Batalha do Cuito Cuanavale é o cenário de guerra que a história não apaga – general Hanga

General Hanga - Chefe do Estado Maior da Força Aérea Nacional (Foto: António Escrivão)

A Batalha do Cuito Cuanavale, o apoio internacionalista cubano, a importância da Força Aérea na defesa da soberania da República de Angola e a formação de quadros são assuntos desenvolvidos pelo Comandante da Força Aérea Nacional (FANA), general Francisco Lopes Gonçalves Afonso “Hanga”, em entrevista exclusiva à Angop por ocasião dos 40 anos da independência. Acompanhe na íntegra.

General Hanga - Chefe do Estado Maior da Força Aérea Nacional (Foto: António Escrivão)
General Hanga – Chefe do Estado Maior da Força Aérea Nacional (Foto: António Escrivão)

(Por Stella Silveira)

Angop – Vamos falar da Força Aérea no âmbito dos 40 anos da independência nacional. Quando e como surge a ideia da criação da Força Aérea Nacional?

Francisco Afonso (FA) – Angola havia atingido a independência e não foi uma passagem pacífica como acontecera, por exemplo em Moçambique, mas os portugueses partem e deixam-nos a mãos com um conflito interno. E é assim que a 21 de Janeiro de 1976 é criada pelo presidente Agostinho Neto a FAPA/DAA. Ela nasceu na Base Aérea Nº 1, no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, e nasce do embrião de um pequeno núcleo de jovens saídos da Força Aérea colonial portuguesa, num momento em que se impunham actividades permanentes para a recuperação das instalações, equipamento e meios técnicos abandonados pelos portugueses, com vista a responder as exigências inerentes à defesa da integridade territorial e a independência do país, que acabava de ser proclamada a 11 de Novembro de 1975.

À luz dos acordos de Bicesse, a Força Aérea Popular de Angola/Defesa Anti-Aérea (FAPA/DAA) foi redimensionada, em Setembro de 2002, e passou a designar-se Força Aérea Nacional (FANA).

Angop – Que políticas guiavam a formação de quadros da FAPA/DAA?

FA – O grande défice de quadros que se vivia na altura fez com que se definissem prioridades no processo de formação e foi assim que, a partir de um processo selectivo, foram enviados jovens para a ex-União Soviética a fim de serem formados como pilotos, entre outras especialidades necessárias para o crescimento da Força Aérea. No país, foi criada a Escola da Aviação Militar Comandante Bula, no Negage (Uíge), a 11 de Novembro de 1985. Mais tarde, esta transformou-se na Escola Militar de Formação Aeronáutica do Lobito. Portanto, estas duas instituições vieram dar corpo e resposta à formação de quadros para a Força Aérea.

Angop – Pode-se falar um pouco mais dessas escolas?

FA – Criamos primeiro a Escola do Negage e depois a escola do Lobito. A Escola do Negage foi inaugurada por Manuel Quarta Punza, então governador provincial do Uíge. Já a escola do Lobito é uma extensão da Escola do Negage, cujo corpo docente é formado por jovens oriundos da Escola do Negage, já que esta última foi destruída com a ocupação do Negage pela Unita. Mas continuamos a mantê-la. As suas infraestruturas estão delapidadas, mas temos pretensões de recuperá-las apesar do seu objectivo ter deixado de ser o de formar jovens. Mas já fizemos formação de controladores de tráfego, pilotos, técnicos, comissários. Hoje faz parte da história e pretendemos transformá-la, dar corpo, mas não é uma prioridade no momento.

Angop – Como era, na altura, o ingresso para a FAPA e qual o método de selecção?

FA – Nós vivemos dois momentos: durante o conflito armado não havia tantos voluntários para as FAPLA. Hoje já há um movimento inverso, todos querem ir para as Forças Armadas, porque já representam um lugar de oportunidades, mas como a entrada para as Forças Armadas é um serviço militar obrigatório, quando entramos, podemos seguir por três caminhos.

Cumprimos três anos e saímos, que é o período de serviço obrigatório; podemos, por uma questão de contrato, ficar até oito anos ou um pouco mais, por vontade do militar ou por conveniência da instituição que pretende que esse jovem permaneça, ou ainda uma última classe que é o quadro permanente, composto por jovens que entram para as Forças Armadas para fazer carreira, o que chamamos “quadro permanente”. Este último grupo já está em preparação. Mandamos para o exterior do país, onde fazem uma licenciatura militar de cinco a seis anos nos diferentes ramos das FAA, mas também podem fazer formação em Angola, pois já temos academias. São estes jovens os potenciais generais, aqueles que vão constituir o topo da pirâmide das Forças Armadas.

Portanto, o processo de selecção decorre desses jovens voluntários, com um potencial muito grande, cerca de 40 mil jovens oferecem-se voluntariamente, por ano, quando as necessidades da Força Aérea são de 500 a 700 candidatos por ano a nível nacional.

Esses jovens são seleccionados. A nossa exigência anda entre a 9ª e a 12ª classe. Os que tiverem a 12ª classe ou até frequência universitária são os que absorvemos para fazer parte dos quadros, os que potencialmente podem ir para o exterior ou internamente fazem academia.

O processo de selecção é feito no nosso centro de avaliação. Fazemos avaliação psicotécnica, levantamento de saúde e uma recruta, para posteriormente serem distribuídos pelas distintas especialidades que possuímos.

Angop – Que situação de saúde pode impedir um jovem de ser mobilizado?

FA – As pessoas com doenças crónicas como diabéticos, hepatite C, tuberculose e outras do fórum cardíaco, por exemplo, pessoas com deficiência auditiva grave, deficiência visual e outras, ou com defeitos no corpo que possam dificultar o seu desempenho físico, já que o Exército exige muito esforço físico do indivíduo.

Angop – Que importância tem a Força Aérea na defesa da soberania da República de Angola?

FA – Normalmente os países têm mar, terra e ar no âmbito dos três ramos das Forças Armadas. No nosso caso, a Força Aérea surge com a seguinte missão: proteger o espaço; apoiar as tropas; ter uma participação na reconstrução nacional, apoiando situações difíceis como calamidades e transporte de meios diversos no interesse da reconstrução nacional.

Angop – E então qual é o grau de importância da Força Aérea no âmbito dos três ramos das Forças Armadas?

FA – Pela sua grandeza, em primeiro lugar, temos o Exército, depois a Força Aérea e a Marinha. Mas em termos de influência, na manutenção da integridade territorial de Angola, podemos afirmar que a Força Aérea teve um papel superior, no sentido de que conseguiu garantir a ligação entre as 18 províncias do país. Não se podia circular por terra devido à guerra. Naquela época, toda a movimentação era feita por via área. É verdade que não é um mérito único da Força Aérea, a TAAG e outras companhias desempenharam, e bem, o seu papel para manter a interligação nacional.

Mesmo no caso de países com uma dimensão territorial mais pequena, o ramo número um é a Força Aérea, que lhes permite ter uma prontidão de tal ordem que, em caso de agressão, ou ataque, possam responder imediatamente até que se mobilize o Exército.

Angop – Falou da batalha do Negage. Pode dar mais detalhes sobre a participação da FAPA nessa batalha ou mesmo do envolvimento da Escola de Aviação do Negage?

FA – Bem, a escola do Negaje, como Escola de Aviação, não teve uma participação muito directa no conflito. Tratou-se de um avanço das tropas inimigas no conflito. Houve sim um recuo generalizado da zona, em que nós perdemos alguns jovens e outros foram raptados, mas não chegou a haver um combate na escola.

Angop – Como é que Angola, e no caso a Força Aérea, se organizou perante a invasão sul-africana?

FA – Tivemos a invasão sul-africana duas vezes. Um pouco antes da independência, em que eles chegaram quase aqui ao Ebo, na zona do Waco Cungo. Chegaram a entrar em Benguela, mas depois foram forçadas a retirar-se, pois tivemos o apoio das tropas cubanas, além de contarmos já com esse processo de crescimento das Forças Armadas Angolanas. Entretanto, na invasão de 1984, na de 1987 e na de 1988, as tropas sul-africanas apoiavam a Unita por uma questão geopolítica e geoestratégica, não convinha que Angola seguisse a orientação política que seguia na altura. Havia ali um conflito de interesses muito grande. Nessa incursão, acercaram-se do Cuito Cuanavale, onde se dá então a celebre batalha, que decorre de Novembro de 1987 a Março de 1988.

O que se passa em relação à Força Aérea é que nós fomos crescendo, porque fizemos formação na ex-União Soviética, tendo o primeiro grupo de pilotos chegado ao país em 1980. Portanto, há aqui um processo de formação e a FAPA/DAA foi-se apetrechando com meios de defesa anti-aérea, com radares, com aviões cada vez mais modernos, sem, contudo, nos esquecermos do apoio muito importante que nos foi dado pelos companheiros cubanos.

Cuba veio incrementar o nosso poderio militar. Isso é inegável e é assim que nesse processo de crescimento, e com o recrudescer das acções combativas, fomos contrapondo a invasão sul-africana. Há aqui um pormenor que é importante atender: o facto de que a frente sul-africana, à medida que se afastava do seu território, da África do Sul, o seu braço logístico tornava-se cada vez mais profundo e mais difícil, apesar de que a situação para nós também não era fácil. A nossa logística central estava em Luanda e tudo era feito por via aérea, mas nós estávamos a lutar no nosso próprio território, defendendo a nossa Pátria. Há aqui o efeito material e a vontade de querer fazer, isso é uma componente incomensurável, que ajudou imenso a retermos os avanços sul-africanos.

Nós fomos mantendo sempre a aviação no ar, com aviões de vários tipos. Tivemos muitas perdas, mas no final fomos os vencedores e a Força Aérea cumpriu um papel muito importante na cobertura das tropas e no asseguramento das tropas nesse cenário.

Angop – Como é que a FAPA conseguia essa supremacia perante um Exército organizado como o sul-africano?

FA – Essa questão da Força Aérea tem efeitos persuasivos muito fortes. Só a nossa presença no terreno era suficiente para fazer com que eles se retirassem do cenário, porque eles sabiam que nós tínhamos aviões mais capazes, aqui havia como que um jogo. Eles vinham com Mirage e nós com os Mig-23, mas os Mirage tinham muitas desvantagens em relação ao nosso potencial. Os Mig-23 eram mais potentes, com melhor equipamento, estavam mais próximos do teatro de operações. Nós vínhamos do Menongue e eles vinham da fronteira com a Namíbia.

Angop – Entretanto, sabe-se que a invasão de 1975 foi bem diferente…

FA – Em 1975, as forças de guerrilha chegaram ao país e fomos logo alvo de uma invasão sem termos tempo para preparar as nossas Forças Armadas. Mas isso também forçou Angola a preparar o seu Exército. Levou a que as forças fossem crescendo nesse cenário de guerra. Inicialmente permitimos alguns avanços, mas, mesmo em combate, fomos crescendo e o cenário foi mudando.

Angop – Como está hoje a FANA em termos de meios e equipamento?

FA – Neste momentos, estamos a reequipar-nos. Somos uma força a preparar-se para o novo momento do país e até 2017 nós teremos a Força Aérea toda reedificada. É claro que muita coisa mudou, já não somos um país em guerra, as necessidades do país passam a ser outras, mas nós não podemos nunca descorar a defesa da soberania.

Angop – Qual o teatro de guerra que a história de Angola não pode apagar?

FA – A guerra foi difícil, ceifou muitas vidas e trouxe muitos prejuízos em meios e equipamentos. Portanto, todas batalhas têm um lugar ímpar na História de Angola, mas a Batalha do Cuito Cuanavale é, sem sombra de dúvidas, esse cenário inesquecível por todas as razões que já apontei.

Perfil

Francisco Lopes Gonçalves Afonso é natural do Gulungo Alto, província do Cuanza Norte, mas foi em Luanda que cresceu e viveu até finais de 1974, altura em que, frequentando o 3º ano da faculdade de Medicina, foge do país para se juntar à luta de libertação nacional ao lado dos guerrilheiros do MPLA, em Brazzaville (Congo). Para informar a família sobre o êxito da sua viagem, enviou uma mensagem codificada pelo programa “Angola Combatente” para que não fosse interceptada pela polícia política portuguesa e a mensagem dizia: “Hanga e Kilamba chegaram bem”; Kilamba fazia referência a Marília Coelho, jovem com quem se casou, em Luanda, em 1976.

Hanga é uma palavra da língua nacional quimbundo e significa em português  galinha-do-mato. Foi assim adoptado pelo jovem guerrilheiro como nome de guerra. Anos mais tarde, já capitão do Exército depois de ter passado pela União Soviética, onde fez o curso de pilotagem, a história tentou rebaptizá-lo para Wanga e, como ele mesmo conta, “tudo começou no trocadilho entre o meu nome e a minha patente, quando os camaradas me chamassem “capitão Hanga”, soava wanga, que quer dizer feitiço, e até hoje muita gente me chama Wanga.

A participação em vários cenários de guerra pelo país e um curriculum cheio de histórias de superação elevaram o capitão a general. Recentemente foi reconduzido, pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, ao cargo de Comandante da Força Aérea Nacional (FANA). (portalangop.co.ao)

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA