Casas de câmbio com dólares 23% mais caros que BNA

(Foto: D.R.)
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A compra de 1 USD numa casa de câmbio pode custar entre 140 Kz e 150 Kz, enquanto a taxa de câmbio de referência do banco central para a venda de 1 USD era, até terça-feira passada, de 122,765 Kz. Em relação aos bancos comerciais, a taxa das casas de câmbio é 15,3% superior. Já a margem aplicada pelos bancos sobre a taxa de câmbio do órgão regulador é de 6,5%.

A taxa de câmbios praticada por boa parte das casas de câmbio de Luanda na venda de dólares norte-americanos está cerca de 23% acima da cotação de referência do Banco Nacional de Angola (BNA),constatou o Expansão numa ronda efectuada no início da semana passada. A compra de um dólar numa casa de câmbio custa entre 140 Kz e 150 Kz, enquanto a taxa de câmbio de referência do banco central para a venda era, até terça-feira última de 122,765 Kz.

Em relação aos bancos, a taxa das casas de câmbio é 15,3% superior. Já a margem aplicada pelos bancos sobre a taxa de câmbio do órgão regulador é de 6,5%. Mas o ‘fosso’ maior em relação à taxa de referência fixada pelo BNA está mesmo no mercado informal, onde a compra de um dólar chega a custar 200 Kz, quase 64% a mais (ver tabela na página 5). Na opinião de algumas pessoas ouvidas pela nossa reportagem, as casas de câmbio estão a aproveitar-se da situação de escassez de divisas no sistema financeiro nacional, causada pela queda do preço do barril do petróleo no mercado internacional, principal fonte de arrecadação de divisas para o País, para especularem.

Entretanto, tanto os bancos comerciais como as casas de câmbios, onde, face ao mercado informal a compra de dólares é significativamente mais barata, quase nunca têm disponibilidade para atender a elevada procura, ‘empurrando’ os clientes para as kinguilas, que apresentam sempre liquidez em divisas, mesmo à porta das instituições bancárias e de câmbio autorizadas a desenvolver a actividade de compra e venda de moedas. Nas ruas, a procura pelos serviços das kinguilas cresce de dia para dia. João Santos, 30 anos de idade, é apenas um exemplo entre muitos cidadãos que, frustrada a tentativa de adquirirem 2.000 USD numa casa de câmbios, teve de recorrer ao mercado informal. “Não sei o que está a acontecer com os bancos comerciais e as casas de câmbios. Sempre que lá chegamos, nunca têm dólares e são eles mesmo que nos aconselham a comprar divisas às kinguilas”, desabafou.

O estudante do 3.º ano do curso de Economia do Instituto Metropolitano de Angola (IMETRO), Gabriel Francisco, a braços com o mesmo dilema, lembra que, à luz da legislação angolana, compete ao BNA, como órgão que regula e supervisiona o mercado cambial, disciplinar aquilo a que chamou “desordem cambial”. E enfatizou ser necessário combater a actividade que as kinguilas desenvolvem de forma ilegal. “Não consigo perceber como é que, numa fase em que se fala de escassez de divisas no País, as kinguilas têm sempre disponibilidade. Penso que o BNA tem mecanismos de prevenção que podem até não ser perfeitos, mas existem”, disse.

As kinguilas, por seu turno, alegam que nem todas têm facilidade em aceder aos dólares, mas não aceitam revelar as suas fontes de abastecimento. Na mesma linha de opinião de alguns cidadãos, as comerciantes informais de moedas apontam a falta de dólares como a base para a especulação. “Estamos a comprar a nota de 100 USD a 18.500 Kz para vender a 19.000 Kz ou 20.000 Kz. Está muito difícil captar dólares. Por dia, podemos conseguir simplesmente 200 USD a 300 USD. Os dirigentes bancários disseram-nos que este mês poderiam aumentar a quantidade de divisas no mercado e até agora não estamos a ver nada. A falta de divisa tem dificultado também a nossa actividade”, afirmou uma comerciante que solicitou o anonimato. Luzia António, kinguila que trabalha nas imediações da antiga rotunda da Gamek, referiu que só sai de casa para não passar o dia com as crianças. “O negócio não está nada bom. A minha família sempre viveu, normalmente, do meu trabalho e, neste momento, estamos a passar dificuldades. Sinceramente, a situação começa a ficar insustentável”, lamentou.

Aumento de leilões ainda não alivia pressão sobre o dólar

Em finais de Maio, o banco central recebeu do Executivo ‘luz verde’ para intervir de forma livre no mercado cambial. Como primeira medida, o governador do BNA, José Pedro de Morais Jr., anunciou o aumento de dois para três do número de leilões semanais de venda de divisas aos bancos comerciais, reconhecendo que estes não têm tido capacidade de resposta face à procura de divisas.

Na ocasião, o ‘homem-forte’ do BNA reconheceu que a redução de 30% na ‘injecção’ de divisas por parte do BNA na banca comercial que se regista desde o início do ano, face a 2014, devido à quebra nas receitas com a exportação de petróleo, está a reflectir- se na actividade empresarial do País. “O BNA recebeu mandato para tomar as medidas necessárias para descomprimir, na medida do possível, esta pressão ao nível do mercado cambial, para evitarmos situações de rupturas de stock, para resolvermos alguns problemas que se começam a colocar com grande acuidade a nível dos operadores económicos”, afirmou à imprensa.

Na mesma semana em que o órgão regulador anunciou a orientação recebida do Governo, aumentou em mais de 30%, de 300 milhões USD em cada uma das primeiras três semanas de Maio, para 400 milhões USD, dando assim início às medidas que visam colocar mais cambiais à disposição da banca comercial. Na altura, o governador do BNA havia-se manifestado esperançoso que, com o aumento da oferta de cambiais aos bancos comerciais, a situação se começasse a resolver, resultados que, aparentemente, ainda não se fazem sentir.

Reagindo à medida do BNA, Cristóvão Neto, macroeconomista do Ministério do Planeamento e Desenvolvimento do Território, defendeu que a disponibilização de mais divisas pelo banco central devia ser acompanhada pelo reforço da supervisão junto dos bancos comerciais, para apurar como é que eles repassam as divisas que adquirem nos leilões ao mercado secundário.

Por seu turno, um outro especialista em assuntos financeiros considerou que o aumento do volume de dólares no mercado primário, fruto da realização de mais sessões semanais de leilões, melhora as expectativas dos operadores económicos, supondo-se que tal incremento visa a atender sobretudo às mercadorias, concretamente as cartas de crédito, e não a outro tipo de operações, como as de invisíveis correntes, que incluem viagens, por exemplo, o que a julgar pelas declarações do governador do BNA ganham alguma consistência.

Kwanza continua a perder terreno

Dados publicados pelo BNA indicam que o volume de transacções cambiais do mercado interbancário aumentou e que o kwanza se depreciou na passada semana, em que foram vendidos 431,4 milhões de dólares a uma taxa de câmbio de 121,965 Kz por dólar.

Na semana de 15 a 20 de Junho, o BNA vendeu aos bancos comerciais, a um câmbio médio de 120,430 Kz por dólar, 350 milhões USD. Os números do banco central revelam, entretanto, que na semana passada foi feita uma colocação de Obrigações do Tesouro no valor de 2,7 mil milhões Kz, com maturidades de dois e cinco anos, a juros de 7% e 7,7% ao ano, respectivamente.

Foi igualmente feita uma colocação de títulos para venda directa ao público avaliada em 711 milhões Kz, dos quais 6 milhões em Bilhetes do Tesouro a 182 e 364 dias, com juros de 5,02% e 7,03%, respectivamente. O BNA colocou ainda uma oferta de Obrigações do Tesouro indexadas ao dólar com maturidades de dois e cinco anos, também a juros de 7% e 7,7%. (expansao.ao)

Por: Osvaldo Manuel e Francisco de Andrade

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