As Livrarias e as Cidades

Gabriel Baguet Jr (Foto: Jorge Monteiro/Portal de Angola)
Gabriel Baguet Jr (Foto: Jorge Monteiro/Portal de Angola)
Gabriel Baguet Jr (Foto: Jorge Monteiro/Portal de Angola)

A modernização das cidades ou o crescimento das mesmas em qualquer lugar do mundo, comporta invariavelmente múltiplas opções e escolhas de quem as dirige, de quem as pensa e projecta. Já aqui nestas páginas do Semanário O PAIS referi-me várias vezes ao crescimento demográfico de Luanda, mas igualmente a uma parte da sua História para não incorrer em imprecisões. Mas há um dado que continua a inquietar-me para além de reconhecer que a cidade cresceu, que a cidade pós-guerra civil comporta outra imagem urbana e paisagística e que se transforma. Mas as cidades não são, nem poderiam ser apenas palco de construção de edifícios sem outras estruturas que façam parte de um todo urbano, arquitectónico, histórico, cultural e patrimonial que é também uma luz colectiva na cidade que se projecta para hoje e para o futuro. E não se pode negar a História por mais que alterações que se façam aqui ou ali ou que se construam prédios de 30 ou 40 andares. Não tenho nada contra. Porque a história dos grandes edifícios em altura também se vê em Londres, Paris, Nova-Iorque, Berlim e noutras capitais do mundo. Não me choca constatar essa realidade arquitectónica nas cidades anteriormente citadas, nem tão pouco na cidade em que nasci e é Luanda. O que me choca é que se pretenda acabar com um lado histórico e patrimonial da baixa luandense, quando noutras cidades do mundo e com quem a nossa capital tem geminações estabelecidas, constata-se a preservação do Património por razões de interpretação históricocultural, mas também por razões de ordem patrimonial e turística. E Luanda não pode fugir a essa regra universal. A construção de um novo património edificado e a edificar não deve anular pelos motivos que evoquei e que assumo por inteiro destruir estruturas que embora construídas no período colonial, servem de referência a um tempo, mas a um período da nossa História antes da Independência. Tenho também referido que é justo reconhecer que Roma e Pavia não se fizeram num dia. Mas destruir a Livraria Lello que milhares de gerações antes e depois da Independência continuam a frequentar não faz qualquer sentido. É uma opinião que assumo. E assumo por inteiro este pensamento pela importância que a Livraria Lello tem na História Urbana e Cultural da cidade, porque representa um espaço de Leitura e de encontro com a Literatura e com as palavras que os Escritores preenchem as páginas dos livros que escrevem e produzem. As Livrarias são e devem constituir parte integrante do nosso crescimento urbano, multiplicando-se em vários segmentos temáticos ou não e estendendo-se a sua implementação a outras Províncias do nosso País. A Livraria Lello pelas informações que me chegam de amigos próximos quer em Luanda, quer os que vivem noutras capitais do mundo parece ter os dias contados. A confirmar-se em definitivo essa opção, julgo que não é só a cidade de Luanda que perde mais uma estrutura histórica da cidade, como os leitores, os estudiosos, os amantes dos livros e as gerações ainda vivas que frequentam a Livraria Lello. Quem visita e conhece a cidade do Porto e tem a possibilidade de conhecer a Livraria Lello do Porto verifica como o cidadão portuense ou estrangeiro fica encantado com a decoração interior da Livraria, mas com a diversidade patrimonial que ela em si encerra. E se isso orgulha os portuenses e quem a visita, também nós angolanos devemos ter o orgulho de preservar o que faz parte do nosso Património Cultural e valorizar e preservar esse lado da História. A minha opinião conta o que conta. Mas quem ama a cidade de Luanda também sente que a natural evolução que a mesma sofre, pode também num plano paralelo abrir a perspectiva de corrigir algumas opções e multiplicar por múltiplos lugares da cidade, a existência de mais Livrarias. As Cidades não vivem sem Livrarias. E não há Livrarias sem Cidades. Existem as livrarias particulares ou seja aquelas que fomos acumulando em casa, mas essas não comportam um acesso publico mais amplo e diversificado da população em geral e naturalmente de quem nos visita se considerarmos que até numa perspectiva de diversificação da economia, as Livrarias geram postos de trabalho, oferecem Conhecimento e Saber e trazem mais-valias ao Turismo Cultural. Logo, a preservação da Livraria Lello com as necessárias melhorias que uma Livraria histórica deve ter, é uma decisão a ponderar como toda a envolvente da histórica baixa luandense. A transformação da antiga Fábrica de Sabão em Museu da Ciência é um bom exemplo de preservação da História Urbana e Cultural da cidade. O futuro também se constrói na Memória. E essa opção estratégica gera desenvolvimento interno e da mesma maneira que quando viajamos procuramos lugares de referência como os Museus ou outros equipamentos Culturais, o aumento de mais e modernas Livrarias a par das existentes, constituem uma referência de Marca Cultural da nossa Identidade como Povo e como Nação. No ano em que celebramos 40 anos de Independência e que muitas foram as conquistas em vários domínios, será importante ter orgulho pelo que produzimos e fazemos, internacionalizando-se em diferentes domínios essa conquistas, mas reforçando do ponto de vista das mentalidades, uma visão humanista e integrando os múltiplos saberes como forma de reafirmação da nossa unidade nacional, mas com um sentido de partilha fraterno da Nação Angolana. Admitirão alguns leitores esta minha utópica visão, mas é na Paz, na partilha efectiva de boas ideias para a reconstrução da Nação que o Desenvolvimento se consolida e cresce. As boas e históricas Livrarias também trazem às Cidades e aos países valência múltiplas no encontro com a Sabedoria e a Sociedade de Informação. Que a Livraria Lello continue a figurar no lugar da Memória da nossa cidade como um sinal de Desenvolvimento. (opais.co.ao)

por Gabriel Baguet Jr

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