Chineses: O desafio da vida em Angola

(Foto: D.R.)
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Viver em Angola não estaria nos planos dos cerca de 259 mil chineses que residem no país, mas as circunstâncias forçaram-nos a aterrar em Luanda. Embora reconhecendo as dificuldades, abraçaram o desafio. E são já muitos os que se lançaram em negócios próprios.

Angola é o segundo maior destino da população chinesa em África, com 259 mil cidadãos, logo a seguir à África do Sul, com 350 mil. Isto num continente cujas estimativas apontam para um milhão de cidadãos vindos do ‘gigante’ asiático. Perto de 50% dos recém-licenciados na China (país que forma cerca de sete milhões de alunos/ano) não consegue trabalho, razão pela qual muitos emigram – e uns milhares escolhem Angola.

Na China, o salário mínimo na função pública ronda o equivalente a 25 mil kwanzas. Em Angola oscila entre 14 e 19 mil kwanzas. Na visão de chineses residentes no país, África, e sobretudo Angola, tem sido, «apesar de haver inúmeras dificuldades», um mercado de oportunidades, pois possui potencialidades em diversos sectores, com destaque para construção civil, agricultura e comércio.

Helena Patrícia é uma cidadã chinesa, de 28 anos, e fala fluentemente o português de «Camões». Trabalha em Angola como tradutora há cinco anos numa empresa de transporte e comercialização de viaturas. Optou por não revelar o seu nome real, em mandarim.

Aufere um salário mensal a rondar os quatro mil dólares e conta à reportagem do SOL que em Angola, fora o stress, tem encontrado muitas oportunidades para ser bem-sucedida profissionalmente – o que dificilmente aconteceria no país onde nasceu.

Cooperação não deve beneficiar grupos restritos

A jovem revela que, até chegar a Angola, nunca tinha pensado na possibilidade de viver num país africano: «Angola tem sido um desafio de conquistas e derrotas». A tradutora lamentou as disparidades sociais no país, «algumas semelhantes a zonas remotas da China. Para alguém que sempre viveu numa cidade grande, como Pequim, viver em Angola é um desafio sem medidas». Já habituada ao país, faz de tudo um pouco à moda angolana. «Vou à discoteca, a festas, como pratos típicos do país – e feijoada é o meu preferido».

Para Helena, apesar de Angola ser um potencial parceiro económico da China em África, as parcerias económicas não devem beneficiar apenas grupos restritos, mas sim todos os intervenientes do processo macroeconómico que liga os dois países.

A entrevistada sublinha ser importante que os angolanos estudem em universidades chinesas – como tem acontecido –, pois estes poderão a ser bons conselheiros em matéria de cooperação com a China.

«Os interesses económicos dos dois países farão com que essa relação seja muito duradoura. Vamos ver cada vez mais chineses a virem para Angola. Temos aqui uma comunidade chinesa vasta. Para ter uma ideia, por vezes esqueço-me que estou longe de casa. Há muitos locais em Luanda onde só se fala mandarim. Há muitos restaurantes chineses em Angola. Tudo coisas que há 15 anos não imaginávamos que acontecessem», adianta.

Casinos e restaurantes são pontos de (re)encontro da comunidade chinesa em Angola, principalmente entre a classe média e média alta.

Trabalhar por conta própria

Depois de muitas promessas não cumpridas por quem os trouxe a Angola, muitos chineses decidiram abandonar os postos de trabalho e criar o seu próprio negócio – muitas vezes de forma clandestina.

Concebem oficinas de reparação de motorizadas, praticam comércio ambulante informal, comercializam gelo em casas que arrendam nos subúrbios de Luanda e estão ligados ao sector da construção civil.

Jian Yan, 45 anos, vive em Angola há oito. Decidiu criar o seu próprio negócio depois de ter sido enganado na China. «Antes de partir negociei uma coisa com os patrões, mas quando aqui cheguei descobri que fui enganado. Trabalhei durante dois anos. Recebia mil dólares/mês. Decidi largar os patrões e hoje trabalho por conta própria», relata ao SOL.

Embora saiba que está ilegal no país, Jian Yan assegura que o trabalho na construção civil permitiu-lhe conhecer as 18 províncias de Angola.

Na mesma situação está a massagista e manicura-pedicura Maury Tanji. Ao SOL explica que há três anos foi convidada para vir para Angola, mas por não receber o que esperava decidiu abrir o negócio. «Não podemos ficar onde não somos valorizados», justifica. (sol.ao)

Por: José Maurício

 

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