

Aliás, este é um outro problema de politização. No quadro do ensino, a reforma é uma coisa normal e auto­mática, porque a ciência é dinâmica. Não é preciso fazer um alarido polí­tico sobre a reforma, porque a edu­cação e o ensino vai-se reformando em função da ciência. Um exemplo prático: quando éramos miúdos, entramos para o liceu, na primária os nossos professores diziam que 1-2 era impossível, porque a nível de uma criança não tem outra forma de compreender isso. Se nos dissessem que 1-2 = -1 era uma confusão. Eu disse uma vez ao meu irmão quando veio do primeiro ciclo que 1-2 o pro­fessor diz que é impossível. Ele disse que o impossível não é matemático. Eu disse: então o teu professor é burro. As crianças de hoje estudam as equações, mas no nosso tempo era do programado, do 5º e 6º ano do liceu. Porque é que agora na terceira e na quarta classe se estuda as ine­quações? Porquê a ciência matemá­tica evoluiu de modo tal que até uma criança deste nível percebe, que no passado era matéria de um jovem de nível avançado. Portanto, a refor­ma, como disse, não é uma questão política, mas sim técnica. Bastaria só dar um pouco de liberdade a área da educação, a investigação, para o professor depois ir doseando.

Como é que são vistos os filósofos em Angola?

Mas Angola tem filósofos? Eu não conheço. No sentido restrito não conheço. Filósofos são todos os ho­mens no sentido lato, mas no sentido técnico não conheço. Nós angolanos somos especialistas em tudo. Somos todos doutores, psicólogos, porque estudamos.

Qual é o espaço daqueles indivíduos ou pessoas que são formadas em filosofia? Fala-se em associação de juristas, advogados, economistas, mas não há uma de filósofos. O que se passa?

Essa pergunta não cabe a mim res­ponder, porque não sou filósofo. Sem falsa modéstia e com todo o respeito, eu não sou filósofo. Depois, uma pessoa pode-se dizer economista, jurista, psicólogos, mas essa coisa de se dizer filósofo não é nada fácil.

Porquê?

Pela natureza da própria filosofia. É o que a filosofia? Para você sentir que é um tal filósofo. Não é porque você leu. Filósofo não é aquele que estudou, nem é jurista aquele que es­tudou direito. É jurista quem pratica e exerce o direito. Porque se eu estudei e nunca pratiquei que experiência tenho. Sou formado em direito, mas se não pratico não sou jurista. Não confundamos as coisas. Pretender ser filósofo seria a principal falta de respeito consigo próprio. O famoso Sócrates nunca disse que era filósofo. Os outros, fora de Atenas ainda, é que disseram que na Grécia toda não há um homem mais sábio que Sócrates. Sócrates alguma vez disse que era filósofo. Ele dizia que não sei de nada.

O professor também se descreve como alguém que não sabe nada ou uma pessoa com ideias para con­tribuir para o desenvolvimento da sociedade?

Todos nós temos. Quem é que não tem nada a oferecer? Todos temos algo a oferecer ou a receber. Até o aparentemente último dos estúpidos nos ensina alguma coisa. Aquela estupidez nos ensina.

Qual poderia ser o contributo da filosofia para o desenvolvimento da nossa sociedade?

Eu perguntaria: porquê é que a filosofia é a mal amada das ciências? Talvez o discurso começa-se por aí para tentarmos perceber qual será o contributo. Porque sei que a filosofia não é amada.

Porquê é que não é amada?

É isso também que procuro per­ceber. O que sei é que não é só em Angola. Mas, particularmente em Angola, a filosofia é mal-amada. Em Angola falar de filosofia põe as pes­soas… O que sei é que filosofia ensina as pessoas a pensarem e a aprender a pensar. Quem é que quer ver as pessoas a pensarem de facto?

Não se quer que as pessoas pensem no país?

Não é só no país.

Mas o que é que se passa concreta­mente em Angola?

Se gostassem de mentes pensantes, vamos voltar à história, porque é que assassinaram o velho Sócrates, de 82 anos? Quem quer ver as pessoas a pensarem?

Houve em tempos um Círculo de Filósofos de Angola (CIFA). Já ouviu falar neles?

Mas, oh Dani, quem deu o cartão de filósofos a esses senhores para eles se identificarem com tal? Desculpe-me, mas me parece que há uma falta de seriedade. Ser filósofo não é uma questão de diploma. Se não basta estudar direito para ser jurista, porque o direito desemboca em várias profissões. Há quem estudou direito e acaba no jornalismo. Há quem estudou direito e acaba na política, outros na magistratura. Há quem foi fazer outra coisa. Se mete por exem­plo na docência ou em algo que não tem a ver com o direito. Que jurista é? Só porque estudou medicina ou enfermagem e nunca aplicou uma injecção, é médico? Em relação à filosofia pior ainda.

É o caso das pessoas que estudaram filosofia em Angola?

O que quero dizer é que não basta apenas ter estudado a filosofia para se ser filósofo. Porquê depois vão-lhe perguntar o que quer dizer ser filósofo? Depois daí a conversa mudou. Então se o país da filosofia, que a humanidade conhece como tal, o chamado Sócrates, nunca se identificou como filósofo, isso é complicado. Primeiro, como é que surge o próprio termo filosofia ou filósofo? De um grande pensador e geómetra: Pitágoras, que dominava uma série de conhecimentos para além da filosofia, geometria e mate­mática. Ficou famoso por causa do tal teorema de Pitágoras, que até hoje dá dores de cabeça. Por ter sido tratado de filósofo por um rei até, que ouviu a fama, mandou chamá-lo e exclamou: ‘então, o senhor Pitágoras sabe’. Ele disse: ‘sua majestade desculpe, apesar do respeito que lhe devo, mas não sou sábio’. Aquilo parece ser falta de respeito, rebater um chefe, um rei. Mas Pitágoras sacudiu logo e o rei pensou que só poderia estar a zom­bar. Então com tanto conhecimento que o senhor tem não és sábio? Ele disse que não, que talvez seja amante da sabedoria, alguém que anda à busca da sabedoria. Se a filosofia é a busca permanente da sabedoria, quem é o sábio ou que está em altura de se identificar como sábio?

A política em Angola é feita com sabedoria?

Que eu saiba a política sempre deve ser feita com sabedoria.

Deve ser feita ou é feita em Angola com sabedoria?

Quando digo deve é porque é uma obrigação da política. Por isso que a política não é apenas ciência, entra é um bocadinho de ciência. Achas que a política é uma ciência? Vamos recu­ar na história e pensar porquê é que Platão, uma mente sábia, teve três tentativas e três chumbos. Escapou de ser morto. Qual é o intelectual que realmente fez carreira política? Em contrapartida gente analfabeta como Chaka Zulu, Nzinga-A-Nkuvu, Njin­ga Mbandi fizeram sucesso. O Lula da Silva aprendeu na escola da vida. Duvido que daqui a 20 anos apareça um presidente no Brasil que faça melhor que o Lula. Como explica que os intelectuais, como o predecessor de Lula, Fernando Henrique Cardo­so, um professor catedrático, nem conseguiu fazer um décimo daquilo que Lula fez? Isso se é que a política é ciência.

Como é que se entende este parado­xo?

Este é o fundo o problema, para o qual todos somos chamados a reflectir. Porque é que as pessoas mais instruídas, mais cultas, são as que sucumbem? E as pessoas aparente­mente sem créditos de intelectuali­dade conseguem. Isso é que nos leva a reflectir se a política é ciência. Se a política é ciência, porque é que a gente fala para as massas? Elas têm diploma de quê? Elas não percebem nada. O homem das massas é prag­mático. Quem andou na escola tem uma definição de política. Achas que quem não andou na escola não tem uma para ele? Se lhe resolver os interesses dele vai dizer que é boa coisa. Se não, o contrário. Qual é a ideia que o p0vo tem associado à política? Eles acham que a política é mentira. Porque os políticos não resolvem os problemas elemen­tares. Não precisamos de ir longe. Vamos pegar o caso de nós mesmo os luandenses. Qual é o luandense que não é político? Se a EDEL nunca dá luz a ninguém. A EPAL nunca fornece água. Se o engarrafamento nunca tem solução. Cobram taxas de circulação, mas em vez de estradas tem valas. Resmunga quando a sua viatura, que conseguiu dificilmente, embate. Como é que a gente pode dizer menino não fala política? Só o dizer que não fala é porque já é política. Afinal política é o quê? É a procura de soluções para o cidadão. Mas para dar solução é preciso ser phd ou mestre?

É possível fazer-se política com ética?

Primeiro, uma coisa é falar política enquanto se faz política, a outra é falar de política enquanto observador de política. É como quando estamos a assistir o jogo. Gosto muito do programa Treinador de Bancada. Na bancada todos nós somos treinadores técnicos e tácticos. Entra só aí um se­gundo se a língua não caí. Uma coisa é estar no campo. Agora se partirmos do princípio genérico de que antes de mais pretendesse que o homem seja um ser racional, isso quer dizer que tudo que ele faz, mesmo na brinca­deira, deveria ser submetido ao crivo da razão. O homem em toda a sua actividade deveria deixar-se guiar pela razão. Mas, de facto, ele deixa-se guiar pela razão ou é mais a emoção, o sentimento e a paixão que guia ele? Estou a fazer perguntas, as quais es­tou a responder directamente e outras não. Aqui voltamos ao problema dos valores. Normalmente, o homem deixa-se conduzir pela paixão e pelo sentimento.

As promessas feitas durante as elei­ções são feitas em função da razão ou da emoção?

Não saberia responder a essa pergunta, porque deveria ser direc­cionada a quem faz estas promessas. Mas há um facto que é verdade: é que quem vende deve promover o produto.

Mas deve promover bem ou mal?

A valoração é da responsabilidade de quem compra. Não é de quem vende. Imagine que me venha dizer professor Nsoki ‘o Novo Jornal não vale nada’. Está a promover ou a des­promover a qualidade do produto?

O jornal que lhe está a entrevistar é O PAÍS. Os nossos colegas do Novo Jornal podem não gostar da compa­ração.

Desculpe. Faço sempre confusão (risos). Se você faz parte do projecto, dá uma imagem destorcida, está a promover ou despromover? Está a despromover. Mas no caso concreto, o que nós gostamos muitas vezes é responder aquilo que não nos é pe­dido. A quem é que o político vende o projecto? Ao eleitorado. Agora se o político está correcto ou errado, quem deve ajuizar é o eleitorado. Ninguém vende sem promoção.

A ética na nossa política?

Por defeito de formação fica-me difícil responder redondamente, porque temos que dizer às pessoas o que é a ética? Com base em que é que vou ajuizar se é uma coisa que não sei. Ao menos que o senhor Dani Costa me clarifique o que é a ética. Senão fica difícil. Mas eu responde­ria que a ética está sempre presente na política. Agora, se é positiva ou negativa, isso é valoração. E é outro problema.

Mas é positivo ou negativo?

É outro problema, não compete a mim dizer. Faço o esforço de me colocar sempre na posição de obser­vador, para tentar perceber e estar em condições de dizer algo.

A forma como muitos líderes africanos fazem a política é a mais adequada?

Qual é a forma de política dos africanos.

Muitos líderes africanos são acu­sados de se querem perpetuar no poder?

Esta não é só a lógica do africano. Infelizmente é a atitude do homem.

É verdade ou não que vemos com maior relevância em África?

Sim, infelizmente vê-se mesmo mais no negro. É um facto. E sou crí­tico a esse aspecto, não posso con­descender. Mas também temos que ser claro, não é exclusivo ao africano. Isso faz parte da natureza humana, senão a democracia teria surgido desde o princípio da humanida­de. Porque é que só surgiu agora? Agora, que um dirigente pretenda perpetuar-se no poder não significa que ele não pense. Se não pensasse como é que ele queria perpetuar-se no poder. O poder é doce. Em qual­quer esfera da vida, o poder é doce. Não sei quais são as vossas funções na vida laboral. Você como chefe de redacção foi lá parar por nomeação, mas mostrou créditos de que está a altura. Exerce um poder porque co­ordena o trabalho. Se for exonerado quando menos espera vai-se sentir bem? Não. Enquanto sentirmos que temos algo a dar, o poder tem destas coisas. Mas tem outro aspecto.

Qual?

Um outro aspecto que não é exclu­sivamente africano é que quando se assume cargos políticos de alto nível sobretudo, nós vivemos às custas dos outros. E quem não quer viver às custas dos outros. Para mim, o problema dos africanos é que nunca colocamos a questão do pós-man­dato. Vou dar um exemplo: Barack Obama e a esposa são professores universitários. É jovem. Próximo ano termina o mandato com 55 anos e tem muito para dar. Será que con­vém que um ex-chefe de Estado vol­te a trabalhar? Primeiro, por razões de segurança é detentor de segredos do Estado. Já não deve fazer tudo que lhe apetecia ou voltar a fazer o que fazia. Conclusão: o que assumiu a magistratura suprema, o Estado deve garantir-lhe uma reforma vitalícia. Ultimamente até já não sinto prazer de estar a ler uma série de coisas, mas do pouco que tentei ler ou per­ceber, para compreender um pouco das constituições de países africanos, nenhum dos países africanos define esse parâmetro.

Os receios do pós-mandato estarão na base de muitas coisas que aconte­ce em África?

Não excluo.

O africano é solidário?

O africano por natureza é soli­dário. Agora se me perguntar se o africano é sempre solidário? Vou-lhe dizer que não. Quando me falam de África não vou directamente no citadino, no homem evoluído e ocidentalizado.

Há muitas diferenças?

Tem graça que sou da província. Muitas das vezes tenho dito que sou ‘matumbo do mato’.

‘Nem um maluco diria que a FNLA é um partido saudável’

O senhor é militante da FNLA. Como é que vê a situação do seu partido hoje?

A situação da FNLA é aquela que as pessoas conhecem. Primeiro, sem ilibar a parte dos militantes, as responsabilidades que lhe incum­bem, é sempre aquela visão de se meterem ou falarem onde não são chamados. A situação da FNLA não é nada boa. Nem um maluco diria que a FNLA é um partido saudável. Porque a tal de crise já durou tempo demais.

O congresso da reconciliação não conseguiu sanar todas as divergên­cias?

Os congressos nunca são ponto de partida na vida dos partidos. Ao contrário do que as pessoas pensam, os congressos são pontos de chegada.

Foi uma má ideia realizar um con­gresso de reconciliação?

Reconciliação de quem? Porque é que temos essa crise que dura a tanto tempo? Não haveria con­gresso nenhum. Aquilo nunca foi congresso.

O que é que foi?

Desculpe a expressão, e é triste dizer isso porque sou militante da FNLA, aquilo não passou de um carnaval para provar a certos secto­res o improvável.

Estavam conscientes de que o con­gresso não daria certo?

Desde que esse movimento começou há 18 anos, quem é que já assistiu a uma manifestação do Lucas Ngonda com os militantes da FNLA? Quem é que já assistiu a uma actividade política de Lucas Ngonda a nível de Luanda? Lucas Ngonda fala nas conferências de imprensa. No caso concreto da FNLA, nós angolanos gostamos de ser diferentes. Somos atípicos em tudo. Mas o que é atípico dá inter­pretações e conclusões atípicas.

Dizia-se que havia necessidade de reformas na FNLA. Concorda?

Como é que nasce o caso FNLA? O que é que diziam uns e outros? Qual é o problema de facto? Há vio­lação das regras de jogo por parte de um elemento.

Quem é o elemento que violou?

É o Lucas Ngonda. Toda a so­ciedade, independentemente da sua natureza, é gerida por regras.

No caso de país é a Constituição e nos partidos ou empresas são os estatu­tos. E o estatuto prevê mecanismos internos de auto-regulação destes conflitos. Quando a nível interno um partido não consegue resolver, então pode-se fazer recurso ao Estado. Por­que o estatuto não pode estar acima da Constituição do Estado. Então, eu que sou simples docente da universidade católica, porque bebi quimbombo ou kaporoto, acordo e digo ao ar livre que sou o reitor, e aparece o ministro do Ensino Superior a dizer que o professor Nsoki é o reitor. Não estamos a ver que aqui há uma falsificação de elementos e da verdade.

É o que aconteceu com a FNLA?

É o problema de fundo. E o Tribunal Constitucional infelizmente deu o dito pelo não dito.

Por quê?

Isso compete ao Tribunal responder. A verdade é que quando o Tribunal Supremo tratou do caso FNLA em 2008, o tratou nas vestes de Tribunal Constitucional. Quer dizer que é o Tribunal Constitucional que resolveu o problema. E o conflito da FNLA que acabou na justiça foi tratado no Tribu­nal Constitucional, ou no Supremo nas vestes deste, o que não muda nada. Transitou em julgado, o que quer dizer que foi encerrado. E ponto final. O que quer dizer que a tentativa de recurso de Lucas Ngonda não foi aceite. Isso é que permitiu a FNLA participar das eleições de 2008. Um ano depois, sem que lhe seja pedido, o Tribunal reabre o processo que transitou e foi encerrado. Reabre com todos os ví­cios e reintroduz no conflito alguém que não era parte. Se foi resolvido em 2008, quer dizer que Lucas Ngonda já não era parte do conflito. Se o conflito tinha permanecido, era a reclamação do professor Carli­nhos Zassala a eleição do engenhei­ro Ngola Kabangu, no congresso de 2007. O Lucas Ngonda não era parte. O pedido de impugnação do professor Zassala não tinha nada a ver com Lucas Ngonda.

Então é tudo culpa do Tribunal Supremo?

Vou-lhe revelar um dado que é desconhecido da maioria: quando o Tribunal Constitucional, temos o documento, na acareação do pedi­do de impugnação do congresso de 2007 viu que já demorou tempo de­mais, deixou passar o 2008, o juiz-presidente emitiu um despacho, no qual afirmava, taxativamente, que ‘pese embora a existência de um processo que corre os seus trâmites, a direcção da FNLA liderada pelo engenheiro Ngola Kabangu, saída do congresso de 2007, é a única aferida e autorizada a representar legalmente o partido FNLA’. O que isso significa? Depois, em 2009, no dito processo de acareação das partes do Tribunal Constitucional convoca o Dr. Carlinho Zassala (que era o queixoso) e põe como observação (que na minha lógica aparece como intimação), fazer-se acompanhar do professor Dr. Lucas Ngonda’. Isto está em documentos assinados e temos cópias. Como é que uma pessoa que não é parte é convocada a fazer parte de um processo de acareação. Aliás, é condição para acareação. Por outro lado, o famoso acordo 109 resolveu ou piorou o problema? O problema da FNLA é político ou jurídico?

O problema é político ou jurídico?

Para além das implicações jurídicas, o problema é político. Quando começou o tal movimen­to no dia 27 de Janeiro de 1999, o falecido presidente Holden Roberto escreve ao procurador-geral da República, na altura o Dr. Culolo, a pedir que o Estado através da Procuradoria-Geral da República apreciasse o movimento de revolta interna, até hoje essa carta não recebeu resposta. (opais.co.ao)

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