Angola está no mapa dos cruzeiros, mas há muito a melhorar

(Foto: D.R.)
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Há operadores disponíveis para fazerem de Luanda um porto de embarque e desembarque de turistas, mas há ainda um longo caminho a percorrer a vários níveis. Em 2015, oito navios já fizeram escala no País, e outros tantos deverão seguir-se até ao final do ano em Luanda, Benguela e Namibe.

A indústria de cruzeiros tem vindo a crescer a nível mundial e, segundo dados da Organização Mundial de Turismo (OMT), o número global de passageiros de cruzeiros aumentou de 1,4 milhões em 1980 para 22 milhões em 2014. Em 2013, a indústria de cruzeiros rendeu um total global de 52 mil milhões USD. Números bastante promissores, que estão longe do limite e prometem continuar a crescer em todos os cantos do planeta.

Apesar de o continente africano estar ainda aquém destes valores, os recursos naturais de que dispõe e a enorme área costeira que serpenteia alguns países podem ser argumentos para fazer vingar esta indústria que, para além de atrair visitantes que costumam gastar alguns dólares quer em souvenirs, quer em excursões locais, proporciona emprego a vários níveis. Marrocos e a Tunísia são os países que mais passageiros de cruzeiros receberam nos últimos anos no continente africano, segundo dados da OMT, mas outros há que têm vindo a apostar nos cruzeiros enquanto captação de receitas, como a África do Sul.

Já no que diz respeito a Angola, o Governo tem vindo a público dizer que está a trabalhar com as agências de viagens e operadores turísticos para que os diversos portos nacionais comecem a receber navios de cruzeiro. O Expansão remeteu algumas questões a responsáveis governamentais da área do turismo, mas até ao momento do fecho desta edição não recebeu qualquer resposta.

Oito navios em Angola em 2015

Este ano já fizeram escala em Angola oito navios e são esperados mais oito em Luanda, Benguela e Namibe. No Plano Director do Turismo – Eixos de Desenvolvimento 2011-2020, um dos sectores mencionados para futuro desenvolvimento é o turismo náutico e de cruzeiros. A dimensão e beleza da costa marítima angolana é mencionada como potenciadora deste turismo e, como tal, está previsto o desenvolvimento de infra-estruturas como docas, marinas, e serviços de apoio, nomeadamente estaleiros.

Mas está Angola preparada para receber cruzeiros e cruzeiristas? Segundo José Cabral, da operadora de turismo Travelgest, no final do ano passado estava previsto um cruzeiro Lisboa- -Luanda-Lisboa com o navio Funchal, mas, por impossibilidades por parte da empresa detentora do navio, a Portuscale, a viagem acabou por ser cancelada, não havendo, para já, uma data para que aconteça, até porque, entretanto, o Funchal deixou de operar.

Luanda pode dar tiro de partida

Apesar de não haver cruzeiros a sair de Luanda, aquele responsável refere que “a Travelgest já está a negociar com empresas de cruzeiros internacionais, havendo algumas que mostraram interesse em tornar Luanda um ponto de embarque/desembarque de passageiros. Temos trabalhado bastante nesse sentido e julgamos que em 2017 isso já seja uma realidade, pelo menos em Luanda”. Contactado pelo Expansão, o director-geral da companhia MSC Cruzeiros em Portugal (cujos mercados de Angola, Moçambique, Cabo Verde e São Tomé estão também sob a sua alçada), Eduardo Cabrita mostrou-se disponível para realizar cruzeiros com saída de Luanda.

“Estamos disponíveis para reunirmos com empresas ou consórcios de Angola e Moçambique que queiram potenciar o sector dos cruzeiros através do fretamento dos navios MSC Cruzeiros que se vão posicionar no Sul de África, de forma a efectuar uma temporada com itinerários com saída e chegada a Luanda, e com saída e chegada a Maputo, dentro do período compreendido entre Novembro de 2015 e Maio de 2016, nos próximos três anos”, afirma.

O responsável explica que a empresa de cruzeiros, que todos os anos posiciona um dos seus navios no Sul do Continente, fazendo Cape Town, Walvis Bay e Durban, Maputo, terá neste Inverno 34 cruzeiros, feitos pelo MSC Sinfonia, com capacidade para 2.600 passageiros. Para já, Eduardo Cabrita explica que continuam a fazer prospecção de mercado e estão abertos a propostas, até porque acredita que os angolanos poderão ser um bom mercado.

Também José Cabral, da Travelgest, sublinha começar a “haver algum interesse por parte dos angolanos neste sector do turismo, mas não num número muito significativo, talvez também pelo facto de não termos ainda a possibilidade de o fazer a partir de Luanda. Acreditamos que, quando tal acontecer, a procura irá aumentar substancialmente. A Europa e as Caraíbas são, normalmente, os destinos que mais procuram”.

Segurança e oferta turística aos cruzeiristas

Mas nem tudo são rosas e, apesar de já se ter evoluído bastante nesta área, segundo o responsável da Travelgest, existem sempre casos que obrigam a cuidados adicionais. “Sugerimos uma maior capacitação das forças da ordem pública, tendo, por exemplo, formação a nível de turismo, pois muitos dos agentes de autoridade não sabem como lidar devidamente com um turista. É importante que os agentes de autoridade das várias áreas envolvidas estejam devidamente preparados para lidar com este fenómeno do turismo, visto que eles são também uma peça importante em todo este processo”, diz.

A verdade é que nem sempre a imagem de Angola fica na mente dos cruzeiristas nas melhores condições. Que o diga o director do navio de cruzeiros Albatros, José Brás, que, durante uma escala em Luanda, foi confrontado com alguns episódios menos agradáveis. “Passei por Angola o ano passado durante um cruzeiro à volta ao mundo, no Albatros. Antes de chegar ,estava muito excitado, porque sempre tive o sonho de conhecer este país. Quando saímos do navio, tivemos de caminhar durante 10 minutos, porque não são permitidos carros dentro daquela área. Durante esse percurso fomos abordados duas vezes por dois polícias que nos perguntaram se queríamos comprar droga. Fiquei muito envergonhado perante os passageiros que nos acompanhavam, de nacionalidade austríaca. Também não havia táxis à saída do porto e, como não tínhamos nenhuma excursão organizada, muitos passageiros regressaram ao navio, desistindo da visita”, recorda José Brás, e deixa um recado: “Se a cidade de Luanda quer realmente receber cruzeiros, tem de fazer mudanças de atitude, proporcionando conforto aos passageiros que podem trazer milhões de dólares à cidade”.

Também o responsável da Travelgest refere que as dificuldades são várias na hora de organizar excursões para os cruzeiristas, “especialmente a nível da sua operacionalização”, mas “o grande entrave são os preços”.

“O alto custo de vida da cidade de Luanda acaba por não ser muito atractivo para o turista que visita a cidade através deste meio de viagem. Desde a alimentação às peças de artesanato, tudo é caro e não incentiva ao consumo. Apenas a determinação e curiosidade dos turistas faz face a estas adversidades”, afirma Na hora de dar um conselho ao Governo para agilizar todo este processo, José Cabral refere: “Temos trabalhado bastante em conjunto com o Ministério do Turismo no desenvolvimento desta actividade do turismo de cruzeiros, com o objectivo de melhorar todas as condições necessárias para o crescimento deste sector do turismo. Para além desta actividade dos cruzeiros, devemos também apostar no desenvolvimento do turismo nacional através da identificação e criação de pontos turísticos especialmente a nível das províncias”.

Muito mais do que lazer O turismo de cruzeiros é, cada vez mais, uma das melhores formas de fazer férias ou de realizar workshops de formação ou incentivos aos colaboradores a bordo por parte das empresas.

Nos últimos anos, se a nível profissional se aposta no turismo empresarial e no desenvolvimento de várias acções de formação, por outro lado, cada vez mais os angolanos têm vindo a descobrir para si e as suas famílias os melhores navios e itinerários pelo mundo.

Quem o diz é Fernando Santos, da GlobalSea, que conta com 90 cruzeiros feitos em todo o mundo, conhecendo em detalhe muitos dos locais que recomenda aos clientes. Por exemplo, o que ajuda muito em qualquer lugar é a facilidade de fazer uma chamada via Skype ou Facebook, onde cara-a-cara se conversa sobre o tema e assim a confiança aumenta na mesma proporção da distância que é grande entre Angola e Portugal, diz. (expansao.ao)

Por: Sandra Martins Pereira

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