Dólar Mayweather vs. Kwanza Pacquiao

RUI MALAQUIAS Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)
RUI MALAQUIAS Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)
RUI MALAQUIAS
Economista e Docente universitário
(Foto: D.R.)

De acordo com a Lei do Preço Único, um mesmo bem, ou pelo menos com o mesmo nível de utilidade, deve ter o mesmo preço nos mercados em que está a ser transaccionado, para evitar que determinados agentes pratiquem a arbitragem, que é obtenção de ganhos derivados da compra do bem onde ele é mais barato para vendê-lo onde é mais caro.

Em condições normais de mercado, esta acção dos arbitradores é temporária, pois aumentaria a procura por este bem onde ele é mais barato, aumentando o seu preço até ao equilíbrio; por outro lado, o aumento da sua oferta onde ele é mais caro diminuiria o seu preço até alcançar o equilíbrio.

Para a ‘batalha’ kwanza vs. dólar, é diferente, porque o mercado não se ajusta ou desajusta sozinho, ou apenas com a ‘mão invisível’ de Adam Smith, porque a taxa de câmbio em Angola oficial é fixada pelo BNA, e os bancos, a partir dela, podem acrescer um spread que é também limite máximo.

Então, a Lei do Preço Único, aqui, fica dependente da rapidez do ajustamento do BNA e da sua capacidade de ‘injectar’ dólares no mercado sempre que o kwanza está a perder terreno face ao dólar.

Daí haver um certo gap temporal em que os mais rápidos fazem o seu pé-de-meia bem generoso, decorrente da diferença entre o preço do dólar no banco relativamente ao mercado informal. O Estado é mais uma vez chamado para ‘instaurar’ a lei e a ordem no mercado cambial nacional, e a fechar o espaço entre a taxa de câmbio oficial e a taxa do mercado informal.

Esta é a razão mais plausível para a desvalorização, sendo que, como explicaremos mais abaixo, a desvalorização do kwanza não é proveitosa para Angola. Se fôssemos um país produtor de bens produzidos e acabados, a desvalorização teria um impacto semelhante ao que vemos na amiga China, que mantém a sua moeda desvalorizada, sendo que, para um país exportador de produtos acabados, a desvalorização da sua moeda é vantajosa, porque os importadores precisarão de menos moeda estrangeira para comprar a moeda local e importar os produtos.

Portanto, os bens e a mão-de-obra nacionais tornam-se mais baratos, o que torna os nossos produtos mais competitivos, chamando assim o grande capital para o nosso País, porque produzir por cá seria mais barato do que no estrangeiro.

Todavia, Angola encontra-se exactamente no extremo oposto, pois é um país fortemente importador, que necessita de moeda estrangeira para importar bens acabados e serviços. E, tendo uma moeda fraca, precisará sempre de mais moeda nacional para comprar a mesma quantidade de moeda estrangeira para importar.

Esta situação é gravosa para a nossa economia, pois, à medida que os importadores vão tendo custos mais elevados, devido à desvalorização do kwanza, estes vão repassando este ónus para o consumidor final, e os preços dos bens e serviços tornam-se mais elevados. Neste contexto, a nossa economia torna-se menos apetecível à implantação do investimento estrangeiro, porque a mão-de-obra é mais cara (pois os bens essenciais são mais caros).

A actual situação é resultante da baixa de receitas petrolíferas, induzida pela vertiginosa queda do preço do Brent, levando ao aumento da pressão sobre os dólares para o envio para o estrangeiro ou reserva de valor. Sendo assim, quando uma moeda é mais procurada do que outra, a menos procurada torna-se abundante de mais e perde valor.

Daí o nosso kwanza estar moribundo no mercado informal, a ser trocado a uma taxa de 200 Kz por cada dólar norte-americano. Na prática, o BNA apenas aproximou as taxas de câmbio para fazer a correcção dos ganhos de arbitragem que alguns mais avisados da banca comercial estavam a obter, a partir do momento em que a banca estava a vender (mas quase nunca havia mesmo com bilhete de passagem e visto) cada nota de 100 USD por quase 13.000 Kz e, no mercado paralelo, as mesmas notas poderiam ser vendidas a 20.000 Kz, perfazendo um spread limpo de quase 8.000 Kz por cada nota de 100 USD.

No nosso entender, a justificação para a desvalorização é unicamente para acabar com os desequilíbrios do mercado, reconduzir os dólares ao sistema, deixando de alimentar o sector informal, reentregar ao BNA o ‘leme’ da política cambial e proteger assim o kwanza, ajustando-o ao seu real valor.

Certamente que a nossa equipa económica tem perfeita noção de que o que previne a procura excessiva pelos dólares não são e nunca serão medidas administrativas, mas, sim, injectar mais dólares no mercado sempre que necessário, fazer menos importação de bens (ou aumento exponencial das exportações) e, principalmente, o País tem de deixar de importar mão-de-obra estrangeira, que pensamos ser o maior dilema da nossa economia. Pois vejamos. A escassez de dólares e o sentimento que não podermos ter quando é desejado faz com que esta moeda se torne escassa e muito procurada e, quando assim é, torna-se cara e aprecia-se em relação ao kwanza.

As importações de bens e serviços – sendo que ainda importamos quase tudo o que consumimos – faz com que a pressão na procura de dólares para pagar as importações seja cada vez maior (mais uma vez tornando o dólar uma moeda rara), o que pressiona as reservas nacionais em moeda estrangeira – que já estão num nível baixíssimo desde a queda do barril de Brent.

Este factor faz com que a procura por dólares se mantenha grande e contorne qualquer medida administrativa. Por fim, a importação da mão-de-obra estrangeira é o principal ‘cancro’ da nossa economia, pois os expatriados desferem um duro golpe ao kwanza e às nossas reservas em moeda estrangeira, pois exigem que os seus salários sejam pagos em moeda estrangeira e transferidos para os seus países de origem, não alimentando a economia nacional e fazendo com que o BNA tenha um esforço enorme para compra de divisas e transferências para o estrangeiro.

Portanto, o kwanza ficará estável e mais forte em relação ao dólar, e a procura pelos dólares deixará de ser abismal, quando o dólar deixar de ser raro. Para isso, temos de ter produtividade interna (confinar as importações para níveis mínimos possíveis), ter a mão-de-obra nacional na frente em termos de preferência, pela sua qualidade provada, e reduzir a importação de mão-de-obra estrangeira para níveis mínimos. Só assim o BNA estará em condições de ‘inundar’ o mercado com dólares ao ponto de manter o kwanza forte.

O que fazer neste momento para conter a situação Pensamos que, para o kwanza vencer ou ir vencendo alguns rounds deste combate, para além das medidas de médio e longo prazo apontadas acima, o BNA e o Estado deverão não se ficar apenas pela disponibilização de moeda estrangeira para os bancos comerciais colocarem na economia. O BNA deverá fiscalizar a banca comercial, para garantir que os dólares que colocou na economia cheguem, de facto, à economia real.

O que se observa, infelizmente, é que o BNA, de facto, coloca moeda estrangeira no mercado, mas esta é, num ápice, facilmente encontrada no mercado informal. Portanto, o trabalho do BNA não deve ficar pela venda de moeda estrangeira, mas também passar pela fiscalização do seu destino.

O BNA deve também fiscalizar a fiscalização sobre os bancos comerciais, no sentido de agilizarem o processo de transferência de divisas para o estrangeiro para as empresas e para aqueles que necessitam de enviar recursos para familiares, bem como para os trabalhadores expatriados, pois estes são os que mais recorrem ao mercado informal na esperança de repatriarem os seus rendimentos. (expansao.ao)

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