ADN para travar a caça furtiva de elefantes

(EXPANSAO)
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Calcula-se que em cada ano sejam mortos em África 50.000 elefantes para lhes arrancar os chifres e que só restam uns 500.000 exemplares. Agora, novas técnicas genéticas aplicadas à análise forense identificam a origem geográfica do marfim dos elefantes africanos apreendido pelas autoridades, permitindo intervir mais depressa na fonte desse tráfico ilegal.

Quase 50.000 elefantes africanos são caçados por criminosos em cada ano, número que já seria preocupante se a população desses paquidermes não estivesse reduzida a menos de 500.000. O motivo da caça intensa é o marfim dos seus chifres, pagos por verdadeiras fortunas. Na China, que representa 70% do mercado ilegal, é considerado artigo de luxo.

Elefantes e rinocerontes estão classificados como espécies em perigo crítico de extinção na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) de Espécies Ameaçadas, devido à alta procura, especialmente na Ásia, das suas presas. Para além do marfim dos elefantes, o quilo do chifre de rinoceronte, por exemplo, é pago mais caro do que o do ouro em alguns países asiáticos, onde se lhe atribuem propriedades curativas e afrodisíacas. Para enfrentar esta situação, o biólogo americano Samuel Wasser, director do Centro de Conservação de Biologia da Universidade de Washington, analisou o ADN extraído das fezes de muitos elefantes, em vários países de África, e assim criou um mapa genético da distribuição da espécie pelo continente.

Depois, cruzou as informações com o ADN dos chifres apreendidos. “Os elefantes converteram-se numa espécie de diamantes de sangue. Só no ano passado, o lucrativo e ilegal negócio do marfim procedente dos seus chifres movimentou uns 3.000 milhões USD em todo o mundo. E esse dinheiro vai parar directamente às mãos de grupos terroristas, que trocam chifres por armas. Portanto, não só estamos perante um grave problema de perda de biodiversidade como também de segurança internacional”, explica Samuel Wasser.

Há uns anos ocorreu a este biólogo uma ideia para tentar evitar a caça furtiva. E se se conseguisse identificar as principais áreas em que se abatiam estes animais? Desta maneira poderia intensificar- se a vigilância nessas zonas para dissuadir os contrabandistas. Para isso, recorreu à única arma que conhecia: a genética. Assim, Wasser fixou-se em África e recolheu amostras de excrementos de 1.350 elefantes, tanto da savana como da selva, em 71 pontos de 29 países do continente. A análise genética dessas amostras permitiu-lhe desenhar um mapa muito preciso das famílias de elefantes que viviam em cada zona.

Depois, desenvolveu um novo método para poder recuperar ADN dos chifres de marfim e, em colaboração com organismos internacionais, como a Interpol, começou a analisar amostras dos carregamentos de marfim apreendidos que estes enviavam ao seu laboratório. No total, analisou 28 apreensões realizadas entre 1996 e 2014, cada uma das quais contendo meia tonelada de chifres ou mais. Obviamente, não lhe enviavam a peça inteira mas discos finos procedentes da base do chifre, onde mais ADN está concentrado.

CSI da fauna selvagem

Assim, este biólogo pôde relacionar de forma estatística os genótipos (a informação genética) do marfim procedentes de elefantes de savana ou de selva, com as populações concretas distribuídas em cada zona geográfica. Os resultados, publicados na revista Science, sugerem que 96% dos carregamentos de marfim interceptados procediam de quatro pontos e que a partir de 2007 se concentraram em duas áreas, o que permite concentrar os esforços de policiamento e de eliminar grande parte desta chacina ilegal.

A primeira, que diz respeito aos elefantes da floresta, centra- -se num território situado entre o Nordeste do Gabão, o Noroeste do Congo-Brazzaville, o Sudeste dos Camarões e o Sudoeste da República Centro-Africana. Quanto à segunda, onde se faz a caça furtiva aos elefantes da savana, está localizada na África Oriental, entre o Sudeste da Tanzânia e o Norte de Moçambique. A preocupação é tanta, que a Interpol até criou, em Nairóbi, uma unidade especializada na luta contra a caça furtiva e o tráfico ilegal de marfim, que rende às redes criminais internacionais benefícios de 213 milhares de milhões USD ao ano, segundo as Nações Unidas.

Este avançado laboratório de genética forense aberto no Quénia é um óptimo exemplo de como tecnologias modernas podem ajudar na construção de um planeta sustentável. O edifício central deste novo serviço – que alguns meios denominaram o CSI da fauna selvagem – foi inaugurado no passado dia 8 de Maio, depois de três anos de trabalhos, e com um custo equivalente a 500.000 USD. Localizar os bandidos é historicamente a maior dificuldade de combater o problema da caça ilegal. Mas a inovação permitirá chegar rápido até eles – e prendê-los.

Sempre que se interceptar carne, marfim ou chifres no Centro e no Leste da África, amostras do carregamento serão recolhidas e enviadas para o laboratório queniano. Lá é realizada a análise de ADN que indica qual a espécie e até a que família pertenceu o animal. Os dados são cruzados com um banco de informações de reservas ambientais. O trabalho permite a localização exacta de onde ocorreu o crime. Agentes ambientais e policiais encarregar-se-ão de ir até à origem, onde tentarão desmantelar a rede ilegal. (expansao.co.ao)

por Benjamim Carvalho

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