Dom Caetano: “É impossível viver da música enquanto não houver retorno dos direitos autorais”

Dom Caetano, artista angolano. (Foto: D.R.)
Dom Caetano, artista angolano. (Foto: D.R.)
Dom Caetano, artista angolano.
(Foto: D.R.)

Na entrevista que se segue, Dom Caetano, um dos ‘operários’ da indústria do Semba há 42 anos diz que, apesar deste tempo de carreira, ainda não pode viver somente da música

Dom Caetano está no mercado da música há mais de 40 anos. Vive da música?

Não. É impossível viver da música enquanto não houver rendimentos em termos de direitos autorais. Acredito que quando os músicos puderem ter os resultados daquilo que produzem, em termos dos seus direitos, aí sim poderão viver dela. A música tem rendimentos, mas não podemos afirmar taxativamente que se pode viver da música e sim subtrair subsídios que nos ajudam a viver.

A União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC-SA) tem ajudado a defender os direitos autorais?!

A UNAC está constituída agora em Sociedade de Autores, condição que vai ditar regras no mercado, em termos de comportamentos dos usuários como a rádio, televisão, discotecas, restaurantes, os Dj’s, que são pessoas que têm no seu trabalho a música. Se com base nas normas estas instituições derem um subsídio por consumirem as nossas músicas, será uma mais-valia para os músicos.

Tem conhecimento de resultados alcançados pela UNAC-SA?

Muitos casos do género têm surgido no Gabinete Jurídico da UNAC-SA, mas não tenho conhecimentos que se vejam em relação aos resultados alcançados.

Qual é o seu cachê?

Os cachês são contratos. Pelo que não é ético a sua divulgação. O valor depende em larga medida do nosso interlocutor que pode ser uma pessoa ou uma empresa. Varia de actividade para actividade.

Para além da música qual é a sua outra fonte de rendimento?

Para além de cantar sou assalariado. Sou funcionário público, junto da Banda Movimento da Rádio Nacional de Angola (RNA). Ali faço parte do Gabinete de Marketing cujos rendimentos resultam nomeadamente da realização de espetáculos e promotoria. Neste gabinete, a Banda Movimento tem ainda por tarefa renovar os spots musicais e outros valores que se produzem na produção promocional bem como na divulgação de programas da RNA.

Que ganhos é que a música lhe proporcionou?

Para além de ter sido uma escola de vida, ganhei muita experiência como compositor e como músico. Essas experiências reflectem-se na minha produção. Outro ganho tem a ver com a possibilidade de poder indicar a nova geração o caminho para uma produção profícua daquilo que é a produtividade dentro da produção artística. À conta disso, recebo um subsídio considerável. Ademais, produzo ainda trabalhos de assessoria para a criação de pequenas e médias empresas. Por igual, presto assessoria de cariz cultural a várias associações públicas. A renda gerada pelo trabalho de assessoria confere- me uma certa sustentabilidade financeira que me permite a mim e a minha família viver com folga.

Os músicos da antiga geração recebem algum apoio do ministério da Cultura?

Se o ministério da Cultura não tivesse feito nada para que os músicos hoje tivessem mais ou menos algum rendimento, talvez não fosse correcto dizer isso. É preciso ver que o ministério da Cultura por si só não pode mudar muitas coisas. É preciso que haja iniciativas da parte dos produtores de cultura para que o ministério se sinta na obrigação de comparticipar no trabalho dos artistas.

Como avalia os incentivos da Cultura aos artistas?

Temos informação de que a lei sobre os incentivos aos artistas (artes cénicas, dança, literatura) acha-se no Parlamento para aprovação. Genericamente todos carecem de incentivos. Os nossos escritores, por exemplo, produzem pouco devido à falta de incentivo, porque o custo de produção no país é elevado. Outro tanto acontece com os músicos, os cenógrafos e os grupos de dança que precisam de salas.

Do que vai viver quando for reformado?

Vou viver de subsídios como professor universitário na Escola de Arte, porque passarei para a docência quando entrar na reforma musical. E a um tempo viverei da reforma como funcionário da RNA. E se auferir um subsídio rondando os dois milhões de kwanzas, para além do cachê de algumas conferências sobre música, viverei sem apertos.

A que se deve o sucesso da sua carreira?

Deve-se à qualidade daquilo que produzi em termos de composição e de interpretação. Foi um grande sucesso, por exemplo, conseguir obter o estatuto de letrista de Semba. Considero ainda como sucesso o facto de interagir com a nova geração da música, à guisa de passagem do testemunho à geração vindoura.

Numa das suas composições (Uejia Ki Usokana) aconselha as mulheres a não se envolverem com homens comprometidos. Tem tido eco de como a é que a sociedade reage a estas mensagens?

Algumas vezes sou mal-entendido porque o Kimbundu tem traços da língua inglesa. Com uma palavra pode sugerir várias interpretações. O sentido que imprimo é de chamar a atenção à sociedade e não apenas às mulheres. O homem também precisa de saber o que é melhor para ele: se é uma viúva ou uma mulher divorciada. Assim como a mulher.

Que mensagem transmite exactamente nesta música?

A música transmite a mensagem do cuidado com aquele que morre (o esposo) e da viúva. Por exemplo, tenho menos susto porque se estiver a cuidar bem dos filhos do falecido talvez ele na eternidade me mande uma bênção. Com relação a uma mulher divorciada, o antigo parceiro anda por ai, se relaciona com ela por causa dos assuntos relacionados com os filhos. E nestes casos, a carga de ciúme pode fazer mal para uma relação. Se quisermos evitar esta carga de ciúme, a viúva é melhor.

Os músicos da antiga geração são poucas vezes chamados a participar em eventos. Acha que isso acorre porque a malta nova canta melhor. Ou porque têm mais audiência?

Não reclamo o facto, mas devo chamar a atenção dos músicos da nova geração para o sentido de humildade. É preciso saber que é uma lei que a natureza imprime sobre os homens, de o mais novo substituir o velho. Quer dizer que o novo aprende com o velho. Prova evidente é o facto de os maiores sucessos da nova geração serem músicas da antiga geração. Acho que a velha geração tem que fazer o exercício de compreender melhor este fenómeno ao invés de sentir-se mal.

Podia trocar por miúdos o que acaba de afirmar?

Às vezes há comportamentos dentro da nova geração que levam o mal-estar de alguns artistas. Se olharmos para aquilo que é a nossa realidade, a estrutura em termos musicais, para desenvolver de acordo com todos os extractos, mesmo com recurso às novas tecnologias musicais, nunca deixaram de fora as nossas origens. E quando um mais velho chama a atenção aos mais jovens sobre esta questão e ele diz que não sabe o que diz é uma asneira, é até imoral. E para a vergonha é que o mais novo ao invés de fazer algum exercício de produtividade, busca uma obra que pertence a um contexto muito diferente do nosso para “xingar” o mais velho.

Como avalia a contribuição da nova geração no enriquecimento da nossa música angolana?

É de tirar o chapéu para aquilo que os músicos da nova geração fizeram nos últimos 20 anos pela a música angolana. Foi um bom trabalho, mas não significa que devem negar as correcções no percurso da sua carreira, para que seja mais frutífera. O testemunho passa para a nossa geração ao ouvir os conselhos dos mais velhos. Se continuarmos a dizer que os mais velhos estão ultrapassados, vamos continuar com um défice de cultura geral.

Como acha que se devia regulamentar as políticas culturais?

Os promotores e produtores culturais têm que regular melhor, se não mesmo o ministério da Cultura, as políticas culturais que devem ser promovidas à volta da produção musical no país. Não podemos criar “Team de Sonho” e o “Team de Insónia”. A criação do “Team de Sonho” produz sentido de exclusividade. Os mais velhos não devem merecer esmolas, mas sim o direito de estar onde estão os mais novos. Se criamos o “Team de sonho” e o de “Insónia” é possível que se crie matérias para que as pessoas não acordem.

Não concorda com os agenciamentos feitos por algumas produtoras de eventos?

O agenciamento pode ter outra estrutura. Deve ser feito de formas a não criar privilégios para uns e desprivilegio para outros. Temos que colocar todos no mesmo barco e seguir o mesmo caminho, rumo ao futuro da música nacional.

Preocupa-lhe o facto de muitas das vezes os músicos da nova geração representarem o país em eventos no exterior?

Acho que é bom porque é o que se consome na actualidade e deve servir para representar o país. Mas, se for para representar o país num acto onde o substrato é música nacional e metemos um R&B não é correcto, porque não se pode ir a um evento de cultura africana para cantar este estilo ou o jazz, apesar de todas as músicas terem origem africana.

A música angolana tem raízes para resistir à globalização?

Tem. Temos cultura própria e a globalização vai influenciar na nossa cultura como influencia em qualquer parte do mundo. As novas tecnologias de informação, as redes sociais desperta na nova geração outros conhecimentos, mas é necessário que não se percam os valores culturais.

Na sua opinião, o que falta à música angolana?

Falta uma estratégia de distribuição, promoção e divulgação. A nossa música faz muito sucesso a nível nacional e não é possível que não se atinja o sucesso a nível internacional. Proponho ao ministério da Cultura um projecto de divulgação e promoção da música angolana e sempre que surgir um sucesso é pegar neste músico e dar continuidade a nível internacional, instalando-o em França, Paris, por exemplo, que é tido como o coração das culturais do mundo. Ali encontramos maior cruzamento de culturas.

Como analisa as homenagens feita aos músicos falecidos?

Uma homenagem é um reconhecimento que deve ser merecido. Naturalmente que na história da música angolana tem muitos músicos que merecem esta homenagem. Também, encontramos muitos músicos que têm ainda um caminho a percorrer para merecerem esta homenagem. A sociedade não pode apenas se preocupar com o músico quando morre, mas quando acontece com um bom profissional, independentemente do papel ou do trabalho que desempenha.

Cite exemplos de pessoas que merecem homenagens?

O Rei Elias dya Kimuezo. Está com 79 anos e a sociedade devia dizer-lhe para descansar, embora ele venha a pensar que irá adoecer se não fazer aquilo que mais gosta, porque não produzimos nada para que enquanto estiver em reforma possa se divertir. Se ele souber que tem uma escola para que de vez em quando possa ir falar com os instruendos, contar uma história sobre a música, dizer-lhes quanto custa uma carreira musical, onde mensalmente vai buscar um subsídio (para além do que recebe da UNAC-SA), acho que aceitaria o nosso convite e se reformaria.

Defende-se a criação do museu do Semba. Qual é a sua ideia?

A ideia de um museu será uma ideia global porque não pode haver um museu só para o Semba. Acho que o ministério da Cultura há-de partir para um museu da cultura nacional, das artes nacional, com espaço para representar vários extractos da nossa cultural. Teremos ainda algumas peças dos fazedores do Semba, como por exemplo o grupo Ngola Ritmo, alguns fatos do falecido Bangão, o reco-reco representando pelo mais velho José de Oliveira Fontes Pereira e outros.

Vida e obra de Dom Caetano

Caetano Domingos António ou simplesmente Dom Caetano nasceu a 25 de Abril de 1958, no Bairro Popular, na província de Luanda. Viveu nos municípios do Cazenga e Sambizanga entre 1973 a 1975.

Aos 18 anos, em 1976, vai à Cuba para fazer o curso de Técnico Médio de Transporte. Em 1981 regressa ao país e passa a trabalhar numa empresa de transportes públicos como assessor de engenharia.

Ao longo do percurso da vida profissional, entre 1983 a 1985, trabalhou nas empresas Emproe e Panga-Panga como chefe dos transportes. Posteriormente, fez o curso de Jornalismo, dando-lhe abertura para o mundo do jornalismo, concretamente na Agência Angola Press.

Em 1987, depois de dois anos integrado no grupo “Jovens do Prenda” vê-se forçado a abandonar o jornalismo e começa uma carreira musical até aos dias de hoje.

Dom Caetano subiu pela primeira vez ao palco em 1973, no Centro Cultural os Anjos, no Sambizanga e foi acompanhado pelo Conjunto Astros. Nesse mesmo ano, em companhia de alguns amigos dos bairros Mota e Cabuite, forma o conjunto “Os sete amigos”.

Neste ano, actuou no “Surpresa 73”, do Rangel, como guitarrista baixo. Passou também pelos “Sete Incríveis”, do Sambizanga. Entre 1976 e 1979, como vocalista actuou no “Combo Revolucion”, em Havana, Cuba.

Ficou em sétimo lugar, num universo de 10 concorrentes, no primeiro festival da canção política, organizada pela JMPLA, em 1982, na cidade do Huambo.

Aquando da realização do primeiro FENACULT, em 1989, regressa ao grupo “Jovens do Prenda” onde ficou até 1996, depois de ganhar o Prémio Welwitchia, atribuído pela Rádio Nacional de Angola.

Em 1991 ganhou o prémio da União Nacional dos Camponeses de Angola com a canção “O meu chão tem tudo”. De 1985 a 1996 actuou, como vocalista, nos “Jovens do Prenda”, passando pelo “Instrumental 1º de Maio”

Ainda em 1996 vence o prémio da canção “Nova Cooperação” e passa para a carreira a solo. Mesmo depois de trabalhar a solo fez o dueto “Dom Caetano e Zeca Sá”, por influência do que existia em Cuba, com o Adriano Mendes de Carvalho.

Foi ainda vencedor do primeiro e único Prémio Sonangol da Canção, em 1996, com a música “O pecado carnal”.

De 1999 a 2001 passou pela Banda Movimento, que na altura pertença do “Movimento Nacional Espontâneo”. De 2003 até à presente data está ligado à “Banda Movimento” da Rádio Nacional de Angola.

Dom Caetano tem no mercado dois discos a solo, “Adão e Eva”, Lançado em 1997, produzido em Lisboa, Portugal e editado pela Sonovox. A segunda obra discográfica, “Mateus:7.7” foi lançada em 2011, numa altura em que completou 38 anos de carreira.

Em termos de obras colectivas, constam o disco“Espontaneidades”, lançada em 2001 com a Banda Movimento e o “Kufungissa”. Participou ainda nas obras discográficas “Picanto 2”, de Dias Rodrigues e outras. (semanarioeconomico.ao)

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