Ciência. Gado africano foi domesticado no Médio Oriente

(Foto: D.R.)
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Geneticistas e antropólogos pensavam que antigos africanos tinham domesticado o gado nativo do continente. Mas uma investigação mais aprofundada mostrou que a variedade mais antiga de África é originária do Médio Oriente, da zona conhecida como Crescente Fértil, a região onde tiveram origem as primeiras civilizações.

A pecuária não parece ter sido originalmente um fenómeno africano, mas chegado ao continente proveniente do Médio Oriente, por volta de 7.000 a.C., data dos ossos mais antigos de animais domésticos encontrados no deserto ocidental do Egipto, então uma área bem mais húmida que hoje.

Mas os geneticistas e antropólogos suspeitavam de que os antigos africanos haviam domesticado o gado nativo do continente africano há uns 10 mil anos. Agora, uma equipa de investigadores da Universidade do Missouri, nos EUA, descobriu que essa antiga domesticação do gado teve origem no Crescente Fértil, uma região que cobria os actuais países do Iraque, Jordânia, Síria e Israel. Para tal, os cientistas, chefiados por Jared Decker, professor associado de Ciência Animal daquela universidade, compararam as semelhanças e diferenças entre os genomas de 134 raças diferentes de gado de todo o mundo para determinar como se relacionaram ao longo do tempo.

Decker assinala que a genética destas raças de gado de África é similar à do primeiro gado domesticado no Médio Oriente há uns 10 mil anos, o que demonstra que estes animais foram levados para África quando os agricultores migraram para sul. Então, este gado misturou-se com gado selvagem, especialmente auroques (touro de grandes dimensões nativo da região), e alterou a sua composição genética de forma suficiente para confundir os geneticistas.

No fim da era glaciar, por volta de 10.000 a.C., o mundo sofreu uma série de mudanças dramáticas que tiveram efeitos nas comunidades humanas. As temperaturas subiram, e os lençóis de gelo que cobriam quase um quarto da superfície terrestre derreteram, permitindo às plantas e aos animais expandirem-se para latitudes que durante milhares de anos haviam sido muito frias para as poderem suportar. Ao mesmo tempo, os desertos, que tinham ocupado cerca de metade da superfície terrestre entre os trópicos, recuaram como consequência do degelo, dando origem às chuvas.

As comunidades humanas adaptaram-se a estas novas circunstâncias sob várias formas. Em muitas regiões, as temperaturas fizeram com que os recursos se tornassem mais abundantes e variados, e os grupos de caçadores-recolectores, por exemplo, são evidentes devido aos grandes amontoados de restos de moluscos nas zonas costeiras (concheiros). Muitas destas alterações tiveram uma importância considerável, mas foi o desenvolvimento da agricultura que teve impacto mais dramático na sociedade humana. Em algumas áreas restritas do Velho Mundo – Crescente Fértil do Próximo Oriente, as colinas do Paquistão, as planícies da China e o delta de Iangtsé – as comunidades caçadoras-recolectoras experimentaram plantas locais disponíveis e animais de tal forma, que levou à sua domesticação.

“Em muitos sentidos, a história da genética do gado reflecte a história humana”, afirma Decker. “No caso do gado de África, antropólogos e geneticistas utilizaram-na para considerar que o gado domesticado africano era nativo do continente, quando, na realidade, foi levado pela migração dos povos há milhares de anos. Graças a uma melhor compreensão da história da domesticação dos animais, podemos entender-nos melhor a nós próprios”, acrescenta.

Um único animal domesticado em África

Na investigação, publicada na revista PLOS Genetics, Decker e a sua equipa comparam as semelhanças e diferenças entre os genes de muitas distintas raças bovinas para determinar como se relacionam entre si. Encontraram, por exemplo, que na Indonésia havia uma mistura de gado nativo com variedades importadas da Índia; em Itália e Espanha havia mistura de reses europeias e africanas; e na Coreia e Japão se dava uma hibridação de espécies europeias e asiáticas.

“Agora que temos esta história genética mais completa do gado em todo o mundo, podemos entender melhor a diversidade das espécies”, diz Decker. “Ao entender as variações presentes, podemos melhorar a qualidade dos animais com fins agrícolas quer através da criação de animais mais resistentes às doenças quer procurando modos de aumentar a produção de leite ou carne”, conclui.

Entretanto, os burros selvagens africanos foram uma das últimas espécies cuja domesticação foi estudada. Quase todas as espécies foram domesticadas, em sentido lato, na Ásia, mas no caso do burro havia uma grande controvérsia. Há quem defenda que o burro doméstico descende do burro selvagem africano, o Equus africanus, e foi domesticado no Norte de África.

Mas o burro selvagem africano também viveu em Israel, na Síria, no Iraque e no Iémen, por isso, outros autores defendem que a domesticação também ocorreu no Crescente Fértil e que as populações do Nordeste africano não teriam conhecimentos para tal. A estas dúvidas juntava-se o facto de haver também burros selvagens asiáticos, como o quase extinto onagro da Pérsia.

A resposta foi encontrada na genética, ao analisar o ADN de burros selvagens africanos e de burros domésticos de 52 países da Europa, África e Ásia, indo da Albânia a Espanha ou Portugal até à Tunísia, Zâmbia ou China e Vietname. Com este estudo, o burro ganhou um novo estatuto: é o único animal exclusivamente domesticado em África. Foi domesticado quando se deu a expansão do deserto do Sara. Nessa altura já havia pastores de ovelhas e bovinos e, com a expansão do deserto, passaram a ter de se movimentar para encontrar fontes de água e pastagens.

O burro permitia migrações de longo curso. Talvez tenha sido isso o que empurrou à domesticação. O burro foi o primeiro passo para a globalização do mundo. O cavalo terá sido domesticado na mesma altura, mas a detenção de um cavalo era sinal de uma posição hierárquica superior. Para o povo ficou o burro. (expansao.ao)

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