As falhas de Joseph Blatter

SOUSA JAMBA Jornalista e escritor (Foto: D.R.)
SOUSA JAMBA Jornalista e  escritor (Foto: D.R.)
SOUSA JAMBA
Jornalista e escritor
(Foto: D.R.)

O escritor francês, La Rochefoucauld, especialista em aforismos, escreveu que nós nunca nos cansamos dos problemas dos outros. As acusações e especulações à volta do órgão que gere o futebol do mundo (FIFA) que correram mundo nos últimos dias, parecem dar-lhe razão. Para os interessados em questões de liderança, a atitude de Sepp Blatter, que aos 79 anos foi reeleito para o quinto mandato como presidente da FIFA, será analisada minuciosamente.

Para já, o consenso é que como líder, Blatter falhou completamente. Quando os escândalos de corrupção rebentaram nos media (nada que já não tivesse ocorrido ao longo do seu reinado de 17 anos) ele distanciou-se das alegações dizendo que não era capaz de vigiar todos os membros da sua organização. Perante a pressão da opinião pública mundial, ele lá acabou por assumir que o presidente é sempre responsável (nem que seja pelo acto de se saber rodear das pessoas certas). Blatter até tem alguma razão quando diz que a FIFA é uma organização global, cujos membros têm diferente visões e formas de trabalhar.

Mais uma razão, portanto, para o presidente unir essa diversidade. O que não parece ser o caso. Hoje, Blatter só é popular nos países emergentes (sobretudo em África e na Ásia), onde permanece a percepção de que o papel da FIFA deve ser o de promover o futebol através da construção de infra-estruturas. Na Europa e na América do Norte as prioridades são outras.

Onde Blatter não tem razão é que numa organização global tem de haver princípios éticos e normas claras. O que faz o futebol ser tão atractivo para milhões de pessoas é que todos respeitam as regras que garantem uma competição justa e isenta. Há algo atraente em notar que o pequeno Togo estará no campo a jogar 90 minutos com o gigantesco Estados Unidos e que os respectivos jogadores terão de obedecer às mesmas regras. Depois há a figura do árbitro. Há propostas que defendem o uso das tecnologias e dos computadores na arbitragem. Muitos, porém, não estão confortáveis com essa ideia porque o árbitro representa a fé na integridade dos homens e mulheres. Este é um principio sustentado pelos valores do desporto, os quais deveriam ter na FIFA um guardião infalível, acima de qualquer suspeita.

Quem critica Sepp Blatter diz que ele nunca soube defender esses valores, permitindo o surgimento de uma cultura que tolera a corrupção. É um caso clássico da diferença entre gerir e liderar. O que a FIFA precisa é de liderança. Diz-se que os delegados que foram presos pelas autoridades, acusados de corrupção, estavam hospedados num dos mais caros hotéis da Suíça. Aparentemente, estes delegados deslocam-se àquele país anualmente. O que Blatter deveria ter feito é usar estas ocasiões para criar uma clara visão sobre o papel da FIFA. A questão da integridade e transparência deveria estar no topo da agenda. Não é impossível criar uma cultura de transparência numa organização do tamanho da FIFA. Uma vez essa visão fi car bem solidifi cada, então, a FIFA deveria envolver-se numa campanha para espalhar os seus valores. Um bom exemplo é a campanha da UEFA (a organização europeia do futebol) no combate contra o racismo. A FIFA deveria ter um programa idêntico em que os seus valores seriam amplamente difundidos, não só durante o Mundial, mas também durante o processo que leva à escolha do país organizador e dos patrocinadores.

Há várias décadas que algo parece estar podre na FIFA. Um programa recente da BBC, entrevistou um jornalista recentemente preso no Qatar. Ele estava naquele país para investigar as muitas alegações sobre o mau trato de trabalhadores estrangeiros — na sua maioria paquistaneses — que têm vindo a construir os estádios para o Mundial de 2022. O jornalista reportou que esses trabalhadores vivem em condições indignas até mesmo para os animais. Ele não foi o único a acusar o Qatar de tais práticas. Muitos dizem que aquele país só conseguiu ser o anfi trião do Mundial por ter subornado dirigentes. Perante isto, Blatter foi um mero espectador, perplexo pelos acontecimentos à sua volta.

Também há acusações em curso nos tribunais sobre os vários milhões de dólares que foram parar às contas privadas dos dirigentes de topo da FIFA. Nos Estados Unidos, sabe-se que muitos deles nunca declararam os seus rendimentos ao fisco. Nas Caraíbas, Jack Warner, ex-vice-presidente da FIFA, é acusado de ter recebido 10 milhões de dólares para apoiar a candidatura da África do Sul ao Mundial de 2010. Os jornalistas dizem que há relatórios internos da FIFA sobre a conduta ilícita de dirigentes que nunca foram disponibilizados ao público. São tantos os sinais que ninguém percebe como Blatter diz não saber de nada. A grande questão é como é que um líder que falhou em tantos aspectos, como Sepp Blatter, conseguiu ser reeleito? Muitos analistas chegam a dizer que a FIFA passou a ser uma espécie de Máfi a, onde muitos dos seus dirigentes integram as redes que beneficiam da falta de transparência . Daí que eles tenham preferido votar no “Padrinho” Blatter. Nada disto inspira fé no que deveria ser uma organização para promover os melhores valores do mundo. (exame.ao)

SOUSA JAMBA Escritor e jornalista angolano, radicado nos Estados Unidos


 

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