Bié enterra as cinzas da destruição

André Kakuarta, director provincial das Obras Públicas no Bié (Foto: Rosário Dos Santos)

Cuito – Um retrato que atravessou o mundo e ficou para a história. Entre matas e aldeias ensanguentadas, um povo faminto, doente e desorientado em busca de forças para sobreviver. A imagem desoladora repercutiu em cada pedaço de chão de um extenso território, com 70.314 quilómetros quadrados. Ilustrou um duro acontecimento que deixou perto de 45 mil mortos e 50 mil feridos: a guerra dos nove meses.

André Kakuarta, director provincial das Obras Públicas no Bié (Foto: Rosário Dos Santos)
André Kakuarta, director provincial das Obras Públicas no Bié (Foto: Rosário Dos Santos)

Era o conflito pós-eleitoral de 1993, que relegou 516 mil cidadãos à dura condição de deslocados, no município do Cuito, capital da província do Bié. O confronto brutal ceifou milhares de mulheres, crianças e idosos. Fez centenas de órfãos e viúvas, ávidos de pão e já sem lágrimas para chorar.

Dramática! Foi desta forma que as organizações de ajuda humanitária, nacionais e estrangeiras, definiram o cenário no Cuito e no Andulo. A guerra eclodiu em finais de 1993, mas as suas marcas ainda fazem morada em vilas, aldeias e embalas que renascem das cinzas no Bié.

O conflito militar deixou durante décadas a arrasada província à beira da solidão (ilhada) e sem estruturas para “atacar” o desenvolvimento.

“Ficou estagnada. Até a altura da paz, os grandes edifícios e as indústrias foram aqueles herdados do tempo colonial”, narra o director provincial das Obras Públicas e Urbanismo, André Kakuarta.

A guerra transformou o Bié num caótico campo de morte. Sangrar, gemer e chorar perderam, em tão pouco tempo, o seu sentido real. Sobreviver à força da guerra era questão de sorte, fé e sacrifício.

Cuito e Andulo foram o epicentro de um conflito brutal, que arruinou tudo e todos, deixando um povo já quase sem fé no futuro.

Minas e bombas de longo alcance levaram consigo tudo que surgira pela frente: casas, prédios, pontes, barragens e caminhos-de-ferro. Danificaram estradas e fábricas, destruíram o tecido humano, tiraram a dignidade e ofuscaram o sonho de centenas de milhares de indefesos.

“O conflito não permitiu que se desenvolvesse grandes projectos imobiliários ou rodoviários”, conta o director das Obras Públicas.

Quis o destino que a dor e a morte fizessem rotina no Bié, desprovido de luz, água e assistência médica. A província esteve durante décadas parada no tempo e quase apagada do mapa. Foram anos de terror.

Travar os efeitos da guerra era uma missão quase impossível, na cidade, nas matas e nos campos agrícolas. A crise quase esfumou a esperança de reconstrução. Só em 2003 deram-se os primeiros sinais de concretização.

Deixou marcas em sectores chave do desenvolvimento. Mas foi o domínio económico o mais devastado. Levou consigo o Caminho-de-Ferro de Benguela, que partia do Cunje até Munhango, onde interceptava com outras carruagens saídas do Luena.

A destruição dessa infra-estrutura fez regredir a agricultura, um sector fulcral para a sobrevivência do Bié. Destruir era a palavra de ordem, num confronto que também “enterrou” a Empresa Fabril de Angola (EFA), na comuna do Cunje. Era fonte de produção de milho, trigo e arroz.

A CIBELGA era produtora de óleo alimentar e, como as grandes fábricas de descasque de arroz, em Catabola e Camacupa, encerrou as portas.

Os efeitos rapidamente chegaram à Barragem Hidroeléctrica de Camacupa, no rio Cunje. Era daí que saía a energia da antiga cidade de Silva Porto.

A mini-hídrica do Cuemba, que levava energia à sede municipal do Cuemba, “sucumbiu” à força da guerra.

“Os próprios edifícios foram afectados. Muitos eram escombros e tiveram de ser removidos”, conta André Kakuarta.

Novo Bié entre os destroços

A paz mudou radicalmente o destino do Bié, que caminha firme num cenário de recuperação económica. As marcas da guerra ainda são visíveis, volvidos 13 anos do pós-guerra. Porém, os escombros da trágica década de 90 estão praticamente relegados à história.

Os sons de armas e explosivos, os prédios cravados de balas, os corpos perdidos entre ruínas dão hoje lugar a uma onda de reconstruções. A vida renasce em cada município, vila, comuna e embala. Todavia, há ainda assimetrias assinaláveis.

É na capital da província (Cuito) e no Andulo onde se nota maiores índices de crescimento sócio-económico.

Tímidos sinais surgem em sectores-chave (antes estagnados), como da agricultura, indústria, hotelaria, comércio e empreendedorismo. Nas sedes municipais e aldeias há vida, sorrisos e um sonho renascido. Nos centros urbanos, jardins, zonas verdes, creches, lojas e parques dão um toque especial à província.

Cansado da destruição, governo e povo deram as mãos, secaram as lágrimas, lançaram a base e iniciaram um Bié de futuro. A onda de reconstrução rapidamente chegou ao Andulo, Camacupa e em todos os municípios, que receberam infra-estruturas de raiz e reabilitadas.

“A reconstrução do Bié não foi só de infra-estruturas destruídas, mas também fisico-espiritual do homem”, relata André Kakuarta.

Um dos sinais mais marcantes dos novos tempos são as estradas na província, que encurtam distâncias e melhoram a circulação de pessoas e bens. É um grande contraste, quando se sabe que, chegar à província do Bié via terreste ou circular entre os municípios, durante o período de guerra, foi por largas décadas uma missão de risco e quase suicida.

O território “herdou” milhares de minas, que ainda fazem vítimas e comprometem a extensão e melhoria da malha rodoviária. Foram anos de luta, determinação e sacrifício, para “enfrentar” as quase intransponíveis estradas.

Essa lembrança angustiante tem os dias contados. Um forte trabalho de recuperação e extensão das vias está em curso em toda província. Pelo vasto território, centenas de homens e máquinas trabalham com os olhos fixos no futuro, desde 2003, para dar vida e robustez às estradas.

Hoje, a circulação por estrada é um facto real na província do Bié. Em quase todas as sedes municipais e comunais circula-se já em estradas asfaltadas. Porém, investimento precisa-se para alavancar estradas secundárias e terciárias, tornando-as efectivas nas comunas, aldeias e embalas.

“Estava tudo mal. Apesar de nem todas estradas estarem concluídas, já fazemos uma hora e meia para o Huambo. Isso está a ter impacto na vida da população”, assegura o director local das Obras Públicas.

Entre 2002 e 2015, as autoridades conseguiram assegurar 439 quilómetros de estradas nacionais asfaltadas. Parece pouco, mas é muito significativo, tendo em conta a escassez de recursos. Mas ainda é preocupante a ligação entre as comunas.

A reconstrução do Bié tem tido também efeitos visíveis no sector de pontes. No período de guerra, a província praticamente não tinha pontes erguidas e em condições de circulação. (portalangop.co.ao)

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