Custo elevado das telecomunicações atrasa extensão de serviços às zonas rurais

(Foto: D.R.)
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Os operadores de telefo­nia móvel em Angola mostram-se reticen­tes quanto à cobertura global dos serviços de telecomunicações por considera­rem muito alto o valor de investi­mento necessário.

Tiago Rocha, director de Pla­neamento estratégico da Movicel, disse, em declarações a OPAÍS, que ‘o investimento necessário para levar as telecomunicações a todos os angolanos é muito alto, sendo essa uma das principais razões pelas quais não é fácil para as operadoras conseguirem reduzir ao máximo o custo do serviço de telecomunica­ções para poderem efectivamente levar a toda a gente’.

‘As zonas rurais por serem mais longínquas é necessário construir mais redes, mais infraestrutura para lá chegar. Por isso, o investimen­to acaba por ser maior também, porque há nelas menor número populacional com a capacidade de utilizar os serviços de teleco­municações, logo torna-se menos eficiente’, frisou.

De acordo com Tiago Rocha, esta situação impede as operadoras de serem mais competitivas, dando acesso a esses serviços a todas as pessoas, inclusive as que não têm um grande poder de compra. ‘Nós tentamos sempre privilegiar o investimento e levar a rede de telecomunicações à maioria dos angolanos. Infelizmente ainda não é possível chegar a toda a gente, principalmente nas zonas rurais’, lamentou.

Neste contexto, referiu que o lançamento da página Internet.org e o Facebook grátis tem o objec­tivo de mostrar que a Movicel tem a preocupação, no âmbito da sua responsabilidade social, de dispo­nibilizar estes serviços à maioria da população. ‘Um dos grandes moti­vos do lançamento do Internet. Org e do Facebook grátis é o de mostrar que a Movicel tem a preocupação e responsabilidade social de levar, de forma gratuita, os serviços de internet à maioria da população possível, que infelizmente não tem capacidade financeira para o pagar’, sublinhou.

Angola tem 13 milhões de subscritores

Segundo Tiago Rocha, o número de subscritores móveis no mundo tem crescido e estima-se que em 2014 existissem já cerca de 7 biliões de pessoas a usufruir dos serviços de telecomunicações. Nos países em desenvolvimento estima-se que apenas cerca 90% das pessoas tenham acesso a estes serviços, enquanto nos países considerados desenvolvidos este número já é su­perior a 120 %. Em Angola, segundo dados do Instituto Nacional de Te­lecomunicações (Inacom), existem cerca de 13 milhões de subscritores de serviços de telecomunicações móveis.

Daí que seja aposta da Movicel e um dos seus grandes objectivos continuar a proporcionar cada vez mais melhor qualidade de serviço no acesso à internet através da rede com o serviço 4G que é a última ge­ração em termos de serviço dados. ‘A Movicel é a única empresa em Angola a poder proporcionar um serviço de geração 4G com veloci­dades até 150 megas por segundo a toda a província de Luanda. É um dos grandes objectivos da empresa proporcionar cada vez mais melhor qualidade de serviço no acesso à internet aos nossos clientes em Lu­anda. Já temos também em Cabinda o serviço de 4 G’, referiu.

Outra aposta para o segmento jovem, acrescentou, é o chamado serviço ‘geração M’ que privilegia o tráfego, o serviço de voz, entre as pessoas do mesmo grupo que po­dem falar sem qualquer custo. Ofe­rece também benefícios de internet, dado que, hoje em dia, os jovens utilizam bastante as redes sociais e a internet. Por seu turno, Álva­ro Oliveira, director executivo da Net One, referiu que a extensão da Internet para zonas rurais comporta alguns desafios e riscos relativos à dimensão do território, à situação da infraestrutura básica, da energia eléctrica, da acessibilidade, das redes de acesso que, apesar da oferta, ain­da não têm a dimensão existente nos centros urbanos. A seu ver, o modelo de negócio utilizado pelos operadores nos grandes centros não é replicável numa oferta que seja sustentável para as áreas rurais. Para a expansão dos serviços de telecomunicações para estas zonas, os operadores hão-de precisar de apoios em termos de incentivos fiscais que lhes permi­tam ter uma oferta que responda às necessidades das populações locais e que seja sustentável do ponto de vista económico. A nível tecnológi­co, adiantou, as soluções existentes maioritariamente no mercado estão muito orientadas para as grandes capacidades ou centros urbanos e são de difícil implementação nos meios rurais. ‘Neste domínio, os operadores precisam de apoio. Eu entendo que, obviamente, faz parte da estratégia do Estado angolano o desenvolvi­mento do meio rural.

Incentivos fiscais

Poderá haver alguns incentivos fiscais aos operadores que quei­ram investir no desenvolvimento de redes rurais, na aquisição de equipamentos e de softwares, por exemplo’ – frisou. Segundo Álvaro Oliveira, outra área que onera muito os operadores tem a ver com a trans­missão, já que existem operadores com infraestrutura própria enquanto outros não a possuem. ‘Acho que deverá haver alguma conjugação de vontades que permita um modelo em que os operadores vão pagando estes serviços à medida que o seu negócio se desenvolve, pois os gran­des investidores têm de ver os seus investimentos remunerados, mas o facto é que se não houver alguma concertação neste domínio, será muito difícil’, considerou.

Por outro lado, a seu ver, os opera­dores têm de ter a percepção de que a sua oferta tem de ser adequada ao mundo rural principalmente ao nível dos tarifários. ‘Os serviços no mundo rural dificilmente terão a qualidade que têm nos grandes centros urbanos e portanto também não é justo que as populações paguem o mesmo que se paga numa grande cidade por um serviço que lhe é disponibilizado com a mesma qualidade. Eu penso que os operadores se tiverem um modelo de negócio podem também fazer reflectir isso nos preços que praticam’- defendeu.

Incentivar o meio rural

Álvaro Oliveira apela a uma reflexão sobre como incentivar as pessoas no meio rural a usufruir estes serviços. ‘Não é esperado que para muitas des­sas pessoas a compra de um com­putador ou o pagamento de serviço de internet possa estar no topo das suas prioridades, eu penso que não será por aí que, numa primeira fase, se possa incentivar essa utilização’. No seu entender, deverá haver al­gumas acções concertadas para, por exemplo, a informatização dos ser­viços públicos. Levar a internet aos diversos níveis de ensino, começando pelos níveis mais baixos e permitin­do o efectivo acesso a este serviço às crianças na sua idade de formação, às universidades, aos pólos universi­tários que já começam a surgir muito pelo país. (opais.net)

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